ARTE CONTEMPORÂNEA (4)Linguagem na sua relação com a metafísica do real e a dimensão ontológica do pensar
Por Rui Monteiro Leite

Por Jornal Rostos
A pergunta acerca do que é a realidade e a questão da autonomia da linguagem constituem as duas grandes problemáticas filosóficas para qualquer tentativa de fundamentação ou explicitação do que será a arte contemporânea.
Uma das características da estética hodierna é a multiplicidade e a diversidade, a um nível que se fala tanto de idiossincrasia cultural como de difusidade artística.
No entanto, por diversas que sejam as correntes, os movimentos, as tendências ou as sensibilidades, a questão do real e a da linguagem, na sua relação dialéctica intríseca é incontornável e inultrapassável. Nenhuma corrente nem nenhuma teoria pode passar ao lado deste dado.
O tema da linguagem é tão velho quanto a filosofia, vem desde sempre. O “logos” é o conceito central do filosofar. Antes de significar “razão”, indica o “pensamento-palavra”, a razão que é discursiva ou a discursividade da razão, o pensamento que pensa pela palavra e a palavra que é pensamento; isto é, o “verbo”.
Este é o ilimitado limite do ser humano e o fundamento estruturante de ser “animal-racional”. Quer dizer, a nossa pertença ao real faz-se pelo pensamento e esta significação realiza-se na palavra. Isto não é um mero atributo humano, outrossim, é-lhe engénito, possibilita que ele seja aquilo que é; tem uma carga ontológica.
A problemática da linguagem na sua relação com a estrutura metafísica do real e com a dimensão ontológica do pensar levou, por exemplo, ao fim da grande síntese medieval, através do “nominalismo” de Guilherme de Ockhan que prepara o racionalismo e o dualismo modernos.
Podemos afirmar que a modernidade é o lento processo da autonomia da razão que culmina no Iluminismo, mas também podemos dizer que grande parte deste caminho se fez pela autonomia da linguagem científica que, deste modo, não apenas explica como sedimenta uma realidade fisicamente considerada através das suas leis universais, absolutas e perenes como se proclamava no auge da Física Newtoniana.
A ciência moderna estrutura-se e desenvolve-se neste âmbito por meio de uma linguagem, ou melhor, metalinguagem específica, a matemática.
Temos de considerar que, aqui, “autonomia” é tomada no sentido literal do termo grego, “auto-nomos”, aquilo que em si próprio possui a sua própria lei, aquilo que se auto-determina, regulariza e fundamenta.
A ciência contemporânea na sua revolução epistemológica radicaliza esta questão. O designado “Círculo de Viena” e Ludwig Wittgenstein no desenvolvimento dos seus “Jogos de Linguagem” vão constituir uma “Nova Lógica”, completamente abstracta, matematizada e desligada do real empírico. O “Cálculo Proposicional” vai proporcionar relações e conclusões puramente formais de verdade e falsidade que se fundamentam a si próprias através da sua metalinguagem específica. É todo um mundo que se cria, autista e autónomo.
Outras revoluções se vão suceder no dealbar do sec.XX: na filosofia com a Fenomenologia, na arte com os movimentos vanguardistas. São muitas revoluções para o mesmo período de tempo. Sem falar nas políticas que já terminaram, todas as outras continuam em aberto.
Afinal, trata-se do advento do acontecer dos tempos de hoje, com as suas possibilidades, vissicitudes e misérias. Do niilismo reinante, onde nada vale mas tudo tem um preço, até às euforias esquizofrénicas onde à beira do abismo cantamos alegremente, estamos numa atmosfera de optimismo que só poderei rotular de “optimismo trágico”.
Rui Monteiro Leite, 13 de Março de 2008













