A RAIA QUE NÃO ESPERA: A GUARDA, O INVESTIMENTO INTERNACIONAL E O TRABALHO DE TERRENO DA CCDRPor António Matias Lopes
Barreiro
Estive com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro e com alguns presidentes de câmara do distrito da Guarda, e o que ali se passou não se parecia com a imagem gasta que tantos guardam do interior, a do território que se queixa e espera. Parecia, isso sim, a reunião de administração de uma grande empresa nacional.

Por Jornal Rostos
Cada autarca com os seus projetos, cada município com a sua lista de problemas, mas e aqui está o que me surpreendeu, quase sempre com uma proposta de solução ao lado de cada problema.
E havia um representante do Governo a ouvir e a responder. Não com as desculpas do costume, aquelas que servem para ganhar tempo e adiar decisões, mas com um apelo direto à entrega e à participação coletiva. Não ao contentamento. À responsabilidade partilhada.
Foi uma lufada de ar fresco. E, confesso, fez-me renascer a esperança nas gerações que aí vêm.
Uma CCDR diferente
Para entender porque razão aquela reunião tinha outra densidade, é preciso perceber que a CCDR já não é a de antigamente.
Desde as últimas eleições, em Janeiro de 2026, os presidentes destas comissões passaram a ter uma legitimidade própria, saída do voto dos autarcas da região, e não apenas uma nomeação vinda de cima. Ganharam competências e ganharam meios, são hoje peça central na execução dos fundos do PRR e do programa Centro 2030. Deixaram de ser um carimbo administrativo para passarem a ser, de facto, um instrumento de desenvolvimento.
À frente da CCDR Centro está José Ribau Esteves, engenheiro, antigo presidente das câmaras de Aveiro e Ílhavo, eleito para um mandato de quatro anos. E o que vi não foi um dirigente de gabinete. Foi alguém com uma capacidade rara de operacionalizar, de transformar conversa em método, queixa em projeto, intenção em calendário. Sobretudo, de manter os autarcas ativos, empenhados e a olhar para o seu país como quem ainda acredita que vale a pena.
Manter um autarca do interior empenhado, em vez de resignado, é talvez a tarefa política mais difícil que existe em Portugal. E vi-a a ser feita.
A raia não é periferia. É porta.
Mas a esperança não se sustenta só com boa vontade. Sustenta-se com argumentos. E o argumento do interior raiano, quando se olha o mapa sem preconceito, é muito mais forte do que costumamos admitir.
Comecemos pela geografia, que não mente. A Guarda está no cruzamento da A25 com a A23, o eixo que liga o porto de Aveiro e o litoral à fronteira de Vilar Formoso, e daí a Salamanca e ao resto da Europa. Está a quarenta minutos de Espanha. Faz parte de um corredor europeu de transportes, não de um beco sem saída.
E há novidades concretas, não promessas. Desde 2025, e completando-se em 2026, a A25 tornou-se gratuita em todo o seu traçado, de Aveiro a Vilar Formoso. Pode parecer um pormenor; não é. Uma região do interior que deixa de pagar portagens no seu principal eixo de mercadorias acaba de melhorar, de um dia para o outro, a sua competitividade real.
Some-se a isto a Plataforma Logística da Guarda, o porto seco que cresce lote a lote naquela confluência de auto-estradas e a modernização da Linha da Beira Alta, que o Plano Ferroviário Nacional confirma como uma das principais portas de saída das mercadorias portuguesas para o norte de Espanha e para a Europa. A Guarda surge, nesse plano, como nó logístico entre os portos atlânticos, Leixões, Aveiro, Sines, e a fronteira terrestre. Não como ponta de linha. Como charneira.
E há ainda o que não se vê no mapa: incubadoras e polos tecnológicos na Guarda, em Castelo Branco, em Bragança, a atrair gente de fora à procura de outro custo de vida e de outro ritmo; incentivos fiscais ao investimento no interior; e uma cooperação transfronteiriça com a Espanha que, bem aproveitada, transforma a raia naquilo que a palavra sempre significou, não um fim, mas um limiar.
A raia não é a periferia de Portugal. É a porta de entrada da Península. A diferença entre uma coisa e outra não está no território. Está em quem o sabe ler.
O método é o contrário da espera
Tenho escrito, e voltarei a escrever, que a pior doença das nossas terras é a espera, esperar que outros resolvam, que o tempo resolva, que alguém de fora um dia se lembre de nós. É uma doença confrangedora, e tantas vezes defendida por quem confunde imobilismo com prudência.
Pois foi precisamente o contrário disso que encontrei naquela sala. Encontrei gente a sair para procurar investimento em vez de esperar por ele. Encontrei municípios a apresentar problemas comuns, infra-estruturas, acessibilidades, captação de investimento internacional e a perceber, finalmente, que muitos desses problemas só se resolvem em conjunto, à escala regional, e não freguesia a freguesia, vaidade a vaidade.
É esse o verdadeiro papel de uma CCDR forte: ser a mesa onde a região pensa como um todo. E é esse o mérito de quem a lidera com método e presença no terreno, como vi Ribau Esteves fazer, não a mandar de longe, mas a coordenar de perto.
O interior não precisa de pena. Precisa de estratégia, de articulação e de quem não desista dele. Precisa que se acredite que ali também se cria riqueza, se atrai capital e se fixam pessoas.
Vi, naquela reunião, todas essas condições reunidas ao mesmo tempo. Vi autarcas a comportarem-se como administradores de um património que é de todos. Vi um Estado a apelar à entrega, e não a oferecer desculpas. E vi uma região a recusar, com elegância e com trabalho, o papel de eterna adiada.
Por tudo isto, saí dali a acreditar mais. Não no milagre, nunca acreditei em milagres. Acreditei no método.
Porque o futuro do interior não virá de o esperarmos sentados. Virá de o irmos buscar lá fora, de o construirmos cá dentro, e de o defendermos todos os dias contra a tentação, tão portuguesa, de achar que o melhor que podíamos fazer já está feito.
Na raia, esta semana, vi gente que não espera.
E foi a melhor notícia que recebi há muito tempo.
Antonio Matias Lopes
Investigador Urbano_ Desenvolvedor de Projetos.
Junho de 2026













