ARTE CONTEMPORÂNEA (3)A arte é pura presença
Por Rui Monteiro Leite

Por Jornal Rostos
A arte é Ontologia em acto. Na época hodierna que à falta de adjectivo designamos de “pós-metafísica” ou “pós-moderna”, esta questão acentua-se e torna-se central.
O Ser enquanto fundamento da arte radica nas duas grandes problemáticas que envolvem a arte contemporânea: o real e a linguagem. Uma e outra, estão relacionadas dialecticamente de um modo não linear, mas complexo.
Aqui, a pergunta acerca do real não trata de um problema meramente empírico, impressivo ou sugestionado, outrossim, remete para a questão fundante e estruturante daquilo que é a própria realidade.
Deste modo, abre-se a uma dimensão metafísica que terá de ser equacionada em termos ontológicos não ficando encerrada num registo estético prisioneiro dos sentidos e das sensibilidades.
Esta problemática é premente para a visão contemporânea do mundo, e vem desde Kant. Tal como Copérnico fez a sua revolução para o mundo físico, a saber: não é o Sol que gira à volta da Terra mas o contrário e, portanto, a Terra deixa de ser o centro do Universo.
Do mesmo modo, para o pensamento, Kant faz a sua revolução, quer dizer: o homem deixa de girar à volta da realidade para passar a ser o inverso. Ou seja, deixa de haver um real aposto e exterior ao homem para passar a ser o homem o realizador desse real.
A filosofia de Kant expressa, neste caso, na “Crítica da Razão Pura”, não é simples, mas a sua consequência é inaudita. A realidade deixa de existir enquanto tal. É o homem que faz a realidade.
Ou melhor, o mundo que captamos, tal qual o captamos nas suas quatro dimensões, as três físicas com a dimensão tempo, é um mundo meramente fenoménico. Tudo aquilo que vemos é “fenómeno”, naquilo que a palavra significa na sua etimologia grega: “fenómeno” é aquilo que surge, tal qual surge e como surge na luz do seu surgir, é aquilo que se apresenta perante nós, como o vemos e intuímos.
Esta realidade fenoménica é fantasmagoria porque é ilusão, imagem e aparência de um real “numénico”, puro, subsistente, ontológico. No entanto, é o homem, ou melhor, as suas “estruturas apriori da Razão Pura” que fundamentam e estruturam este real-fenómeno que captamos e intuímos empiricamente.
Tudo isto parece muito estranho, mas a Física Contemporânea veio dar razão a Kant. A realidade atómica que constitui a estrutura matérica do real, tanto no infinitamente pequeno quanto no infinitamente grande, isto é, tanto nas sub-partículas atómicas como no cosmos sideral, não tem comprimento, largura, altura e tempo.
Hoje, na Física Quântica fala-se de um Cosmos a onze, doze, quatorze “dimensões”. Também sabemos que a Ciência Contemporânea trabalha sobre modelos matemáticos teóricos, axiomáticos e, muitas vezes eurísticos, que tratam de tudo menos de uma realidade empiricamente considerada.
Afinal, parece que voltámos à tradição pitagórico-platónica, onde os números e as suas relações matemáticas são entidades com subsistência própria e com carga ontológica, que fundamentam e estruturam todo o real.
É aqui que se coloca a questão dialéctica da relação entre o real e a linguagem. Ou melhor, das diversas linguagens sugeridas que se pretendem autónomas; a da ciência, da filosofia, da arte. Trata-se do problema humano total: o das coisas, de si próprio, dos outros, e do completamente Outro.
A arte não representa ou interpreta o real empírico, antes suscita-o e mergulha na densidade misteriosa do mundo fazendo-se objecto. A arte é pura presença, e na autonomia da sua linguagem realiza-se no real e realiza o real, tornando-se vanguarda, criando mundos e dando luz ao mundo.
Rui Monteiro Leite, Barreiro, 23 de Dezembro de 2007
Foto : Silva Guerreiro Contemporary Art Gallery
Rui Monteiro Leite, O Arquétipo Primevo (vistas parciais), mixed/paper/epvc, 2007













