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Barreiro: a cidade que se inaugura a si própria enquanto se abandonaPor António Matias Lopes
Barreiro

Caminha-se pelo Barreiro hoje e a cidade conta-nos, a cada esquina, uma história diferente da que os discursos oficiais insistem em narrar. Comecemos pela Miguel Bombarda, em frente à Câmara, onde se prepara a inauguração de um troço com pompa e circunstância: fitas, discursos de circunstância, fotografias para a posteridade do mandato. Mas basta dar dez passos para que essa encenação se desfaça. A cidade que continua, a cidade real, é outra, e está entregue ao abandono.

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Barreiro: a cidade que se inaugura a si própria enquanto se abandona Por António Matias Lopes Barreiro

Por Jornal Rostos

Seguimos pela rua e logo nos cruzamos com os deficientes motores, esses que deveriam ser a primeira prioridade de qualquer desenho urbano decente, sem saber por onde passar em segurança. Manda-se agora por aqui, depois por ali, sem aviso, sem coerência, os munícipes tratados como marionetas de uma gestão que muda de regra ao sabor do caos. A passividade tranquila transformou-se em queda, em risco, em humilhação silenciosa de quem apenas quer atravessar a sua própria cidade.
Avançamos até à Rua Stara Zagora e o caos ganha forma concreta: obras há meses, sem fim à vista, sem explicação pública, sem prazo. E ali, em frente à porta do antigo Forum, as passadeiras contínuas são um convite ao atropelamento grave, falta semaforização inteligente, falta a correção da rotunda que tornaria essa travessia segura. Não é previsão alarmista: é o desenho do risco, dia após dia, à vista de quem governa. Se um dia o acidente grave acontecer, ninguém poderá dizer que não foi avisado. E o estacionamento selvagem que ali se instala, devorando passeios e cruzamentos, não tem controlo nenhum, a polícia, quando intervém, faz-se de bode expiatório de uma incapacidade que não é dela, mas da autarquia que lhe impõe o caos como normalidade de gestão.

É essa mesma rua que nos leva à porta do que hoje é o Barra Shopping, antigo Forum Barreiro. E aqui o quadro repete-se, agravado: dezenas de pessoas em fila desde as seis da manhã, à chuva e ao vento, à espera de um atendimento de loja de cidade que devia ser um direito básico e se tornou um castigo logístico.
Mas o Barreiro não é só este perímetro de câmara e centro, este palco escolhido para as fotografias do mandato. Quem se afasta um pouco encontra o verdadeiro retrato da cidade. No Lavradio, as estradas vivem em estado caótico, buracos mal sinalizados, restos de obra que ninguém limpa, sujidade que se acumula como se a manutenção fosse um luxo reservado a outros bairros. No Alto Seixalinho e na Cidade Sol, a paisagem repete-se. E a Verderena, rebaptizada, com humor involuntário, "Riviera do Barreiro", mostra bem o critério desta gestão: só interessa nomear e anunciar o que é novo e fotografável; o resto, a generalidade da cidade, fica entregue ao abandono e ao esquecimento.

E já que se fala de bicicletas e de progresso, ainda bem que o Frederico Rosa se tornou ciclista, bem-vindo à equipa. Talvez agora, pedalando, tenha finalmente oportunidade de ver a sua cidade de outra forma: mais perto do chão, mais devagar, a verificar nos próprios locais por onde passa os buracos, os atropelos anunciados, as inconformidades que o Barreiro acumula há tanto tempo. Diz-se que um corpo em forma gera uma mente sã, pois bem, que essa lucidez física se traduza, de uma vez, em lucidez de gestão.
Continuamos e chegamos ao Parque Catarina Eufémia, o pulmão simbólico e histórico da cidade e encontramo-lo entregue ao abandono. Ali ao lado, a obra de Malangatana, destruída pelas obras, num dano porventura irreparável. Um património artístico de valor incalculável, deixado ao desgaste e ao dano, sem que a Câmara o preserve ou mande preservar. Uma autarquia que não cuida dos seus monumentos é uma autarquia que renuncia à sua própria memória e isso, em cidade candidata a Capital da Cultura, é mais do que um descuido: é uma contradição que desautoriza a candidatura antes mesmo de ela ser julgada.

É aqui, sentado neste parque que devia ser orgulho e é hoje sintoma, que o olhar muda de registo do cronista para o sociólogo urbano e para o investidor que também sou. E esse duplo olhar, a cada esquina percorrida, revela uma geometria incómoda: o desequilíbrio. Não é preciso ir longe para o ver, basta sair do perímetro fotografado da Miguel Bombarda e caminhar dois, três quarteirões, para que a pobreza urbana se revele sem disfarce, em fachadas degradadas, em comércio que fecha, em gente que envelhece sozinha em bairros sem manutenção. É este o verdadeiro mapa social do Barreiro, e nenhuma inauguração de seiscentos metros o vai apagar.

Há também a questão de quem chega. A inclusão de estrangeiros, trabalhadores, famílias, novos residentes que escolhem o Barreiro por preços ainda acessíveis face a Lisboa, devia ser tratada como oportunidade de regeneração social e demográfica. Mas inclusão sem política pública não é inclusão: é apenas chegada sem acolhimento, gente que ocupa o vazio que os outros, expulsos pela gentrificação, deixaram atrás de si. Uma cidade que não pensa esta equação em conjunto, quem sai, quem entra, quem fica esquecido no meio, não está a gerir população, está apenas a assistir a uma substituição silenciosa.
E chegamos à pergunta que devia estar no centro de qualquer estratégia municipal e que aqui parece ausente: que economia se está, de facto, a convidar? Fala-se de investimento, fala-se de regeneração, mas investimento em quê, para quem, gerando que emprego, que rendimento, que retenção de população jovem e qualificada? Uma rua bonita não é, por si só, uma estratégia económica. Sem essa pergunta respondida com rigor, sem um plano que diga qual o sector, qual o investidor, qual o retorno social esperado, a obra é cenografia, não desenvolvimento.

Para quem critica estes textos, deixo apenas isto, sem partidarismo e em memória pacífica: que motivos reais temos para festejar a inauguração segmentada e gentrificada de seiscentos metros da cidade? Será que o "novo Barreiro" começa ali, nesse troço fotografado, ou começa apenas quando a cidade toda, Lavradio, Alto Seixalinho, Cidade Sol, Verderena, e tudo o que fica entre eles, for tratada com a mesma atenção e o mesmo investimento? Caminhemos a cidade, não apenas o centro. É em esse caminhar mais largo que a pergunta da responsabilidade se torna inevitável: de quem é, afinal, a responsabilidade do que está a acontecer?

A resposta institucional já existe, e vale a pena recordá-la, porque é frequentemente esquecida pelos próprios eleitos. A Assembleia Municipal do Barreiro tem como missão representar os munícipes, fiscalizar a ação da Câmara Municipal e deliberar sobre as grandes opções estratégicas do concelho, é o órgão deliberativo, enquanto a Câmara é o órgão executivo. Se a Assembleia Municipal é quem deve fiscalizar, então a responsabilidade de André Pinotes Batista, seu presidente desde 2017, não pode ser secundarizada nesta equação. É a ele que cabe garantir que as grandes opções estratégicas do concelho sejam efetivamente discutidas e fiscalizadas, não apenas convocadas por edital e cumpridas como formalidade. Se a cidade vive este estado de desequilíbrio fora do centro fotografado, se as obras se arrastam sem prestação de contas, a pergunta dirige-se também a ele: que fiscalização tem sido exercida, em nome dos munícipes, sobre o estado das ruas, sobre os prazos das obras, sobre o destino do património destruído? Presidir ao órgão deliberativo não pode significar gerir apenas a ordem de trabalhos significa responder, perante a cidade, pela ausência de resposta do executivo.

E o silêncio do presidente da Câmara é, ele próprio, parte da paisagem que atravessamos. Quando a cidade reclama buracos, perigo, destruição patrimonial e abandono, do parque central ao Lavradio, do Alto Seixalinho à Verderena, e a única voz que se ouve é a do corte de fita, esse silêncio deixa de ser discrição institucional para se tornar desprezo. Não há uma palavra sobre os prazos da Stara Zagora, não há um pedido de desculpa pelas filas à chuva, não há um plano anunciado para o Catarina Eufémia, não há uma palavra sobre o mural destruído, não há uma palavra sobre as estradas sujas e esquecidas dos bairros. E não há, sobretudo, qualquer gesto de compensação aos munícipes que vivem, dia após dia, numa cidade que a sua própria gestão deixou cair.
Escrevo estas linhas sentado neste parque, o Catarina Eufémia, com a estátua de Malangatana danificada ali perto a recordar-me que memória e cidade são a mesma coisa quando alguém as cuida e a mesma ausência quando ninguém o faz. Termino onde quase comecei, a poucos metros da Câmara, e pergunto: que cidade é esta? Uma cidade histórica, candidata a Capital Portuguesa da Cultura 2028, que se deixa gentrificar profundamente, expulsando os seus velhos, excluindo os jovens que têm de estudar e trabalhar fora, deixando que o seu principal empregador público, o hospital, perca capacidade operacional e exporte serviços para fora das suas fronteiras. Isolada. Esquecida de si própria, e agora também silenciada por quem a devia defender.

O Barreiro não precisa de mais inaugurações de fachada. Precisa de uma cidade que se trate como tal, do centro à periferia, com manutenção, com segurança, com respeito pelos seus mais vulneráveis, com memória do que foi e ambição séria do que pode ser. Tudo o resto é cenografia de mandato, e os munícipes, que caminham todos os dias por este marasmo, já não são público que aplauda em silêncio.

Antonio Matias Lopes
Investigador Urbano.
Junho de 2026

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