O Barreirense, o João Faia e o Zé AugustoPor Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Fim dos anos sessenta: comboio regional, percurso entre Praias do Sado e o Barreiro, sempre animado à tardinha, cheio de trabalhadores, mormente ferroviários, e estudantes, no regresso a casa. Os primeiros, ligados aos sectores de Via e Obras ou Material e Tracção da CP, os segundos, se voltavam da Escola Industrial e Comercial de Setúbal, iam ficando até ao Pinhal Novo, se do Liceu Nacional da referida cidade só terminavam a viagem na Moita ou vinham até ao Barreiro porque ainda não tínhamos aqui tal tipo de estabelecimento.
Os que não se sentiam vocacionados para os cursos ministrados pela Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva tentavam aquele liceu, ajudados, na maior parte dos casos, pelo passe social (certamente a mascarar a exploração nos salários dos progenitores e a rolha na boca dos que, entre eles, tentavam um discurso político) que a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses propiciava aos filhos dos seus funcionários.
No meio dos risos, lanches e desenferrujar das línguas, para espanto de todos e gáudio de alguns dos colegas do género masculino, que as separaram, duas finalistas liceais, (desde esse tempo das melhores amigas minhas) discutiram e chegaram, num ápice, a vias de facto, por causa da rivalidade (entre o Grupo Desportivo da CUF e o Futebol Clube Barreirense) que envolvia parentes seus muito queridos e chegados, futebolistas de cada uma das agremiações. O Zé Augusto (uma vez, há anos, a ver a seu lado um jogo no Manuel de Mello, contei-lhe a louca e gaiata ocorrência) e uma falta que sofreu, rapazinho, mas já sénior dos meus, os alvi-rubros, em disputa com os verdes, foi o pretexto da zanga, terminada logo ali.
Zé Augusto e João Faia: dois dos heróis do desporto-rei da minha infância, filhos do Barreiro com sorte diferente no terreno de jogo, dois habilidosos que nos fizeram vibrar, na representação da camisola do amado Futebol Clube Barreirense: “Uma esperança que não finda”, uma escola de virtudes na vida de muitos de nós, um espaço democrático, na bancada a ladear o hectare do jogo ou, num plano simbólico, de comunhão de gente de todas as idades e grupos sociais. Certamente como em outros emblemas mas único para os seus adeptos.
João Faia em Monte Gordo, penso que em 1953. A irmã Aninhas (Ana Sim-Sim, mãe e mulher corajosa, cidadã, parente e amiga exemplar, minha colega duas décadas e meia depois), a passar férias com a família Horta Fonseca, levara-me e ao filho Paulo Manuel às águas quentinhas e o João encontrou-nos na praia enquanto falava com Miguel Arcanjo, glória do Futebol Clube do Porto, que me deu um beijinho (nesse dia devo ter compartilhado afectos, que chegaram até hoje, com os de lá de cima, então maldosamente desvalorizados das suas pontes para Sul, situação que, um dia, os terá feito crescer, e ainda bem, sem beliscar o que me une ao Barreirense e ao Clube Naval Barreirense, este último que também já me entregou o Diploma e o emblema de Dedicação Associativa de que tanto me orgulho).
João Faia, um dia, isolado, a marcar, a contenda, ainda empatada, no fim, em delírio próprio e de todos, enquanto perguntava ao grande guardião Edmundo, memória fantástica do Clube Oriental de Lisboa (belas e inesquecíveis pelejas, na Primeira Divisão, entre nós e eles, resultados imprevisíveis até ao último minuto, às vezes o desgosto da vitória adversária que o meu querido pai, Cristiano da Fonseca Júnior suportava tão mal!): “Para que lado é que queres?”.
O casamento de glamour, como hoje se diz, rua cheia a ver a noiva, a sua Maria Henriqueta: linda, entrou no automóvel que a levou à cerimónia, transportando, também, os sonhos de mulheres, trabalhadoras com magros salários ou esposas de operários nas mesmas circunstâncias, que também teriam gostado do mesmo brilho no dia da união formal ao seu António ou ao seu Joaquim.
Internacional B contra a selecção do Sarre, no auge da carreira. João Faia ainda, no Velho Campo dos Arcos, em Setúbal, rivalidade regional máxima, uma provocação indecente que, fora das quatro linhas, atrás dele e cobardemente, tentaram fazer-lhe, concentrado na linha lateral em reposição de bola, e a resposta adequada, instintiva, corporal. O João ganhou, daí para diante, o epíteto de “Faia suja as botas” (estou a exprimir-me em registo de língua corrente, não o popular, usado na altura…) e apimentou a lenda criada com os seus invejados talento e inconformismo.
Faia e Zé Augusto, juntos, na revista Ídolos do Desporto, à porta do nosso maior motivo de orgulho, o Ginásio-Sede do Barreirense, em noite em que o menino-prodígio Joselito veio encantar-nos com a voz que nos trazia Espanha e algo que nos arrepiava, do fundo da tradição cigana, mais ou menos escondida pela ditadura franquista. Faia, em outro número da mesma publicação, com o meu tio António Horta à porta da barbearia onde desenvolveu actividade durante muito tempo.
Zé Augusto e as alegrias que, com o igualmente seu amado Benfica nos deu, Campeão Europeu duas vezes seguidas contra os monstros sagrados do futebol do Velho Continente. Zé Augusto na Saga dos Magriços, no Mundial de 1966, onde, com os truques feitos para o favorecimento da equipa anfitriã da competição, a Inglaterra (tenho mau perder, não é?... Ainda pior em retrospectiva), não chegou à final a que a melhor Selecção Nacional Portuguesa de todos os tempos no Desporto-Rei aspirava e fez jus. Uma mão dada, solidário como sempre, ao meu primo José Paulo Fonseca, recentemente falecido, fugido à guerra colonial e refugiado em terras britânicas.
Desportista de eleição, imperturbável nas tricas escusadas (para quando o seu fim?) entre dois dos chamados Grandes do nosso futebol e não só – apoiou, há vinte anos e meio, na Radiotelevisão Portuguesa, o Futebol Clube do Porto no dia da final em que, segundo o jornal A Bola (uma beleza ter aprendido a ler, bem cedo, os textos, primorosos, que tanto me entusiasmavam!), os azuis e brancos fizeram dançar o Danúbio Azul em Viena, na inesquecível vitória sobre o arrogante Bayern de Munique, na conquista da sua primeira – e terceira para o País – Taça dos Clubes Campeões Europeus.
Risonho, em Setúbal, e bom dançarino, na comemoração do último Dia de Reis, em evento organizado pelas direcções das organizações locais do FCPorto, SLBenfica (sim, leram bem, como sempre, caros leitores) e pela do Vitória Futebol Clube, com o suporte da Caritas Diocesana local, da Autarquia Sadina, de todas as forças políticas com representação parlamentar e do principal clube da Invicta, através do meu amigo Álvaro Monteiro, Presidente dos Dragões de Lisboa. O Zé e parceiros fizeram mais felizes, pelo menos por umas horas, pessoas que vivem nas ruas daquela cidade a que tantos elos me ligam.
Zé, continue a encorajar a Ana de Sousa, o Francisco Simões (os mais importantes, respectivamente, mulher-Dragão e homem-Águia da querida cidade de Bocage) e os responsáveis vitorianos em acções do género, está bem?
Futebol Clube Barreirense, Faia e Zé Augusto: fico-me por aqui. Agora. *
Manuela Fonseca
* Colunista do Jornal Rostos.













