A cadeira vazia: os preparativos de sucessão de Frederico RosaPor António Matias Lopes.
Barreiro

Por Jornal Rostos
Frederico Rosa acumula, como se sabe, dois chapéus; o de Presidente da Câmara Municipal do Barreiro e o de coordenador da Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal. Sobre essa acumulação e o que ela revela da arquitetura de poder na Margem Sul já aqui escrevi. O que hoje me ocupa é diferente: é o modo como se prepara, discretamente, a sucessão e o nome que parece ganhar terreno nesse processo é o de André Pinotes Batista.
Ora, se há um princípio elementar de boa governação local, é este: quem supervisiona não pode dever a sua posição a quem é supervisionado. E é exatamente aqui que o caso Pinotes Batista merece escrutínio, porque a sua posição atual, Presidente da Assembleia Municipal do Barreiro é, por definição institucional, o órgão que fiscaliza a Câmara. Perguntar se este desenho serve a democracia local ou serve a sucessão de Frederico Rosa não é um exercício de má-fé; é a pergunta mais básica que qualquer cidadão informado deveria fazer.
O ator e o palco
Há uma imagem que persegue André Pinotes Batista, e que ele próprio, involuntariamente, alimenta: a do comentador desportivo. Não se trata de acusação gratuita, mas de uma observação de estilo. Há um modo de estar na vida pública que privilegia o efeito sobre a substância, a frase de impacto sobre o argumento fundamentado, o gesto para a câmara sobre o trabalho de bastidores. Esse modo de estar pode servir bem um painel de comentário ao intervalo de um jogo. Serve mal, sirvo-me da palavra com intenção, o exercício de supervisão política de um município.
Mas a crítica de estilo, por si só, seria injusta se não se acompanhasse de uma leitura do currículo político que sustenta a posição atual. E aqui a pergunta torna-se mais incómoda: que percurso, que cargos, que responsabilidades assumidas justificam a confiança que hoje se deposita em André Pinotes Batista para presidir ao órgão que fiscaliza a Câmara do Barreiro e, no horizonte, para eventualmente suceder a Frederico Rosa na própria Câmara?
Um currículo político mede-se por responsabilidades assumidas e por resultados que lhes possam ser associados, não por tempo de exposição mediática. Se o percurso de André Pinotes Batista se resume, essencialmente, à eleição para deputado municipal e, mais tarde, à presidência da Assembleia, sem passagem prévia por pelouros executivos, sem gestão direta de orçamento, sem responsabilidade sobre uma área concreta de política pública onde se possa avaliar competência técnica, então estamos perante um caso em que a legitimidade para o cargo assenta quase inteiramente na confiança pessoal de quem o promoveu, e não num historial de trabalho fiscalizável. Convido os leitores com melhor memória institucional a corrigir-me se houver, de facto, um percurso mais substantivo que me tenha escapado, mas, salvo essa correção, o padrão que se observa é o de uma carreira construída mais sobre visibilidade do que sobre função.
E é precisamente na função onde a Assembleia Municipal deveria revelar esse currículo que o silêncio se torna mais eloquente. Presidir à Assembleia não é um cargo cerimonial, implica poder de agenda: decidir o que entra em discussão, decidir que requerimentos de esclarecimento avançam, decidir o calendário de sessões extraordinárias quando a gravidade de um dossier o exige. É esse poder de agenda que constitui o verdadeiro teste de um Presidente de Assembleia, e é aí que a pergunta se torna mais concreta: quantas sessões extraordinárias convocou André Pinotes Batista por iniciativa própria, fora do calendário ordinário, para tratar de matérias urgentes do concelho? Quantas vezes usou esse poder de agenda para forçar a Câmara a prestar contas sobre prazos incumpridos, sobre execução orçamental, sobre o estado de dossiers como o Arco Ribeirinho Sul? Se a resposta, como tudo aponta, for "raramente" ou "nunca por iniciativa própria", então o cargo que ocupa tem sido exercido no seu mínimo denominador, a gestão administrativa do calendário legal obrigatório e não no máximo que a lei lhe permite e que a gravidade da situação do Barreiro exigiria.
Há, por fim, uma terceira dimensão que merece nota: o modo como se comporta nas próprias sessões plenárias. Um Presidente de Assembleia que exerce cabalmente a função intervém para proteger o direito ao contraditório da oposição, para exigir respostas concretas do executivo às perguntas dos deputados, para não deixar que perguntas incómodas se percam em respostas evasivas. Se, pelo contrário, o padrão observável é o de uma condução de sessões que privilegia a fluidez protocolar sobre o confronto substantivo, sessões que correm bem porque nada de incómodo é verdadeiramente exigido à Câmara, então o "jeito de comentador desportivo" deixa de ser apenas uma imagem estilística e passa a descrever, com rigor, o modo como a própria função de supervisão tem sido esvaziada por dentro.
Há ainda uma peça deste puzzle que o PS parece disposto a valorizar, e que talvez explique, em parte, a blindagem política de que
André Pinotes Batista tem beneficiado: o trabalho que lhe é atribuído a nível parlamentar, enquanto quadro do partido com palco na Assembleia da República. Se é verdade e aguardo, aqui, a correcção de quem acompanha de perto os corredores de São Bento, que o seu valor para a estrutura partidária assenta sobretudo na capacidade de comunicação e exposição mediática, e não em trabalho legislativo substantivo, relatórios de comissão com peso técnico, ou iniciativas próprias que tenham deixado marca no ordenamento jurídico nacional, então replica-se, à escala nacional, exatamente o mesmo padrão que descrevo à escala municipal: um ativo de visibilidade, não um ativo de conteúdo.
Esta leitura importa porque explica uma engrenagem que, de outra forma, seria difícil de perceber: porque é que um percurso político tão pouco lastrado em obra concreta continua, ano após ano, a ser promovido para posições de crescente responsabilidade institucional? A resposta mais parcimoniosa é que, tanto na estrutura local como na nacional, o PS valoriza hoje a capacidade de ocupar espaço mediático, comentário, presença televisiva, discurso fácil, como recurso político em si mesmo, independentemente do lastro de trabalho parlamentar ou autárquico que o sustente. Se assim for, André Pinotes Batista não representa uma anomalia dentro do partido; é, porventura, o produto mais bem acabado dessa lógica. E é essa mesma lógica, replicada agora na sucessão barreirense, que este ensaio pretende expor.
A pergunta que ninguém lhe faz: onde estão as soluções?
Chegamos, então, ao que verdadeiramente importa neste ensaio, e que ultrapassa o juízo sobre o estilo: o que fez, concretamente, André Pinotes Batista pelo Barreiro? Não o que disse, o que fez.
O Arco Ribeirinho Sul é, há mais de duas décadas, o maior dossier estrutural que o Barreiro tem em mãos: um território de reconversão industrial que podia (e devia) ter sido o motor da reinvenção da cidade, e que continua, em larga medida, por resolver, entre planos, revisões de plano, promessas de investimento que nunca amadurecem em obra. Se há um órgão cuja função é precisamente perguntar à Câmara "porque não avançou este dossier", esse órgão é a Assembleia Municipal. Pergunto, então, na expectativa de que os leitores mais atentos aos plenários me corrijam se for caso disso: quantas vezes André Pinotes Batista, enquanto Presidente da Assembleia, agendou um debate próprio sobre o Arco Ribeirinho Sul? Quantas moções apresentou a exigir prazos, relatórios de execução, ou responsabilização da Câmara pelo arrastar do processo? Se a resposta for "nenhuma", ou "poucas, e de circunstância", então a crítica que aqui faço deixa de ser opinião e passa a ser constatação.
O mesmo se pode perguntar do Fabril. O clube é, para o Barreiro, muito mais do que desporto, é património identitário, é uma das poucas instituições que ainda concentram orgulho coletivo numa cidade que perdeu, com o fim do ciclo industrial da CUF e da Quimigal, grande parte da sua âncora simbólica. Um clube com a história do Fabril devia ser prioridade de qualquer executivo camarário e de qualquer Assembleia que o fiscalize, em apoio às infraestruturas desportivas, em articulação com projetos de formação jovem, em visibilidade institucional. Que solução concreta apresentou André Pinotes Batista para o Fabril? Que iniciativa levou à Assembleia, que pressão pública exerceu sobre o executivo de Frederico Rosa para que o clube tivesse tratamento à altura do seu significado histórico? Se o seu contributo se resumiu a presenças em bancadas e declarações de circunstância em dias de jogo, então voltamos ao mesmo padrão: protagonismo de plateia, ausência de obra. A menos que esteja satisfeito com tudo o que está a acontecer e aí então deve vir a público dizer e justificar às centenas de crianças e suas famílias, que perderam os seus campos de treino, qual será no seu entender o futuro que mantem o clube histórico em atividade digna do seu nome e acima de tudo no plano formativo de todas essas crianças.
E os projetos de juventude, porventura o indicador mais honesto da capacidade de um território para se reinventar? O Barreiro perde população jovem, como perdem praticamente todos os concelhos da Margem Sul que não conseguiram converter proximidade a Lisboa em fixação de quadros qualificados. É um problema estrutural que exigiria, da parte de quem preside ao órgão de fiscalização municipal, acompanhamento seguido: de programas de habitação jovem, de apoio ao empreendedorismo local, de retenção de talento face à concorrência de Lisboa e da Margem Norte. Onde estão as propostas de André Pinotes Batista nesta matéria? Que moção, que audição pública, que documento leva o seu nome nesta área? Volto a fazer a pergunta que estrutura este ensaio: se Frederico Rosa não foi capaz de executar e o registo de dossiers pendentes fala por si, onde estão as soluções alternativas que o seu suposto sucessor apresentou nestes anos, precisamente na função que ocupa, para fiscalizar essa incapacidade executiva?
O silêncio como sistema
Mas há algo mais grave do que a inação de um homem: é a conversão de uma instituição inteira em cenário vazio. Porque a Assembleia Municipal do Barreiro não se resume a André Pinotes Batista; é um plenário, são bancadas, são dezenas de eleitos de diferentes forças políticas que, sessão após sessão, se reúnem para, supostamente, fiscalizar o executivo camarário. E o que se tem visto, ao longo destes anos, sob a sua presidência, é um silêncio quase uniforme sobre precisamente os dossiers que mais deveriam gerar debate: o silêncio sobre os prazos incumpridos do Arco Ribeirinho Sul, o silêncio sobre o estado de degradação de infraestruturas desportivas como as do Fabril, o silêncio sobre a fuga de jovens do concelho.
Não é silêncio por acaso, nem por timidez institucional genérica, é incompetência funcional específica, e merece ser nomeada como tal. Presidir a uma Assembleia Municipal exige um conjunto de competências mínimas e verificáveis: domínio do regimento para não deixar passar em claro requerimentos de esclarecimento da oposição; capacidade de leitura técnica de relatórios de execução orçamental para saber onde apertar o executivo; disposição para convocar sessões extraordinárias quando a gravidade de um dossier o exige, em vez de se limitar ao calendário mínimo obrigatório; e, sobretudo, vontade de usar o poder de agenda que o cargo confere para forçar respostas onde o executivo prefere o silêncio. Se, ao fim de tantos anos de mandato, não há registo de uma única sessão extraordinária convocada por iniciativa própria sobre o Arco Ribeirinho Sul, nem uma moção de fiscalização sobre a degradação do Fabril, nem uma audição pública sobre a fuga de jovens do concelho, então não estamos perante um estilo discreto de exercer o cargo, estamos perante a incapacidade, pura e simples, de o exercer. É uma incompetência que não se explica por falta de meios ou de tempo, explica-se por falta de vontade de a exercer, ou por falta de preparação de base para saber como.
E é aqui que a análise tem de deixar de ser branda: um Presidente de Assembleia Municipal que não fiscaliza não é neutro, é cúmplice por omissão. A neutralidade não existe neste cargo: ou se usa o poder de agenda para forçar transparência, ou esse poder fica, por definição, ao serviço de quem não quer ser fiscalizado. Não há terceira via. André Pinotes Batista escolheu ou, por incapacidade, permitiu que se escolhesse por ele, a segunda opção.
E essa escolha, ou essa incapacidade, é precisamente o que mais convém a Frederico Rosa. Não é coincidência afortunada, é conveniência estrutural: um Presidente de Assembleia sem competência ou sem vontade de fiscalizar é o ativo político mais valioso que um Presidente de Câmara pode desejar. Não porque conspire ativamente a favor do executivo, isso seria, em certo sentido, mais desculpável, por implicar ao menos intenção e cálculo, mas precisamente porque a sua ausência de postura resulta do mesmo défice que haveria de o tornar, também, um sucessor previsível e controlável. Frederico Rosa não precisa de comprar o silêncio de André Pinotes Batista; basta-lhe beneficiar da incapacidade deste em quebrá-lo. É essa a forma mais eficaz e mais difícil de responsabilizar publicamente, de perpetuar poder sem parecer que o faz: promover para a fiscalização quem estruturalmente não sabe, ou não quer, fiscalizar.
Há aqui, aliás, um paralelo instrutivo com outros municípios portugueses onde se observou o mesmo padrão nos últimos ciclos autárquicos: presidentes de câmara de longa duração que, ao aproximar-se o desgaste político ou o limite de mandatos, promovem para a presidência da assembleia figuras de perfil mediático mas sem preparação de base para o exercício técnico do cargo, precisamente para garantir uma transição controlada, sem sobressaltos, sem escrutínio inconveniente sobre o legado que deixam. O caso barreirense não é excepção; exprime um padrão de uma certa cultura autárquica portuguesa em que a incompetência fiscalizadora, longe de ser vista como falha, é tratada como qualidade a premiar. Mas isso não torna o caso barreirense menos grave, torna-o, precisamente, mais reconhecível, e por isso mais urgente de expor.
O silêncio tem preço: rent gap e a espera especulativa
E é aqui que o silêncio institucional deixa de ser apenas falha de democracia local e passa a ser, também, uma variável económica com nome próprio na literatura urbana: o rent gap, o "fosso de renda" que Neil Smith identificou como motor estrutural da gentrificação. A teoria é simples e brutalmente aplicável ao Barreiro: existe um hiato entre a renda fundiária actual de um território desvalorizado, como é, ainda hoje, grande parte do Arco Ribeirinho Sul, marcado pela desindustrialização, pela contaminação de solos, pelo abandono de décadas e a renda potencial que esse mesmo território poderia captar caso fosse requalificado e inserido numa nova centralidade metropolitana, mormente com a chegada do aeroporto do Montijo e da Terceira Travessia do Tejo.
Quanto maior este fosso, maior o incentivo para que agentes económicos, promotores, fundos, investidores institucionais, e devo dizê-lo com conhecimento de causa de quem já geriu carteiras superiores a seis mil milhões de euros para investidores desta natureza, aguardem pacientemente o momento óptimo de entrada, adquirindo hoje a preços deprimidos para capturar amanhã a valorização que a nova infra-estrutura vai gerar. Esta lógica de "compra e espera" não é conspiração, é racionalidade de mercado elementar. O problema está antes na política local, que não percebe, ou finge não perceber, que o seu silêncio é parte do mecanismo que permite essa captura privada de uma valorização gerada por investimento público.
Um órgão de fiscalização activo perguntaria, com regularidade: quem está a comprar solo no Arco Ribeirinho Sul, e a que preço, e com que intenção declarada de uso? Que salvaguardas existem para que a valorização gerada pelo TTT e pelo aeroporto beneficie a comunidade barreirense, através de mais-valias urbanísticas, de habitação a custos controlados, de equipamentos coletivos e não apenas os proprietários que souberam esperar? Esta é, precisamente, a pergunta que um plenário silencioso nunca formula, porque formulá-la exigiria confrontar interesses instalados, alguns porventura próximos do próprio poder autárquico. O silêncio institucional, lido à luz do rent gap, deixa de ser um simples défice de vitalidade democrática e passa a ser, objectivamente, uma transferência de valor: da comunidade para quem já detém o capital para esperar.
Capital simbólico e o preço da desqualificação
Há ainda uma segunda tensão sociológica que atravessa este caso, e que Bourdieu ajudaria a nomear: a distribuição desigual de capital simbólico entre quem fala em nome do Barreiro e quem, de facto, herdou e continua a viver as consequências do seu esvaziamento produtivo. O capital simbólico do Barreiro não nasceu de uma única fábrica nem de um único período, é uma acumulação de camadas históricas que importa recuperar na sua diversidade, precisamente para perceber a dimensão do que está em jogo quando esse capital é gerido, hoje, através do espetáculo mediático.
Há a camada industrial mais óbvia, a CUF e a Quimigal, que formaram gerações inteiras, a minha incluída, e cuja memória operária ainda hoje estrutura parte significativa da identidade coletiva do concelho, mesmo décadas depois de as chaminés terem deixado de fumar. Mas há também uma camada anterior e mais funda, ligada à condição do Barreiro como charneira entre a terra e o rio: o porto, os estaleiros, a construção naval, a vida gerada em torno do Tejo muito antes de qualquer complexo químico se instalar na margem. E há uma terceira camada, talvez a mais subestimada nos discursos políticos atuais: o Barreiro como nó ferro-fluvial, a estação que durante décadas foi a porta de entrada e saída de Lisboa para toda a região a sul do Tejo, o "comboio-barco" que moldou rotinas de vida de milhares de famílias muito antes de qualquer travessia rodoviária ou ferroviária direta ter sido sequer imaginada. Essa centralidade de charneira, hoje esquecida no debate público, é também parte do capital simbólico que o concelho acumulou e que a política atual não sabe, ou não quer, reativar.
Há, por fim, uma quarta camada, porventura a mais viva ainda hoje: o associativismo operário, bairrista e desportivo, do qual o Barreiro soube gerar não uma, mas várias instituições duradouras, cada uma enraizada num pedaço diferente do concelho, o Fabril, o Barreirense, o Luso, a SFAL no Lavradio, os Galitos na Quinta da Lomba. Cada um destes clubes nasceu, à sua maneira, da vida coletiva das comunidades operárias e bairristas que os rodeiam, sustentado durante gerações pelo trabalho voluntário, pela rivalidade saudável entre bairros e fábricas, e pelo orgulho de pertença que atravessou o encerramento das próprias empresas que os viram nascer. Esta pluralidade associativa está longe de ser detalhe menor: é prova de que o Barreiro soube gerar, ao longo do século XX, uma constelação de instituições capazes de converter identidade operária e de bairro em capital social duradouro. É, em conjunto, um repositório de capital simbólico de rara densidade e dispersão geográfica, que qualquer liderança política minimamente atenta trataria como ativo estratégico de coesão social e não como mero pano de fundo para fotografias em dias de jogo, distribuídas consoante o calendário eleitoral de cada bairro.
Ora, quando a classe política que gere este território multifacetado o faz através do espetáculo mediático, o "jeito de comentador desportivo" de que falei atrás, produz-se uma dissonância entre a riqueza e a densidade histórica do capital simbólico que o território possui, acumulado camada sobre camada ao longo de mais de um século, e a pobreza de conteúdo do capital simbólico que a sua liderança política atual exibe: protagonismo mediático avulso, sem enraizamento em nenhuma destas camadas, sem discurso que as una num projeto de futuro comum ao Fabril, ao Barreirense, ao Luso, à SFAL e aos Galitos por igual, em vez de tratamento desigual consoante proximidades de bairro ou de conveniência política do momento. Esta dissonância tem um nome na sociologia urbana: desqualificação simbólica do território pela sua própria elite dirigente, um processo em que quem deveria ser o guardião e o tradutor político dessa memória coletiva plural a esvazia, precisamente por não a habitar nem a compreender em profundidade, em toda a sua diversidade de bairros e de clubes.
E tem um custo político concreto e crescente: uma população que se sente cada vez menos representada por quem não partilha, nem parece entender, a complexidade da sua história de trabalho, de rio, de comboio e de clubes e que vê essa história reduzida, no discurso público dos seus próprios representantes, a pano de fundo decorativo para inaugurações e fotografias, em vez de matéria-prima para um projeto de cidade que a honre, na sua pluralidade, e a projete no futuro.
É esta tensão, entre memória operária, portuária e ferroviária multiplicada em várias camadas e em vários clubes, e o espetáculo político raso que hoje a substitui; entre rent gap especulativo e ausência de fiscalização; entre capital simbólico acumulado ao longo de gerações e capital político de topo que não sabe geri-lo, que define, a meu ver, o verdadeiro risco da sucessão que se prepara. Não é apenas trocar um nome por outro. É perpetuar uma estrutura em que o território fica exposto à valorização fundiária sem proteção institucional, e a sua história multissecular e plural reduzida a cenário, exatamente no momento em que essa proteção e essa narrativa mais falta fazem.
Concertação ou conveniência? A pergunta sobre o pacto
Há ainda uma dimensão que merece ser posta às claras, e que toca o cerne da suspeita que atravessa este ensaio: houve, em algum momento, uma solução política construída entre Frederico Rosa e André Pinotes Batista, um entendimento, explícito ou tácito, sobre divisão de papéis, sobre calendário de sucessão, sobre silêncio mútuo em troca de posição futura? Não tenho, nem o leitor comum tem, acesso às conversas de bastidores que permitiriam confirmar ou desmentir esta hipótese com factos duros. Mas a ausência de conflito visível entre um órgão fiscalizador e o executivo que deveria fiscalizar é, em si mesma, um dado político. Assembleias Municipais que funcionam têm tensão, têm contraditório, têm bancadas que discordam, têm presidentes de assembleia que, independentemente da cor partidária, protegem o papel institucional do órgão que presidem face ao executivo. A ausência quase total desse atrito no Barreiro, nestes anos, é mais consistente com um entendimento de bastidores do que com um exercício normal e saudavelmente conflituoso, de separação de poderes municipais.
Se esse entendimento existe, e se é essa a lógica que explica a escolha de André Pinotes Batista como sucessor preferencial, então o que está em curso não é sucessão democrática, é sucessão dinástica travestida de normalidade institucional. E as fotografias de obras que por estes dias começam a multiplicar-se, com Frederico Rosa e André Pinotes Batista lado a lado em inaugurações e primeiras-pedras, não são celebração de serviço público, são pré-campanha disfarçada de gestão corrente.
Não bastam perguntas: duas medidas para fechar o fosso
Denunciar o silêncio, sem propor o que o substitui, corre o risco de ficar apenas em desabafo. Por isso deixo, para além da pergunta, duas medidas concretas, que qualquer Assembleia Municipal minimamente activa poderia exigir hoje, sem esperar por sucessões. A primeira é um instrumento formal de captura de mais-valias fundiárias associado à chegada do aeroporto do Montijo e da Terceira Travessia do Tejo, um mecanismo que vincule parte da valorização gerada por estes investimentos públicos a fins de interesse colectivo no Arco Ribeirinho Sul, habitação a custos controlados, requalificação de solo contaminado, equipamento desportivo, em vez de deixar essa valorização integralmente nas mãos de quem hoje compra e espera. Não é ideia nova; instrumentos deste tipo, com desenhos distintos, sustentaram parte do financiamento do Crossrail em Londres e da requalificação do Ørestad em Copenhaga, e não há razão de princípio para que o Barreiro, perante uma infra-estrutura da escala do TTT, não possa desenhar o seu próprio modelo.
A segunda medida é institucional e depende apenas de vontade política, não de legislação nova: a obrigatoriedade regimental de um relatório semestral público, apresentado em sessão da Assembleia, sobre o estado de execução do Arco Ribeirinho Sul, com prazos, responsáveis e desvios identificados linha a linha. Um Presidente de Assembleia que hoje quisesse romper com o padrão que aqui descrevo não precisava de esperar por uma reforma da lei das autarquias; precisava apenas de a convocar. Se este ensaio pecar por excesso de pergunta e escassez de números, que seja o próprio plenário do Barreiro, com acesso às actas e à execução orçamental que este colunista não tem, a preencher esse défice, sessão extraordinária a sessão extraordinária, relatório a relatório.
Centralidade dissociada, também na política.
Há um conceito que tenho vindo a desenvolver no âmbito da minha investigação doutoral sobre a Baixa de Coimbra, a "centralidade dissociada", que descreve como um território pode manter a aparência de centro sem exercer as suas funções efectivas de centralidade: perde densidade de decisão mesmo quando mantém densidade simbólica. Creio que o mesmo conceito se aplica, com adaptações, à política local barreirense: temos aqui uma Assembleia Municipal que mantém a aparência formal de órgão fiscalizador, mas que na prática se esvaziou da sua função sobre precisamente os dossiers que mais importam, o Arco Ribeirinho Sul, o Fabril, a juventude. Um poder que se apresenta como controlado, porque tem Câmara, tem Assembleia, tem eleições, mas que na prática concentrou os mecanismos de decisão e de sucessão num círculo cada vez mais restrito e cada vez menos escrutinado. É a mesma lógica que observo na Baixa de Coimbra transposta para a arquitectura do poder local: a forma permanece, a função esvazia-se e, no caso barreirense, essa dissociação não é apenas simbólica, é também, como vimos, um mecanismo silencioso de transferência de valor fundiário.
O Barreiro não precisa de mais um Presidente de Câmara escolhido pela ausência de alternativa. Precisa de um debate público sério sobre o que quer ser depois do ciclo industrial, depois de Frederico Rosa, depois desta geração de gestão que confunde continuidade com imobilismo. Esse debate não se faz com fotografias de inaugurações. Faz-se com escrutínio, o mesmo escrutínio que André Pinotes Batista, enquanto Presidente da Assembleia Municipal, teve o poder de exercer sobre a Câmara, e que, ao que tudo indica, preferiu não exercer, e que o próprio plenário, no seu conjunto, parece ter abdicado de exigir.
Fica a pergunta em aberto, porque é dos leitores do Rostos, e não deste colunista, que há-de vir a resposta nas urnas: queremos uma sucessão pensada para servir o Barreiro, o Arco Ribeirinho, o Fabril, a juventude que se vai embora, ou uma sucessão pensada apenas para assegurar que ninguém, nem sequer a própria Assembleia Municipal, pergunte demasiado alto o que se passou, o que não se fez, e a quem, no fim, aproveitou o silêncio?
António Matias Lopes
Investigador Urbano -Sociologia e Culturas Urbanas -UC/CES- Agosto de 2026













