AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVECoincidências: a propósito de um livro, um almoço e um jornal
Por Paulo Calhau
Não me agradou nada, mesmo nada, que Melo Antunes tenha sido qualificado de comunista, caluniado e injustiçado. E que a História tenha sido, mais uma vez, maltratada.

Por Jornal Rostos
Reli, na segunda quinzena de Novembro, “Os Anos Decisivos, Portugal 1962-1985, Um Testemunho” (Editorial Presença, 1993) de César Oliveira [1941-1998], livro do historiador beirão que lera pela primeira vez em Dezembro de 1994.
Treze anos depois, revejo o cidadão generoso, o intelectual qualificado, o militante socialista. De apurado sentido crítico (e autocrítico) e rigorosa formação democrática.
César Oliveira cumpriu o Serviço Militar Obrigatório e “numa manhã de Maio de 1964, salvo erro no dia 9” partiu do Cais de Alcântara, rumo a Angola.
Craveiro Lopes fora substituído na Presidência da República por Américo Tomás; Francisco Martins Rodrigues (ex-funcionário e dirigente do PCP) criara a Frente de Acção Popular; Humberto Delgado presidira em Praga à II Conferência da Frente Patriótica de Libertação Nacional; a guerra colonial alargara-se à Guiné e, poucos meses depois, a Moçambique.
Em Luanda, César Oliveira reencontrou Fernando Assis Pacheco, jornalista e escritor [1937-1995], companheiro de Coimbra, que ao saber da sua colocação em Cuimba [fronteira com o Congo ex-Belga, actual Zaire] logo lhe informou que naquele local “estava um capitão do Quadro Permanente, ‘um gajo de esquerda e antifascista’ chamado Ernesto Melo Antunes”.
A amizade entre ambos, nascida no palco de guerra do norte de Angola e depois reforçada em Luanda, nomeadamente na tertúlia clandestina da Livraria Lello – de Felisberto Lemos – prolongou-se para toda a vida.
As palavras de César Oliveira não escondem a admiração e o respeito pelo major de Abril: “Bem haja o Assis Pacheco por, numa tarde húmida de calor e angústia na Luanda da guerra colonial, ter posto no caminho da minha vida, um homem que, como o Homem da Oriana Falacci [jornalista e escritora italiana], tem sabido sempre ser fiel a si próprio e aos seus ideais por que desde cedo, lutou e acreditou”.
Melo Antunes foi, pelos dados que ao longo dos anos fui recolhendo e assimilando, um militar com uma sólida e invulgar formação política.
Em 1961 solicitara uma autorização para poder candidatar-se nas listas da Oposição ao Estado Novo. Foi um dos mais consistentes ideólogos da Revolução dos Cravos. Combateu com coragem, inteligência e determinação, a deriva totalitária do PCP e da extrema-esquerda civil e militar, derrotada em 25 de Novembro de 1975.
Trinta e dois anos depois, num almoço realizado no Porto e comemorativo daquela data, o general Pires Veloso teceu juízos e afirmações acerca de Melo Antunes que, falsos e despropositados, incomodaram uma parte dos comensais, como revelou o jornal Público na edição de 26 de Novembro.
Não me agradou nada, mesmo nada, que Melo Antunes tenha sido qualificado de comunista, caluniado e injustiçado. E que a História tenha sido, mais uma vez, maltratada.
Na edição do Público da passada sexta-feira, 7 de Dezembro, sob o título “Quem reescreveu o 25 de Novembro?” o professor universitário Luís Campos e Cunha – filho do tenente-coronel Ferreira da Cunha, um dos protagonistas dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975 – opinou que “… o 25 de Novembro, contrariamente ao propalado, foi ganho por Costa Gomes… Jaime Neves, Vasco Lourenço, Pires Velosos e outros…”.
No mesmo texto, Luís Campos e Cunha concorda com a inevitabilidade da não ilegalização do PCP – defendida por sectores mais radicais e revanchistas.
E insurge-se – bem, em minha opinião – contra o excessivo poder residual daquele partido no aparelho de Estado, num país em que “foram precisos mais 10 anos para que as privatizações tivessem lugar, e 20 para perder a sua força ideológica, com o desaparecimento da URSS. Foi muito caro para o país”.
Mas omite, creio que voluntariamente – a meu ver mal – a figura e a obra de Melo Antunes, personalidade decisiva na luta contra novas, indesejáveis e repugnantes formas de totalitarismo, que os portugueses repetidamente refutaram desde as primeiras eleições livres de 25 de Abril de 1975.
Luís Campos e Cunha admite ter aprendido com os historiadores, mas não saber “se é sempre verdade” que “a história é escrita pelos vencedores”. Eu também não sei. Mas estou convicto de que, ao contrário do prestigiado académico, defender a Honra e a Memória de Melo Antunes não é “politicamente correcto” mas sim um tributo à Verdade, à Democracia e à Liberdade.
Barreiro, 9 de Dezembro de 2007
Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)













