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Por António Matias LopesO tumulto como recurso: quem lucra com uma Europa inquieta
Barreiro

Neste texto proponho uma hipótese mais incómoda. O tumulto europeu não é apenas um efeito da desigualdade; tornou-se ele próprio um recurso, produzido, amplificado e explorado por atores muito diferentes, que nada têm em comum exceto o facto de beneficiarem de uma Europa inquieta.

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Por António Matias Lopes O tumulto como recurso: quem lucra com uma Europa inquieta Barreiro

Por Jornal Rostos

A explicação confortável e o seu limite

Há uma explicação para o tumulto que se ouve em todo o lado: os salários são baixos, as casas são caras, os jovens partem, os velhos saem, a rua revolta-se. É uma explicação verdadeira. Mas é também uma explicação confortável, porque nos permite pensar que o problema é português, ou do Sul da Europa, e que bastaria pagar melhor para pacificar as cidades.

O problema é que a explicação não resiste a uma viagem de avião. Vivo em Munique há mais de uma década. Os salários aqui são, em média, mais do dobro dos portugueses e a proteção social é das mais robustas do mundo. E, no entanto, a inquietação está lá, como está em Viena e, de forma ainda mais explosiva, em França.

Neste texto proponho uma hipótese mais incómoda. O tumulto europeu não é apenas um efeito da desigualdade; tornou-se ele próprio um recurso, produzido, amplificado e explorado por atores muito diferentes, que nada têm em comum exceto o facto de beneficiarem de uma Europa inquieta. E, ao tornar-se recurso, vai corroendo aquilo que a Europa construiu de mais valioso depois de 1945: o valor da paz como bem comum, interior e exterior.

A Europa rica também arde

Na Alemanha, o sociólogo Oliver Nachtwey chamou a este clima a «sociedade da descida» (Abstiegsgesellschaft): durante décadas, a sociedade funcionou como uma escada rolante que subia; hoje a escada desce, e quem pára, recua. Nas eleições federais de 2025, a extrema-direita tornou-se a segunda força do país. Na Áustria, Viena mantém o mais admirado parque de habitação municipal da Europa e, ainda assim, a extrema-direita venceu as legislativas de 2024. Riqueza média elevada e sensação de bloqueio convivem lado a lado.

Mas é a França que hoje se parece com um barril de pólvora. O país vive em convulsão social recorrente há quase uma década: os coletes amarelos em 2018, a revolta contra a reforma das pensões em 2023, os motins nas periferias nesse mesmo Verão, o movimento «Bloquons tout» em 2025. A isto juntou-se uma crise política sem precedentes na Quinta República. Desde a dissolução da Assembleia Nacional em 2024, o país não tem maioria parlamentar estável, e sucessivos governos caíram ou vacilaram em poucos meses. Tudo isto com um défice público entre os mais altos da zona euro, uma dívida acima de 110% do produto e uma extrema-direita que lidera as sondagens para as presidenciais de 2027.

A França reúne num só lugar todos os ingredientes do tumulto: periferias segregadas onde a promessa republicana deixou de chegar, classes médias rurais e periurbanas que se sentem abandonadas, um Estado endividado que já não consegue comprar a paz social e um sistema político incapaz de produzir consensos. Se a Alemanha e a Áustria mostram que o dinheiro não basta, a França mostra o que acontece quando à expectativa frustrada se junta a falência da mediação política. O tumulto não nasce apenas da escassez; nasce da perda de horizonte e da sensação de que ninguém está a conduzir.

Da sociedade salarial à sociedade de ativos

Durante o século XX, a Europa construiu aquilo a que Robert Castel chamou a «sociedade salarial»: o lugar de cada um era definido pelo trabalho, e o salário dava acesso à casa, à reforma, à saúde, à dignidade. Era imperfeita, mas tinha uma promessa clara. Quem trabalhava, subia.

Hoje vivemos naquilo que Lisa Adkins, Melinda Cooper e Martijn Konings designaram por «economia de ativos»: a posição social depende cada vez menos do salário e cada vez mais da propriedade de casas, terrenos e ações. Como mostrou Thomas Piketty, quando o rendimento do capital cresce mais depressa do que a economia, a herança pesa mais do que o trabalho. Dois engenheiros com o mesmo salário vivem vidas opostas se um herdou um apartamento e o outro paga renda. A desigualdade passou a ser também entre proprietários e não-proprietários, entre quem chegou a tempo e quem chegou tarde.

Escrevo com a experiência de quem passou décadas a gerir ativos imobiliários para grandes investidores institucionais. Os fundos não são vilões; seguem a lógica que os bancos centrais e os governos lhes ofereceram. Com dinheiro praticamente gratuito durante uma década, o capital procurou refúgio no betão, e as cidades europeias tornaram-se cofres-fortes com vista. Numa economia de ativos, a política salarial, por si só, já não resolve: o tumulto nasce da impossibilidade de converter rendimento em futuro.

O caso português: o banco como portageiro da vida

Em Portugal, o instrumento mais incisivo desta economia não é o fundo estrangeiro de que tanto se fala. É o banco nacional, o da agência da esquina, que financia quase todas as casas que os portugueses compram.

Na última década, os preços da habitação mais do que duplicaram, com uma subida próxima de 140%, enquanto o salário médio subiu cerca de 40% em termos nominais. Portugal é um país de proprietários endividados. Cerca de três quartos das famílias vivem em casa própria, e uma parte muito grande dessas casas foi comprada com crédito a taxa variável, indexado à Euribor. Durante uma década de juros negativos, o modelo pareceu inofensivo. Quando os juros subiram, a partir de 2022, as prestações de muitas famílias subiram centenas de euros por mês, quase de um dia para o outro. O risco que, noutros países, os bancos partilham com o cliente através da taxa fixa foi, em Portugal, transferido quase por inteiro para as famílias.

Do outro lado da balança, os grandes bancos portugueses registaram em 2023 e 2024 os lucros mais elevados da sua história, na ordem de vários milhares de milhões de euros por ano. Os juros cobrados no crédito subiram depressa; a remuneração dos depósitos subiu devagar e pouco. A diferença foi paga pelas famílias. Os bancos argumentam, com alguma razão, que vinham de uma década de perdas e que precisam de capital robusto. Mas foram os contribuintes que, nos anos da crise, salvaram vários desses mesmos bancos. A memória do resgate é pública; a memória do lucro é privada.

Este modelo tem um segundo efeito, menos visível: comprime o arrendamento. Um sistema financeiro que vive do crédito à compra tem pouco interesse em financiar habitação para arrendar a preços moderados, cooperativas ou promoção pública. Depois de 2011, o crédito à construção quase secou, a produção de casas novas caiu para mínimos históricos e o arrendamento ficou reduzido a uma franja estreita, cara e instável. A quem não pode comprar resta pagar rendas que absorvem metade do salário, ou partir.

E é aqui que a revolta ganha a sua matéria concreta. Uma família que entrega ao banco ou ao senhorio uma fatia crescente do rendimento não corta primeiro na comida. Corta naquilo que, na linguagem de Pierre Bourdieu, constitui a transmissão do capital cultural e social: as explicações e a universidade dos filhos, a inscrição no clube, as aulas de música, a viagem de férias que alarga o mundo. Muitas famílias portuguesas deixaram de fazer férias fora de casa; muitas crianças deixaram o desporto federado porque a mensalidade e as deslocações pesam demais. Não são luxos. São os instrumentos com que uma família garante que os filhos terão mais oportunidades do que os pais.

Quando estes instrumentos desaparecem, a família não perde apenas conforto; perde horizonte. E é essa perda, mais do que qualquer número sobre rendas, que alimenta a raiva que hoje chega às ruas. O banco tornou-se, sem que ninguém o tivesse decidido, o portageiro da vida das famílias: cobra à entrada da casa, cobra à saída de cada mês e decide, em última análise, quem pode e quem não pode imaginar o futuro.

Polanyi e as duas saídas do contramovimento

Há um livro de 1944 que explica melhor o nosso presente do que muitos estudos recentes: A Grande Transformação, de Karl Polanyi, um austro-húngaro que viu a Europa desfazer-se nos anos 30. A sua tese é que há três coisas que o mercado trata como mercadorias sem que o sejam verdadeiramente: o trabalho, a terra e o dinheiro, as «mercadorias fictícias». Quando uma sociedade as entrega por inteiro ao mercado, desencadeia um «duplo movimento»: a mercantilização provoca um contramovimento de autoproteção da sociedade.

A habitação é o exemplo perfeito de mercadoria fictícia: é terra, é trabalho e, hoje, é sobretudo dinheiro. As acampadas e as manifestações são o contramovimento de que Polanyi falava.

Mas o contramovimento não tem direção predeterminada. Pode tomar a forma de um novo pacto social, como no pós-guerra, ou de um fechamento autoritário, como nos anos 30, quando a proteção da sociedade se confundiu com a proteção da nação contra os de fora. É o que vemos quando a crise da habitação é reescrita como crise de imigração: uma explicação falsa na sua simplicidade, mas eficaz, porque substitui a conversa difícil sobre ativos e fiscalidade por uma conversa fácil sobre identidade. A mesma angústia que pede casas pode, se não encontrar resposta, pedir muros.

A pergunta decisiva, portanto, não é se haverá contramovimento. Já há. A pergunta é para onde ele vai ser conduzido, e por quem. E é aqui que o tumulto deixa de ser apenas um fenómeno social e passa a ser um terreno de disputa.

O tumulto injetado

Falar de tumulto «injetado» exige cuidado, porque a teoria da conspiração é, ela própria, uma forma moderna de desinformação. Nenhuma força externa cria uma crise de habitação. As fraturas são nossas. Mas há atores que aprenderam a explorá-las.

O primeiro é geopolítico. Em 2024, o governo alemão denunciou publicamente a campanha russa «Doppelgänger», que imitava jornais alemães e franceses para espalhar desconfiança nas instituições e na ajuda à Ucrânia. O objetivo não era convencer, mas cansar, dividir, desmoralizar. Uma Europa ocupada a discutir consigo própria é uma Europa que não decide. Para uma potência que vê a União Europeia como adversária, o tumulto interno é um ativo estratégico barato.

O segundo é a economia da atenção. As plataformas digitais vivem do tempo que passamos nelas, e nada prende tanto como a indignação. Um vídeo de uma carga policial circula mil vezes mais do que um relatório sobre fiscalidade imobiliária. Os algoritmos não escolhem lados; escolhem o conflito, porque o conflito rende.

O terceiro são os empresários do ressentimento, em vários pontos do espectro, que descobriram que a raiva mobiliza mais do que a esperança. Estes três atores não estão coordenados, mas encontram-se num ponto: todos beneficiam de que o conflito social seja vivido como espetáculo e guerra cultural, e não como problema político com solução negociável.

A paz desvalorizada

Há uma dimensão de que quase ninguém fala: a desvalorização da paz. Não só da paz entre Estados, mas da paz civil, da confiança mínima que permite que uma cidade funcione. A geração do pós-guerra sabia que habitação social, Estado-providência e integração europeia eram partes do mesmo projeto: tornar a guerra impossível tornando a vida digna. Essa memória está a desaparecer.

Ao mesmo tempo, a guerra regressou ao continente. A Alemanha alterou em 2025 as suas regras de endividamento para financiar a defesa, e os aliados da NATO comprometeram-se a aumentar fortemente a despesa militar. Há bons argumentos para essas decisões. Mas cada euro tem um destino, e a pergunta «canhões ou casas?» deixa de ser metáfora de manual. Se os cidadãos sentirem que a segurança externa é paga com a sua insegurança doméstica, a legitimidade do projeto europeu fica em causa.

Os Estados Unidos acrescentam instabilidade. As eleições intercalares deste início de Novembro são acompanhadas na Europa com uma inquietação pouco habitual. O segundo mandato de Donald Trump habituou os europeus à imprevisibilidade: tarifas, cortes abruptos na ajuda externa, pressão sobre os aliados, ações militares decididas com escassa consulta ao Congresso. Os críticos receiam que um Presidente a perder poder reaja com mais confronto, e lembram a Guarda Nacional nas cidades americanas e as disputas sobre as regras do voto; os apoiantes veem nisso firmeza e a exigência legítima de que a Europa pague a sua própria defesa.

O mais preocupante é estrutural: o Senado mostrou-se incapaz de limitar os poderes de guerra do Presidente. Uma política externa conduzida por uma só vontade é volátil, e cada oscilação de Washington obriga a Europa a desviar orçamentos, enfraquece a confiança transatlântica e dá novos argumentos aos empresários do ressentimento. As intercalares decidem também quanto do tumulto europeu será importado do outro lado do Atlântico. A casa é, nesse sentido, uma infraestrutura de segurança: a primeira defesa da Europa sempre foi a sua coesão interna.

A quem interessa, afinal

O tumulto interessa a vários atores ao mesmo tempo, em camadas sobrepostas. Interessa a potências exteriores, para quem cada cidade europeia em conflito é uma vitória obtida sem disparar um tiro. Interessa às plataformas, para quem a paz social é aborrecida e o conflito é lucrativo. Interessa aos empresários do ressentimento, à direita e à esquerda, cuja base cresce com cada mês de tumulto. Interessa, por omissão, a quem detém os ativos e a quem os financia: enquanto se discutem tendas e cargas policiais, não se discute a tributação do património, as mais-valias urbanísticas ou o lucro da banca. E interessa, em certa medida, aos governos, para quem tratar a acampada como problema de ordem pública é mais barato do que reformar o modelo que a produziu.

Nenhum destes atores precisa de conspirar. Basta que cada um persiga o seu interesse para que o resultado seja uma Europa inquieta e paralisada: a soma de racionalidades particulares produz uma irracionalidade coletiva. A quem não interessa? Aos manifestantes, cuja causa é capturada. Aos polícias, que pagam o preço da incapacidade política. Aos autarcas, que ficam com o rosto do problema sem os instrumentos da solução. E às cidades, que perdem habitantes, memória e confiança muito mais depressa do que as conseguem reconstruir.

O interregno

Antonio Gramsci escreveu, numa prisão fascista, que a crise consiste precisamente no facto de o velho estar a morrer e o novo não poder nascer; neste interregno surgem os mais variados sintomas mórbidos. Vivemos num interregno desse tipo. A sociedade salarial que deu à Europa décadas de paz e prosperidade está a morrer, e a que a há-de substituir ainda não nasceu.

O tumulto é o sintoma mais visível desse interregno. Não é a doença, mas também não é inocente: pode acelerar a cura ou agravar a infeção, conforme quem o conduza. A tarefa urgente não é reprimi-lo nem o romantizar. É disputar o seu sentido.

Disputar o sentido significa recusar as explicações confortáveis. Não basta culpar os salários, porque em Munique e em Viena não são baixos. Não basta culpar os fundos, que fazem o que as regras permitem, nem os imigrantes, que é a resposta que interessa a quem quer desviar a conversa. É preciso nomear a transição em curso e propor instrumentos à altura: fiscalidade sobre o património e as mais-valias urbanas, partilha justa do risco no crédito à habitação, habitação pública e cooperativa em escala, regulação das plataformas e proteção do espaço público europeu contra a interferência externa.

Entre Munique e Portugal, entre as cidades onde trabalho e a cidade onde cresci, vejo o mesmo interregno com rostos diferentes. A rua grita, e há muitos interessados em que continue a gritar sem ser ouvida. A nossa responsabilidade é fazer com que o grito se transforme em projeto antes que outros o transformem em muro.


António Matias Lopes

- Doutorando em Sociologia de Cidades e Culturas Urbanas-FEUC/CES. Novembro 2026


Referências

Adkins, L., Cooper, M. e Konings, M. (2020). The Asset Economy. Polity.

Bourdieu, P. (1979). La Distinction. Minuit.

Castel, R. (1995). Les Métamorphoses de la question sociale. Fayard.

Gramsci, A. Cadernos do Cárcere.

Nachtwey, O. (2016). Die Abstiegsgesellschaft. Suhrkamp.

Piketty, T. (2013). Le Capital au XXIe siècle. Seuil.

Polanyi, K. (1944). The Great Transformation.

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