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Duas torresPor Carlos Alberto Correia

Sente-se a coragem daquela fortaleza tão sozinha, percebe-se o testemunho contido na sua existência, antevemos que, mais ano menos ano, a escavadora do progresso urbano irá fazer o que o terramoto não conseguiu. Perguntamo-nos e perguntamos à edilidade o que se poderá tentar para preservar este padrão histórico, este documento insubstituível no tempo?

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Duas torres Por Carlos Alberto Correia

Por Jornal Rostos

Entre Coina e Tejo há um lugar com duas torres. Ambas, por abandono, sofrem o desamor dos homens. Uma é visível, ainda altaneira e rebenta em forte cor na paisagem do olhar. Desta não irei falar. A outra é recôndita, modesta, enfiada na diluída paisagem urbana. Está ali, num descampado, quase escondida por uma árvore, fazendo cama a pombos vários que dos perigos alados lá se acoitam.

Convive com ela uma antiga fábrica que durante 28 anos, no século XVIII, produziu vidros com licença real. Ambas enfrentaram o terrível terramoto de 1775. As duas sobreviveram. Mas se da fábrica várias notícias dão conta, da torre sineira da Igreja de S. Salvador do Mundo, em Coina, nada se encontra. Parece ter desaparecido da memória embora ela, na sua existência, seja recordação dessa catástrofe em persistência e continuidade.

Tive conhecimento desta quase ruína num dos últimos almoços-tertúlias, de todas as sextas-feiras, no Palácio Alfredo da Silva. Prândio findado, já quando meio convívio tinha desertado para outras ocupações, o Sousa Pereira desafia para visitarmos um monumento que resistira ao terramoto e se encontra abandonado e, quem sabe, um dia destes em riscos de ser demolido.

Aceite o repto dirigimo-nos em caravana para a estrada da Verona, junto à Quinta da Estragada, à descoberta desse documento em pedra. Esperava ver uma torre altaneira, marcando a paisagem, como é norma acontecer, esmagando os homens com a mensagem da tremenda divindade. Em vez disso, uma pequena torre com um breve arco de sino, um baldio a rodeá-la e o sentimento de que aquele campanário sobreviveu ao cataclismo. Testemunha e desafio, afirmação de resistência ao tempo, ao tormento e ao abandono.

Sente-se a coragem daquela fortaleza tão sozinha, percebe-se o testemunho contido na sua existência, antevemos que, mais ano menos ano, a escavadora do progresso urbano irá fazer o que o terramoto não conseguiu. Perguntamo-nos e perguntamos à edilidade o que se poderá tentar para preservar este padrão histórico, este documento insubstituível no tempo?

Descontando as dimensões, lembro que o mais conhecido monumento de Macau é uma ruína bem preservada. A fachada da Igreja de S. Paulo. Quando tudo o mais se tornou escombro a protecção dessa fachada permitiu que a mesma se viesse a transformar no ex-líbris da cidade. Recentemente, nas suas fundações traseiras, foi construído um museu, aproveitando o terreno circundante. Porque não fazer algo semelhante nesta Torre Sineira, construindo um logradouro cultural onde a memória possa resistir à duração sem medos de inexistência?

Carlos Alberto Correia

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