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ManelinhasPor Manuela Fonseca

Havia gente da rua, como de tantas outras, na prisão por razões políticas, gente que, fora das masmorras, continuava, quase em silêncio, a luta; havia o terror da PIDE, a tenebrosa polícia política salazarista que alguns, hipócritas e mentirosos, fingem hoje “não ter sido muito má”: pois não – para os fascistas.

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Manelinhas Por Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos

Rua Dr. António José de Almeida, anos cinquenta.
A rua, uma das que ficavam na perpendicular às oficinas da CP, junto ao Palácio de Coimbra, era constituída, maioritariamente, por famílias de trabalhadoras da referida CP (sigla abreviada da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses) e da CUF (Companhia União Fabril). O seu centro de convívio era formado pela taberna e pela mercearia, geminadas, do Sr. Albino Pedro, respeitado comerciante da zona, cujos descendentes directos ainda moram na que, para as pessoas da minha geração, será sempre a nossa rua.
Uma quarta de manteiga, de banha levavam as crianças, a mando das mães, àquele sítio onde se ria, se sabia num instante de todas as novidades: namoros, casamentos, empregos em Lisboa de alguns jovens que tinham horizontes que ultrapassavam a rua e o Barreiro. Rua e vila ribeirinha que nos deram, pelo sacrifício dos nossos, pela luta clandestina dos melhores pela LIBERDADE, parte da Solidariedade e do imenso amor à Democracia e a outros valores que nos moldarem e com que temos vivido.
Os livros, sobretudo se de teor político, eram passados às escondidas entre os homens; a rádio livre, oriunda de outros países, escutada, baixinho, muito baixinho, avidamente, à noite, sobretudo se os homens estavam em casa, pelas poucas famílias que tinham a possibilidade, dentro da escassez financeira de então, de possuir uma telefonia.
Havia gente da rua, como de tantas outras, na prisão por razões políticas, gente que, fora das masmorras, continuava, quase em silêncio, a luta; havia o terror da PIDE, a tenebrosa polícia política salazarista que alguns, hipócritas e mentirosos, fingem hoje “não ter sido muito má”: pois não – para os fascistas.
Gritos dos miúdos, das mães, das famílias, saltos à corda na estrada, apenas interrompidos com fugas rápidas das carroças da cavalariça do Cuca, ao meio da rua. Fogueiras ali mesmo, pelos Santos Populares, a rua ainda por alcatroar, idas contrariadas para a escola porque havia lá umas réguas terríveis a cair com muita força nas nossas pequenas mãos, doridas por uns dias. As mães a costurarem, os pais nas oficinas ou na fábrica.
Manelinhas vivia na rua mas era para nós um estranho – não tinha filhos ou netos, não nos contava histórias, não se importava com o salazarismo nem com o futuro. Um pobre coitado entregue a si próprio, embora tivesse companheira, a trabalhadora e infeliz Tia Bé, que o ia buscar ao passeio onde o álcool o prostrava, para espanto e um certo gáudio, cruel, da pequenada. Que, hoje, a caminho dos sessenta anos, ainda não o esqueceu e lamenta que os Manelinhas daquele e de todos os tempos não tenham tido sonhos na vida. Os que nos fizeram, aos garotos de há cinco décadas, sobreviver e acreditar em melhores dias. Que bem os temos vivido.

Manuela Fonseca
Colunista do Jornal Rostos

Olá Manuela, BEM VINDA !

Após um período de ausência, por motivos de convalescença, de novo, volta ao nosso contacto a nossa colunista Manuela Fonseca.
E, mais, agora, completamente LIVRE, na sua condição de JUBILADA, deixando para trás um intensa vida de dedicação ao ensino, onde marcou presença de forma activa e interveniente, representando a Escola Superior de Educação de Setúbal - Instituto Politécnico de Setúbal em diversos fóruns internacionais.
No âmbito do Programa Sócrates, foi coordenadora de um projecto apoiado pela União Europeia, que envolveu professores da Bélgica, Reino Unido e Portugal, que efectuaram uma recolha de produções de todos os géneros literários, sobre a temática da guerra e paz.
Este projecto conduziu à edição de uma Antologia intitulada "LÀ LONGE, A PAZ - a guerra em histórias e poemas", que foi editada em português, neerlandês e inglês.
Uma obra que o Barreiro, sua terra natal, devia conhecer e reconhecer.

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p´ra si...

E, nós, aqui e agora, queremos a Manuela Fonseca presente sempre, sempre... para todos nós.
Um beijo. Força !

António Sousa Pereira

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