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Uma ideia que ao Barreiro nem lhe passa pela cabeçaPor António Matias Lopes

Coimbra decidiu que o desporto é infraestrutura, não capricho. Uma arena multiusos na margem esquerda, sete mil lugares sentados para eventos desportivos, o dobro para os culturais, ancorada numa candidatura séria às Universíadas de 2033.

8 min de leitura
Uma ideia que ao Barreiro nem lhe passa pela cabeça Por António Matias Lopes

Por Jornal Rostos

Não é promessa perdida em campanha: é decisão de executivo, é vereador com pasta e nome, é a Federação Internacional do Desporto Universitário em visita à cidade para verificar se o que se diz tem chão para se cumprir. Coimbra constrói onde antes só havia um terminal de autocarros. Transforma infraestrutura de circulação em infraestrutura de encontro.
No Barreiro, o problema não é a falta de pavilhões na cidade, é a falta de uma estrutura municipal, pensada como tal, que sirva qualquer clube barreirense através de um calendário de provas organizado e partilhado. E é, também, a ausência de acompanhamento da Câmara à profissionalização de clubes com história e património que já têm casa, mas não têm quem os ajude a crescer dentro dela.

Comecemos pelo Luso Futebol Clube, fundado antes de 1927, um dos treze fundadores da Associação de Futebol de Setúbal, clube que já formou internacionais portugueses. O seu terreno histórico, o Campo da Quinta Pequena, foi demolido para dar lugar a um mercado municipal e a um supermercado. Ficou uma rotunda com um monumento a assinalar onde existiu o recinto. O resultado, décadas depois, está à vista: sem equipa sénior desde 2017. O clube mantém ainda o seu próprio pavilhão, na Avenida Henrique Galvão, mas é uma instalação antiga, visivelmente degradada, usada apenas por atletas e sócios, sem que a Câmara alguma vez tenha tratado a sua requalificação como prioridade.

Continuemos com o Futebol Clube Barreirense. Aqui a história não é de perda de instalações, é de estagnação. O clube tem o seu Ginásio Sede, onde treinam e jogam as equipas de formação de basquetebol, mas a equipa sénior, duas vezes Campeã Nacional, seis Taças de Portugal, duas participações na então Taça Europeia de Clubes, incluindo o histórico jogo com o Real Madrid em 1958, joga fora de casa, no Pavilhão Municipal Luís de Carvalho, por não dispor de um pavilhão próprio à altura da sua história. Um clube centenário, com um dos palmarés mais ricos do basquetebol português, continua sem uma casa condigna com o seu passado.

E chegamos ao Fabril, o mais recente episódio da mesma peça: o Pavilhão Vítor Domingos e o Estádio João Pedro encerrados por decisão judicial, no meio de um litígio entre o clube e o novo proprietário dos terrenos, cerca de seiscentas crianças e jovens sem saber se amanhã têm onde treinar. A Câmara só entrou em contacto para disponibilizar terreno alternativo depois de o problema estar consumado. Reage quando já não há nada a gerir, nunca antes, quando ainda havia algo a evitar.
E quando confrontado com a situação em Assembleia Municipal, o próprio presidente da Câmara remeteu o assunto para fora da sua esfera de responsabilidade: as atividades dos atletas do Fabril dependeriam da capacidade da direção do clube de negociar com quem comprou o terreno, frisou, sublinhando que a Câmara “não foi tida nem achada” na venda. É uma resposta juridicamente compreensível e politicamente inaceitável. Porque a pergunta não é de quem é o terreno, é de quem assume o interesse público na continuidade da prática desportiva de seiscentas crianças. Um ano depois, a situação mantém-se resolvida por boa vontade e acordos verbais entre partes privadas, sem qualquer garantia formal. E enquanto isto se arrasta sem uma posição de força do município, os pais fazem o que qualquer pai racional faria perante a incerteza: procuram outro clube para os filhos, agora, antes que a próxima decisão judicial os apanhe outra vez de surpresa. Cada criança que sai do Fabril por esta via é uma machadada na formação que o clube ainda tenta segurar e é também a prova de que, na ausência de uma Câmara que assuma a prioridade municipal sobre o problema, quem decide o destino da prática desportiva das crianças do Barreiro acaba por ser, de facto, um tribunal cível a dirimir um litígio entre dois privados.

Este afastamento não é um detalhe de gestão, é um sintoma. Uma Câmara que soubesse fazer cidade teria assumido, desde o primeiro dia, o papel de mediar uma solução que acomodasse o interesse legítimo do investidor e as necessidades do Fabril, negociar, propor, aproximar as partes, usar os instrumentos de planeamento que tem ao seu dispor para que investimento privado e património desportivo da cidade não fossem tratados como forças opostas. Não o fez, e essa ausência revela mais do que inércia burocrática: revela inexperiência e desinteresse genuíno pelo desenvolvimento da cidade enquanto projeto de fundo. O que interessa, aparentemente, é fazer obra visível, aparecer, mostrar o que é fotografável e publicável. O resto, negociar um litígio complexo, mediar interesses divergentes, construir uma solução duradoura para seiscentas famílias, não rende fotografia, não rende publicação, e por isso não recebe a mesma energia política. É a prova mais clara de uma incapacidade de fazer cidade: saber-se gerir o que aparece bem numa imagem, e não se saber gerir o que exige trabalho de fundo, invisível, sem palco.

Mesmo quem hoje está bem servido não deve isso à autarquia. O Galitos, clube profissional de basquetebol da Liga Portuguesa, tem o seu próprio Complexo Desportivo na Quinta da Lomba, mas construído e mantido pelo próprio clube, não como resultado de uma estratégia municipal para o desporto de alta competição na cidade.
Quatro clubes, quatro situações diferentes, perda de terrenos, degradação por abandono, ausência histórica de casa própria, litígio judicial e um denominador comum: em lugar nenhum aparece a Câmara a construir, planear ou coordenar. Nunca um pavilhão municipal multiusos pensado para servir todos, com um calendário de provas que desse a cada clube da cidade um palco à altura do seu mérito. Nunca um gabinete ou uma estratégia de acompanhamento à profissionalização dos clubes que já têm instalações e história, mas precisam de apoio técnico, de gestão e de investimento para dar o salto seguinte.

E quem responde por este pelouro, no dia a dia, é o vereador com competência delegada para o desporto e o associativismo, Rui Pedro Ferreira Pereira, há muitos anos uma figura fixa do executivo camarário, com passagem por outros pelouros antes de assumir o associativismo e o desporto. Há aqui uma coincidência que merece ser dita sem rodeios: o mesmo Rui Pedro Ferreira Pereira é também presidente do Luso Futebol Clube, precisamente o clube cujo pavilhão descrevemos linhas acima como antigo e degradado, sem que a Câmara alguma vez tenha tratado a sua requalificação como prioridade, e cuja equipa sénior de futebol desapareceu em 2017 sem que o pelouro do desporto tivesse travado essa queda. Se o vereador não conseguiu, dentro da sua própria casa, transformar a paixão associativa em infraestrutura e em profissionalização, que autoridade moral lhe resta para exigir isso dos outros clubes da cidade? Não é falta de tempo, nem falta de conhecimento do terreno, é a ausência sistemática de uma agenda que trate o desporto como pilar estratégico da cidade, com orçamento, plano de investimento e acompanhamento técnico à profissionalização dos clubes, e não como um conjunto de festas, inaugurações e presenças protocolares. Um pelouro exercido há tantos anos sem que se veja um único projecto estrutural, nem para o próprio clube que preside, nem para os outros, deixa de ser inexperiência e passa a ser desinteresse assumido pela função que devia defender.

E é aqui que a omissão pesa mais, porque não estamos a falar de alguém sem noção do que isto significa. Frederico Rosa, presidente da Câmara Municipal do Barreiro, foi durante quinze anos treinador de basquetebol, passou pelo FC Barreirense, pelo GD Fabril e pelo GD da Escola de Santo André, foi selecionador regional de sub-14 e sub-16. É, por formação e por percurso, alguém que sabe exatamente o que falta a estes clubes, porque já esteve dentro dos pavilhões degradados, já geriu equipas de formação sem instalações à altura, já viu de perto o que significa um miúdo de quinze anos não ter onde treinar. Não é preciso explicar-lhe a importância do desporto como pilar de educação e de cidade, ele viveu-a.

Por isso a pergunta não é retórica: porque é que essa experiência não se traduziu, ao fim de anos de mandato, numa única decisão estrutural para o desporto barreirense? Porque é que o desporto aparece, sobretudo, associado a festas e eventos pontuais, o autarca a inaugurar, a aparecer, a correr à frente da fotografia e raramente como pilar estratégico com orçamento, calendário e plano próprio? Quando a presença nos eventos substitui a presença nas decisões, quando o desporto vale mais como conteúdo para publicar do que como política para executar, o que resta é isso mesmo: instagramização, mais uma vez, em vez de estratégia.
Um autarca com este currículo não tem desculpa para não saber o que fazer. Tem, quando muito, a escolha de não o fazer e essa escolha, feita ano após ano, deixa de ser lapso e passa a ser opção de governação.

António Matias Lopes
Investigador Urbano
Julho de 2026

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