Saltar para o conteúdo
Colunistas

Terrenos, números e silêncios: o que se está mesmo a decidir na Margem SulPor António Matias Lopes
Barreiro

Enquanto o Barreiro discute travessias que ainda não têm data, há um outro tabuleiro a mexer-se em silêncio, mais perto de casa: o dos próprios terrenos industriais que, desde 2008, prometem ser o motor da requalificação de toda a Margem Sul. E aí a diferença entre concelhos já não é só a rede de contactos em Lisboa, é o que cada um está a construir dentro de portas.

10 min de leitura
Terrenos, números e silêncios: o que se está mesmo a decidir na Margem Sul Por António Matias Lopes Barreiro

Por Jornal Rostos

O que já está decidido, e onde

Desde a Resolução do Conselho de Ministros de 2008, há três territórios classificados como âncoras do projeto Arco Ribeirinho Sul: os 290 hectares da Quimiparque, no Barreiro; os 536 hectares da antiga Siderurgia Nacional, no Seixal; e os 55 hectares da Margueira, em Almada. Em Maio de 2023, o Governo rebaptizou a antiga Baía do Tejo como Sociedade Arco Ribeirinho Sul, S.A., liderada pela ESTAMO, e classificou o conjunto como projeto de potencial interesse nacional, o que, na prática, lhe dá acesso a instrumentos de financiamento e agilização que um plano municipal isolado não tem.
É aqui que a diferença de velocidades entre Seixal e Barreiro se torna visível. Segundo um estudo de ordenamento e paisagístico encomendado pela autarquia do Seixal, o plano de pormenor para os terrenos da antiga Siderurgia Nacional estava, em Junho deste ano, a cerca de oito meses e meio da conclusão. O documento já define seis novas áreas de uso do solo: uma zona de equipamentos, comércio e serviços; uma zona de proteção paisagística associada à recuperação da Lagoa da Palmeira; áreas de expansão urbana residencial; e, o que mais interessa aqui, um pólo educacional projetado precisamente para ocupar as antigas instalações da SN.
Não há, até hoje, confirmação pública de que esse pólo seja a NOVA, mas a candidata natural salta à vista a quem conhece o terreno: a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA já ocupa, desde os anos 70, o Campus de Monte de Caparica, em Almada, a poucos minutos da antiga siderurgia. Um concelho que já tem uma faculdade instalada, e uma autarquia com estudo de ordenamento quase fechado, tem tudo para ser o parceiro natural de qualquer projeto de expansão universitária que precise de terreno barato e bem localizado. Enquanto isso, para os terrenos da Quimiparque, a Câmara do Barreiro só deverá divulgar o seu plano estratégico em Outubro, quatro meses depois do Seixal já ter estudo praticamente fechado.
Há ainda um pormenor que mostra que estes terrenos continuam disputados por interesses puramente industriais, não apenas por sonhos de reconversão: a Megasa, dona da fábrica da Siderurgia Nacional, está em negociações com a Parque Cidades do Tejo e a Administração do Porto de Lisboa para instalar um parque fotovoltaico num terreno adjacente à fábrica, com o Ministro das Infraestruturas a admitir, em Maio, que o entendimento poderia fechar-se “nas próximas semanas”. Ou seja: enquanto se desenha o futuro pólo educacional, a mesma zona continua a ser negociada, em paralelo, para usos industriais e energéticos por uma multinacional espanhola do aço. O Seixal está, ao mesmo tempo, a preparar-se para a universidade e a negociar com a indústria pesada, dois tabuleiros abertos, dois grupos de interesse a construir posição.

O Barreiro tem uma narrativa. Falta saber se tem estratégia

Enquanto isto acontece do outro lado do canal, o discurso público sobre o Barreiro tem-se concentrado noutro território: o dos números. Num artigo de opinião publicado a 14 de Julho, o vice-presidente da Câmara, Rui Miguel Braga, apresentou os dados do INE como prova de estratégia bem-sucedida: a população residente do concelho passou de 81.042 habitantes, em 2021, para 91.766, em 2025, um crescimento de mais de 13% e mais de 10.700 novos residentes, atribuído sobretudo à população em idade ativa e jovem, e associado à revisão em curso do Plano Diretor Municipal.
É um número real, com fonte credível, os dados do INE e um estudo sociodemográfico do ISCSP feito precisamente para essa revisão do PDM. Mas um número real também é, sempre, um número político: publicado por um vice-presidente, a poucos meses de o processo de revisão do PDM entrar em discussão pública, ele serve, ao mesmo tempo, para justificar o aumento de capacidade construtiva que qualquer revisão de plano diretor costuma trazer, e para validar politicamente a gestão em curso. Não há aqui necessariamente má-fé, mas há, com certeza, uma pergunta que o artigo não faz sobre si próprio: quase 100 mil habitantes é o resultado de uma estratégia de cidade, ou é a justificação que vai preceder a decisão de a construir? O próprio artigo admite que “seria intelectualmente desonesto” atribuir o crescimento apenas às escolhas locais, mas a moldura escolhida, e o timing da publicação, sugerem que o número está a ser preparado para argumento, não apenas para diagnóstico.

A centralidade dissociada: porque é que ter história industrial não chega

O erro de leitura mais comum sobre o Barreiro é assumir que centralidade se mede pela história, pela dimensão do território industrial ou pela proximidade geográfica a Lisboa. Não se mede. O que a investigação sobre centros urbanos pós-industriais mostra, de Lefebvre a Castells, é que a centralidade contemporânea não é uma propriedade do lugar, é uma relação, entre quem ocupa o território e quem decide sobre ele. Um concelho pode ter 290 hectares, décadas de cultura operária e uma posição geográfica privilegiada e, ainda assim, ser estruturalmente periférico, se a decisão sobre o que fazer com esse território, quem investe, quem desenha, quem financia, estiver a ser tomada noutro lugar. É esta dissociação entre território e decisão que proponho chamar centralidade dissociada: a coexistência, no mesmo espaço, de uma centralidade física herdada, industrial, infraestrutural, simbólica, e uma marginalidade funcional ativa, ausência de capacidade de decisão, de capital de investimento, de agenda própria.
O Barreiro é um caso de manual. Foi, durante décadas, o centro industrial incontestado da Margem Sul, Quimigal, CUF, Siderurgia, um tecido operário e uma identidade urbana fortes o suficiente para moldar gerações. Mas essa centralidade histórica não se converteu em centralidade de decisão na fase de reconversão. Enquanto o Seixal encomendava estudos de ordenamento e negociava, em paralelo, uma universidade e um parque fotovoltaico, ou seja, construía capital simbólico e posição ativa na rede de fluxos de investimento, o Barreiro geria a sua centralidade histórica como um ativo passivo, à espera de ser chamado. E a espera não fica parada: quem não decide ativamente sobre o seu território acaba, mais cedo ou mais tarde, a ver esse território decidido por outros.
É exatamente esta lógica que torna a questão do aeroporto de Alcochete mais grave do que parece à primeira vista. Não estar entre os concelhos naturalmente escolhidos para a nova centralidade aeroportuária não é apenas mau para o Barreiro, é a repetição do mesmo padrão estrutural: um território com ativos reais, a Terceira Travessia, a futura ligação de alta velocidade, a assistir, de novo, a que outros, Alcochete, Montijo, capturem a centralidade funcional da aerotrópole que se está a formar, tal como Seixal e Almada estão a capturar a centralidade funcional da reconversão industrial. Pior do que não ser normalmente escolhido, do que ser visto como um vizinho pouco relevante aos olhos de quem investe, é perder, pela segunda vez em duas décadas, a oportunidade de transformar cativos físicos reais numa posição de decisão.
E é por isso que a pergunta que fica no ar não é retórica: o que está o executivo municipal à espera? Que o tempo passe até ao final do mandato, como aconteceu com o ciclo de reconversão da Quimiparque desde 2008? A centralidade dissociada não se resolve sozinha, e não se resolve com discursos sobre crescimento populacional. Resolve-se com decisão ativa, agora, sobre os dois territórios que ainda estão em aberto, a Quimiparque e a aerotrópole de Alcochete, antes que também eles fiquem, como os outros, decididos noutro lugar.

O que falta não é diagnóstico, é uma proposta

O Seixal negoceia, em simultâneo, um pólo universitário e um parque fotovoltaico industrial, dois tipos de capital a competir pelo mesmo terreno reconvertido. Almada tem a Margueira e a NOVA já instalada como âncora. O Barreiro tem, para já, um número de habitantes em crescimento e um plano estratégico da Quimiparque ainda por publicar em Outubro. E é exatamente aqui, antes de Outubro fechar o guião sem ninguém ter sido chamado a pensá-lo, que o concelho tem uma janela concreta para deixar de reagir e passar a propor.
Se o Seixal resolveu o seu pólo educacional através de um estudo de ordenamento encomendado à medida, nada impede o Barreiro de ir mais longe: em vez de um plano estratégico fechado num gabinete e revelado já pronto, lançar um concurso internacional de ideias para os 290 hectares da Quimiparque, aberto a faculdades de arquitetura, urbanismo e engenharia, nacionais e europeias, à semelhança do que outras cidades portuárias em reconversão (Hamburgo, Roterdão, Bilbau) fizeram para transformar brownfields industriais em peças de charneira metropolitana. Um concurso destes não é só uma ferramenta de planeamento: é também a forma mais barata e mais visível de trazer para o Barreiro exatamente aquilo que o Seixal já está a negociar sozinho, presença académica, equipas técnicas de research, e um argumento com peso para candidaturas a fundos europeus que um plano municipal isolado dificilmente consegue sustentar.

O que falta não é diagnóstico, é um prazo

Não basta esperar por Outubro. Frederico Rosa, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, tem hoje, e não em Outubro, a responsabilidade executiva de decidir se os 290 hectares da Quimiparque vão a concurso internacional de ideias ou se ficam, mais uma vez, fechados num gabinete até estarem prontos para ratificação. E André Pinotes Batista, Presidente da Assembleia Municipal, tem a obrigação política de exigir, já na próxima sessão ordinária, que esse plano seja discutido antes de ser apresentado como facto consumado, não depois de fechado.

Não é aceitável que o Barreiro continue a comparar-se ao Seixal enquanto o seu próprio executivo não assume, por escrito e com data, três compromissos mínimos:

1. Publicação, até ao final de Agosto, do calendário completo do plano estratégico da Quimiparque, com fases e datas de discussão pública; não uma promessa para Outubro, um calendário verificável desde já.

2. Decisão formal, sim ou não, sobre a via de concurso internacional de ideias, levada por Frederico Rosa à próxima sessão da Assembleia Municipal e votada por André Pinotes Batista e pelos deputados municipais; não discutida informalmente nos corredores.

3. Abertura, nas próximas semanas, de um processo formal dirigido ao Governo e à ANA/NAV, com ofício datado e interlocutor identificado, a exigir a inscrição do Barreiro como centralidade distribuída do aeroporto de Alcochete; não uma intenção genérica repetida em discursos.

Sem estes três compromissos, com nome e prazo, o Barreiro continuará a ter um vice-presidente a publicar números do INE e um presidente da Câmara em silêncio sobre o que vai ser feito com os 290 hectares mais estratégicos do concelho. A vantagem competitiva do Barreiro; a única centralidade servida ao mesmo tempo pela Terceira Travessia e pela alta velocidade ao aeroporto, não se defende sozinha, e não se defende com discursos. Defende-se com decisões que Frederico Rosa e André Pinotes Batista têm de tomar agora, esta Câmara e esta Assembleia, com data marcada, não a próxima, não depois das eleições, agora.
Se Outubro chegar sem estes três compromissos cumpridos, o plano estratégico da Quimiparque, por muito bem escrito que venha, será apenas mais um documento municipal a competir, desarmado e atrasado, com projetos que já têm ESTAMO, Governo e universidade do seu lado.

António Matias Lopes
Investigador Urbano
Julho 2026

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção