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AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVEPolíticos e Tecnocratas
Por Paulo Calhau

Confesso-me um apaixonado pela obra musical de José Mário Branco, a quem reconheço um talento (criativo e interpretativo) que me deixa sempre arrebatado e deslumbrado quando o oiço (em CD ou nos seus raros mas inesquecíveis espectáculos) e estranhamente (?) inquieto e ansioso, pela profundidade das suas palavras e pela “violência” dos seus desafios.

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AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVE Políticos e Tecnocratas Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos

“Tecnocrata: estadista ou alto funcionário que busca apenas soluções técnicas ou racionais para os problemas, sem levar em conta aspectos humanos ou sociais”.
(in Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

Na manhã de sexta-feira – Parabéns 25 Abril de 1974! – Pedro Adão e Silva referiu com grande oportunidade, em debate com Pedro Marques Lopes no Rádio Clube Português (104.3 FM), que a vida política contemporânea, particularmente no Ocidente, está dominada pelos tecnocratas, com manifesto e em sua opinião gravoso detrimento dos políticos. E exemplificou, no âmbito nacional e parlamentar, com a exigência e a pressão exercidas sobre o Primeiro-Ministro nos debates quinzenais da Assembleia da República, para que este detenha, demonstre e testemunhe um conhecimento preciso e exaustivo se todos os conteúdos técnicos dos diversos ministérios que tutela. José Sócrates estaria como que obrigado e vinculado à necessidade de conhecer e discutir o parágrafo A da página B do dossier C do ministro D. Pelo que me apercebo de algumas incursões radiofónicas e televisivas até parece que o actual Primeiro-Ministro não se sai nada mal dessa atribuição técnica. Mas, pergunto: terá de ser assim?
A evolução científica e tecnológica das sociedades modernas, a complexidade dos problemas a enfrentar, a importância dos equilíbrios financeiros e orçamentais, os fenómenos de globalização, a sustentabilidade ecológica do planeta, são (apenas) alguns dos factores que têm aumentado os níveis e os padrões de exigência técnica dos governantes e outros altos responsáveis pela gestão da “coisa pública”. Mas importa perceber que quase todas as opções e decisões são políticas – ainda que necessariamente sustentadas e fundamentadas em critérios e alicerces técnicos. A política é, portanto, e volto a citar Pedro Adão e Silva uma actividade de grande nobreza.
O que me parece lamentável em Portugal é a ausência de líderes credíveis, com uma visão política clara acerca do nosso futuro, próximo e distante. Há uma crise evidente das ideologias – de todas as ideologias –, mas também uma rarefacção de protagonistas políticos competentes, sérios e criativos. E, como disse hoje no PÚBLICO a eurodeputada Ana Gomes, existe uma enorme falta de “liderança esclarecida, progressista e consequente”.

A referência para esta supostamente verdadeira tendência tecnocrática da discussão política – o primado do combate ao défice parece por vezes asfixiante e redutor – ocorreu, curiosamente, numa semana em que reflecti sobre esta questão a propósito de algumas circunstâncias particulares.
Na noite da passada segunda-feira participei, a convite do meu amigo João Costa, no jantar semanal do Rotary Clube do Barreiro, que contou desta vez com uma prelecção de Carlos Humberto. O Presidente da Câmara Municipal do Barreiro apresentou as principais realizações em curso ou em fase de projecto no Concelho do Barreiro, numa comunicação genérica mas interessante que subordinou ao título “Barreiro - uma centralidade na Área Metropolitana de Lisboa”. Apercebi-me nessa altura, e cheguei a comentá-lo com o meu filho no dia seguinte, que Carlos Humberto não parece dominar os números e os pormenores com grande rigor e detalhe, embora se perceba que identifica os problemas, esboça soluções, sabe ouvir e, sobretudo, ama muito a sua (nossa) Cidade. Interroguei-me nessa noite, e também depois: será isso suficiente?
Um dia depois fui confrontado com a notícia da morte de Francisco Martins Rodrigues (FMR). Após a revolução libertadora de 25 de Abril de 1974, FMR teve um papel fundamental na reorganização da extrema-esquerda marxista-leninista portuguesa, consubstanciada na criação de uma organização política frentista – a União Democrática Popular e, posteriormente, na fundação do Partido Comunista Português (Reconstruído) que se pretendia assumir como o genuíno partido revolucionário da classe operária portuguesa. Apesar de ser o ideólogo mais destacado dessas organizações, FMR não veio a ter o papel dirigente na estrutura orgânica daquelas entidades partidárias que o seu passado de luta anti-fascista e de contestação ao “revisionismo soviético” teriam aparentemente justificado. FMR “falou” na prisão, sob tortura do sono, e essa “fraqueza” jamais o terá deixado tranquilo. FMR foi um revolucionário austero e sectário. Conhecedor dos crimes hediondos dos vários comunismos (soviético, chinês, albanês,...) mas “religiosamente” convicto – como José Manuel Fernandes testemunhou no editorial que lhe dedicou no PÚBLICO de quarta-feira – de ser essa a via única para a transformação socialista/comunista das sociedades capitalistas. FMR representou o paradigma do político para quem a ideologia tem um valor supremo. Foi – também por isso – um homem amargurado e solitário.

José Mário Branco (JMB) foi ao longo seu percurso político militante – no exílio, em França, e no pós-Abril de 74, já em Portugal – um “compagnon de route” de FMR.
Confesso-me um apaixonado pela obra musical de JMB, a quem reconheço um talento (criativo e interpretativo) que me deixa sempre arrebatado e deslumbrado quando o oiço (em CD ou nos seus raros mas inesquecíveis espectáculos) e estranhamente (?) inquieto e ansioso, pela profundidade das suas palavras e pela “violência” dos seus desafios. Afinal, as mesmas sensações me invadiram na noite de sexta-feira, quando visionei na RTP1 o magnífico concerto “Vozes de Abril”.
Estou politicamente distante de JMB. Seremos ambos de esquerda – embora de esquerdas diferentes – entre outras razões por não querermos “suportar o sofrimento da Humanidade” [JMB em entrevista ao SOL de ontem]. Ambos buscamos e sentimos a Felicidade – individual e colectiva – com opções e trajectos distintos. Como JMB referiu na entrevista supracitada porque “tenho paixão pelo que faço e, olhando à volta, sinto que nesse aspecto sou um privilegiado”.
JMB é um homem de convicções – discutíveis, como todas o são – de projectos e de sonhos. Como confessou ao SOL não desiste, há mais de cinco anos, de concretizar um espectáculo ao vivo com Fausto e com Sérgio Godinho que esteve na noite de quinta-feira no Parque da Cidade. Para um concerto musicalmente bom, tecnicamente aceitável, politicamente correcto.

Boa semana para todos. Até Domingo próximo.

Barreiro, 27 de Abril de 2008
Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)

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