AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVESaber dar, saber receber
Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos
O suplemento ípsilon do Público da passada sexta-feira proporcionou-me a leitura de um interessante trabalho da autoria de Joana Gorjão Henriques (texto) e João Fazenda (ilustração). Com o título “Há editores que melhoram os livros”, fiquei a perceber com acrescida clareza que há “editores que trabalham os livros com os escritores, como na tradição anglo-saxónica”, e que “sugerem cortes nas repetições, indicam novos títulos, aconselham a economia na escrita, cortam as pontas que os autores deixaram soltas”.
As duplas Vítor Silva Tavares/Alberto Pimenta, Francisco José Viegas/Francisco Camacho e Maria do Rosário Pedreira/José Luís Peixoto, foram evocadas como exemplo dessa nova relação entre escritores e editores portugueses. Francisco José Viegas, quando questionado acerca desse papel “não direccional mas colaborante”, assinalou que “muitas vezes é difícil o autor aperceber-se de muitas ciladas, repetições, erros”. E acrescentou não ter “a ideia de um autor-deus, soberano absoluto sobre o seu texto”.
Ressalvando desde já que tenho o necessário sentido das proporções e a noção plena de que a publicação de um livro não me fez escritor, recordei nestas últimas horas a extraordinária contribuição que recebi de Jacinto Maurício Nunes na construção de “PROVA DeVIDA”. Num contributo que o valorizou substantivamente, acrescentou consistência e coerência. É tempo, também por isso, de aqui evocar esse meu grande amigo que, pelo seu saber, exigência, rigor e criatividade, prestou uma inexcedível colaboração no desenvolvimento e concretização do meu impulso, agora tornado realidade.
Creio que a capacidade para assumirmos as nossas fragilidades, bebermos a sabedoria e a experiência dos outros, estarmos disponíveis para receber os seus contributos, pressupõe um processo de crescimento e maturação, cuja aquisição me parece muito diversa entre cada um de nós e alcançada em etapas muito distintas dos nossos percursos existenciais.
Tenho experiência acumulada daquilo a que me aqui me refiro, caldeada por muitos anos de experiência profissional enquanto médico e por experiências ricas e diversificadas na vertente pedagógica, no ensino médico pré e pós-graduado. Compreendo hoje bem melhor a importância dos contributos de terceiros nas nossas realizações pessoais, aceito-a com maior serenidade, procuro-a com maior frequência. Mas sei que este é um processo dinâmico, por vezes complexo e contraditório. A nossa confiança e auto-estima não podem (não devem) ser beliscadas pelos saberes outros, que ajudam a burilar, aperfeiçoar e enriquecer o nosso trabalho e a nossa vida. Concordam?
Barreiro, 16 de Março de 2008
Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)













