Apoio o Barreiro a Capital da Cultura.Por isso mesmo, exijo que se faça bem
Por António Matias Lopes

Por Jornal Rostos
É exatamente porque quero que esta candidatura vença, e que vença a sério, que faço o que um aliado deve fazer: cobro o resultado e a competência. Quem apenas elogia não ajuda; ajuda quem exige.
A tese inaugural da candidatura, apresentada pela vereadora da Cultura, é sociologicamente sólida: o Barreiro não é uma cidade de monumentos nem de museus, mas uma cidade de memória industrial, de património associativo e de trabalho. O enquadramento é acertado, até sofisticado, porque parte do capital simbólico realmente existente em vez de importar uma identidade alheia à terra.
O diagnóstico está certo. O que tenho de cobrar é a distância, frequentemente abissal, entre o diagnóstico e a política que dele se faz decorrer. E essa cobrança começa por uma confusão que convém desfazer, e que dá o título a este texto: a cultura não é capital. Não no sentido em que um autarca em fim de ciclo é tentado a tratá-la.
Justin O’Connor, na obra cujo título é já um manifesto (Culture is Not an Industry (2024)), é inequívoco: o enquadramento da cultura como indústria criativa, medida por receitas, métricas de impacto e número de visitantes, foi um “cavalo de Troia” que falhou redondamente onde foi aplicado a sério. A cultura, defende, deve ser tratada como serviço público, ao mesmo título da saúde e da educação, fundamento da cidadania e da democracia, e não fator de produção convertível em retorno mediático. É este o padrão pelo qual vou medir a candidatura do meu concelho. E é por esse padrão que distingo, sem hesitar, estratégia de encenação.
Pedonalizar a rua central e a zona da Câmara, encher a Baixa de eventos fotografáveis, anunciar candidaturas com pompa, nada disto é, em si mesmo, estratégia cultural. É cenografia. A diferença não se mede no brilho da inauguração, mas no orçamento plurianual comprometido e na sua sobrevivência a um ciclo autárquico. E há que dizê-lo com todas as letras, porque a coincidência das datas o torna evidente: estamos em vésperas eleitorais, e de todas as políticas públicas a cultura é, de longe, a que melhor converte despesa pública em capital de imagem. Um arruamento pedonal rende uma inauguração; uma candidatura rende uma manchete; a soma de inaugurações e manchetes rende um mandato. O mecanismo é conhecido e previsível. Jamie Peck mostrou, de forma demolidora, como toda a retórica da “cidade criativa”, na versão de Richard Florida, serviu sobretudo de verniz progressista a políticas de competição interurbana e gestão da escassez. Nada disto é, em rigor, ilegítimo: é a gramática corrente do poder local.
Mas confundir essa gramática com uma política cultural é o erro que pode transformar a melhor oportunidade da minha cidade em mais um exercício de autopromoção. E é precisamente esse erro que, como apoiante, não estou disposto a deixar passar em silêncio.
A experiência portuguesa recente dá-nos dois avisos em sentidos opostos, e o Barreiro tem de escapar aos dois. Guimarães 2012 foi dos casos mais bem conseguidos da Capital Europeia da Cultura: deixou a Plataforma das Artes, a reconversão das fábricas de Couros, festivais hoje consolidados como o GUIdance e o Guimarães Jazz. E, no entanto, foi a própria vereadora da Cultura da época, Francisca Abreu, quem reconheceu que, poucos anos depois, desapareceram muitos dos negócios criados naquele ano e se perderam oportunidades de cimentar novas criações, deixando o aviso que deveríamos colar à parede: tão importante é preparar o ano em si como acautelar os anos seguintes. Mesmo o melhor dos eventos é alavanca, nunca destino: uma década depois, falava-se ainda da “consolidação” que faltara. O segundo aviso vem da minha cidade de adoção académica. Coimbra recebeu, em 2013, o selo da UNESCO para a Universidade, Alta e Sofia, e o turismo subiu de imediato. Mas o reconhecimento converteu-se sobretudo em passagem rápida: o próprio roteiro oficial promete-se como “35 hectares para visitar em cinco minutos, talvez sete”, e os comerciantes cedo notaram que o visitante atravessa a cidade sem nela ficar. É a disneyficação do património em estado quase laboratorial, o monumento como fundo de fotografia, não como motor de vida urbana. Eis o paradoxo que importa ao Barreiro: Coimbra tem monumento para fotografar em cinco minutos; o Barreiro tem comunidade e memória operária, que não se visitam em cinco minutos porque só existem se forem habitadas. É por isso que a candidatura do Barreiro, se for séria, não pode imitar nem o desperdício de quem nada deixa, nem a montra de quem se deixa reduzir a selo. Tem de fazer o mais difícil e o mais valioso: manter vivo aquilo que a torna autêntica.
Vale a pena insistir neste ponto, porque é o mais sociológico de todos. Sharon Zukin advertiu-nos de como a “autenticidade” urbana, incluindo a operária, é rotineiramente convertida em ativo de marketing, esvaziada precisamente daquilo que a constituía. Celebrar o património industrial como estética, sem comprometer recursos com as comunidades que dele são herdeiras, é a forma mais subtil de o trair. A pergunta decisiva é, no fundo, lefebvriana: quem produz esta cidade cultural? Se for o gabinete de comunicação a desenhá-la e a oferecê-la aos habitantes como espetáculo a consumir, ter-se-á negado o direito à cidade no exato momento em que se proclama celebrá-lo. Se, pelo contrário, forem os criadores, as coletividades e o tecido associativo do concelho a produzir, com meios e autonomia, o conteúdo da candidatura, então haverá ali, de facto, uma política cultural e não apenas a sua encenação.
Por isso deixo o meu apoio acompanhado de uma fatura de competência e de resultado. Que a candidatura responda, em letra de forma e com números, a três perguntas: que infraestrutura cultural permanente fica no Barreiro depois de 2028? Que orçamento está comprometido para além do ano do título? E quem decide a programação os criadores da cidade, ou o gabinete da Câmara? Se houver respostas claras, serei o primeiro e o mais entusiasta dos aplausos, e o orgulho dos barreirenses estará plenamente justificado. Se não houver, teremos assistido a mais um anúncio bonito numa rua agora sem carros. O Barreiro que soube sobreviver ao fim da sua própria indústria tem a minha confiança e o meu apoio. Falta saber se a candidatura terá a competência de os merecer.
António Matias Lopes escreve sobre matérias urbanas. É doutorando em Sociologia — Cidades e Culturas Urbanas na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
Referências
J. O’Connor, Culture is Not an Industry: Reclaiming Art and Culture for the Common Good (Manchester University Press, 2024) · J. Peck, “Struggling with the Creative Class”, International Journal of Urban and Regional Research 29/4 (2005) · S. Zukin, Naked City: The Death and Life of Authentic Urban Places (Oxford University Press, 2010) · H. Lefebvre, Le Droit à la ville (Anthropos, 1968) · Universidade do Minho/NIPE, Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura: Impactos Económicos (2013).













