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AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVEFactos e falácias
Por Paulo Calhau

O Grupo Desportivo Fabril – que já foi Grupo Desportivo da CUF e Grupo Desportivo da Quimigal – merece-me respeito e consideração. Pelo ecletismo. Pelo número de praticantes. Mas nunca foi e não é o clube mais representativo da Cidade do Barreiro. E não é, como pretende o seu ainda presidente de direcção, Faustino Mestre, “o único clube do Barreiro que tem futuro”. Como os Barreirenses saberão demonstrar!

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AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVE Factos e falácias Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos

“Ser adepto de um clube é razão suficiente para abdicar da inteligência?”
João Marcelino (RECORD, 2006)

Começo o texto desta semana com uma nota preliminar, ainda que desnecessária para muitos leitores de ROSTOS: sou associado do FCB há quase 51 anos. Assumidamente Barreirense. Fervorosamente Barreirense. Espero que inteligentemente Barreirense.

No passado dia 27 de Abril, no derby Grupo Desportivo Fabril (GDF) – Futebol Clube Barreirense (FCB), disputado no Estádio Alfredo da Silva, numa tarja patrocinada por jovens adeptos “fabris”, colocada próximo do “banco” Barreirense e voltada para os numerosos apoiantes “alvi-rubros”, podia ler-se qualquer coisa como “Temos orgulho de ser ratos brancos”. Muito bem!
Os slogans dos jovens adeptos barreirenses, nomeadamente quando recorrentemente vencem títulos nacionais e regionais – de futebol e sobretudo de basquetebol –, são bem distintos e assertivos. E num deles canta-se justamente que “o orgulho do Barreiro somos nós”. E é verdade!

No livro “PROVA DeVIDA – Estórias e memórias do meu Barreirense”, recentemente publicado, escrevi (páginas 106-108):
“Conheci desde pequeno a rivalidade entre o FCB e o Grupo Desportivo da CUF. E cresci com ela…
Quase todos os derby a que assisti – no futebol e no basquetebol – foram marcados por um ambiente de alguma crispação, muito embora me não recorde de ter presenciado qualquer manifestação de violência física entre adeptos ou dirigentes. Mas assisti, muitas vezes, a violência verbal, insulto e provocação.
Lembro-me bem das entradas da CUF no ‘Manuel de Mello’. A hostilidade dos adeptos Barreirenses era sempre manifesta, em todos os sectores do estádio. A meu lado, José Augusto da Costa Mano, velho amigo entretanto falecido, era uma das tradicionais vozes da revolta que, percebi mais tarde, tinha uma intrínseca componente política, e era dirigida contra todos os que neste país representavam e/ou protegiam o grande capital monopolista e o salazarismo.
Nesses momentos, mesmo com o odioso Sargento Reis e os seus acólitos voltados provocatoriamente para os associados, numa actividade consciente e premeditada de limitação da sua liberdade de expressão e de associação, os Barreirenses eram corajosos e determinados, na demonstração pública e colectiva dos seus sentimentos. Uma vitória sobre os ‘ratos brancos’ dava-nos alento para uma nova semana de trabalho, de estudo, de luta…
O poder político do país nos anos 60, a que aqui me reporto, estava impregnado de responsáveis com uma concepção e uma praxis antidemocrática, persecutória e totalitária. O que explicava esta resposta de parte significativa da população Barreirense, organizada de forma clandestina, sobretudo na militância comunista, ou traduzida de forma mais espontânea em manifestações desportivas, celebrações do Carnaval, etc.
No lado contrário, e por razões que desconheço em pormenor, o defesa-central Castro, destacava-se pela sua antipatia para com o FCB. E respondia, sempre que nos defrontava, com jogo violento e com provocações para a bancada, muitas vezes com gestos obscenos que nos indignavam e enfureciam.
Mas a vida dá tantas voltas…
Aos 32 anos, já em final de carreira, com a época de 1976/1977 à porta, Castro não renovou contrato com a CUF e assinou pelo FCB que, orientado por Manuel de Oliveira, aspirava regressar à I Divisão, o que veio efectivamente a concretizar-se. Em 11 de Setembro de 1977, Castro realizou o seu primeiro jogo oficial pelo FCB no Campo D. Manuel de Mello. Vencemos por 4-1 o União de Santiago do Cacém, em partida referente à 1ª eliminatória da Taça de Portugal. Castro entrou em campo e veio prontamente saudar os sócios que, localizados na bancada do topo norte, responderam parcialmente à ‘gentileza’ do novo reforço. Em entrevista a Joaquim Rita, Castro exprimiu a sua nova paixão: “O ambiente no Barreirense? Do melhor que encontrei até hoje. A maior alegria que eu poderia sentir era subir de divisão com o Barreirense e a CUF [apesar de agastado com os seus Directores] ir à ‘liguilla’ e subir” (A BOLA de 26 de Novembro de 1977). Era agora o Senhor Castro como me disse, jocosamente, o amigo Costa Mano. Para alguns, não para nós dois…”

Expresso aqui afectos e sentimentos – sinceros.
Manifesto razões e convicções – discutíveis. Mas minhas. Assumidamente minhas. Eternamente minhas.

Mais adiante, nas páginas 228-229 de “PROVA DeVIDA” escrevi:
“Temos sido um clube independente. Percorremos o Estado Novo sem qualquer identificação com o regime ditatorial. E, quando alguns dos seus prosélitos integraram os Órgãos Sociais do FCB, fizeram-no ao serviço do clube, acima das suas legítimas mas criticáveis convicções políticas e doutrinárias. Após o 25 de Abril, soubemos combater e impedir, com coragem e determinação, a deriva irresponsável e totalitária que tudo e todos quis influenciar e dominar. Numa fomos dependentes do poder económico. A heróica construção do Ginásio-Sede, cujo cinquentenário se celebrou em Maio de 2006, foi um exemplo magnífico do impulso sonhador, da vontade, da mística e da capacidade empreendedora da nossa massa de associados e adeptos, um testemunho inexcedível da comunhão do FCB com o Barreiro. Reconhecemos o extraordinário contributo que alguns associados prestaram ao longo da nossa história e que foi, em momentos de crise e de estrangulamento financeiro, o garante da viabilidade do clube, da sua renovação e perenidade. Mas soubemos identificar os oportunistas que episodicamente quiseram servir-se do FCB e afastámo-los do nosso seio, sem hesitação e sem prejuízos ou danos irreparáveis”.
Também por isso sou Barreirense.

A fundação do FCB no já longínquo 11 de Abril de 1911, o seu crescimento, o prestígio e a afirmação local e nacional, resultaram de um esforço imenso, convicto, popular, colectivo. Sem paralelo na História Associativa do Barreiro!

Mas há que perceber, reconhecer e congratularmo-nos com o facto de que, nesta tarefa clubista de promoção do Desporto, não estivemos nem estamos sós. Muitos outros clubes desenvolveram ao longo do século XX um papel relevante em prol do Desporto Barreirense, e esforçam-se denodadamente por prossegui-lo nos nossos dias de forma séria e consequente. Com diferentes culturas, metodologias, objectivos e resultados.
O GDF – que já foi Grupo Desportivo da CUF e Grupo Desportivo da Quimigal – merece-me respeito e consideração. Pelo ecletismo. Pelo número de praticantes. Mas nunca foi e não é o clube mais representativo da Cidade do Barreiro. E não é, como pretende o seu ainda presidente de direcção, Faustino Mestre (FM), “o único clube do Barreiro que tem futuro”. Como os Barreirenses saberão demonstrar!

A supracitada afirmação de FM vem expressa na extensa entrevista que concedeu ao NOTÍCIAS DO BARREIRO da passada quarta-feira e que mereceu um destaque de primeira página e 3 das 10 páginas de conteúdo jornalístico daquele semanário.
A respeito do seu conteúdo, creio ser importante e necessário assinalar e comentar alguns aspectos. Faço-o obviamente a título individual, sem qualquer procuração ou comprometimento da direcção do FCB.
A propósito da proposta de fusão entre o GDF e o FCB que terá efectuado recorrentemente a Manuel Lopes, presidente da direcção do FCB, FM afirmou: “Há quatro anos fiz uma proposta ao Manuel Lopes, presidente do Barreirense, para fazermos uma fusão e a ideia partiu de mim. Já fiz esta proposta três vezes e há dois meses atrás fiz de novo para discutirmos a maneira de unificar os dois clubes ou mais algum que se queira juntar”.
E, à pergunta do jornalista António João Oliveira acerca da resposta a essa sua pretensão afirmou: “O Manuel Lopes respondeu que não tinha coragem para apresentar uma proposta dessas, mas quem não tem coragem não pode ser presidente do Barreirense”.
Nunca discuti com o actual presidente da direcção do FCB a sua opinião acerca desta problemática. Que de resto nunca foi apresentada aos Barreirenses – e devia, em minha opinião tê-lo sido. Mas gostava que lançada esta farpa por FM, o meu presidente desse a cara e defendesse a honra – a sua honra, a nossa honra.

A hipotética fusão entre o GDF e o FCB (e eventualmente outros clubes do Barreiro) tem sido aflorada ao longo dos anos. Também escrevi acerca dessa questão no livro “PROVA DeVIDA”. E volto a citar-me (páginas 173-174):
“A primeira abordagem pública de uma ideia de fusão de alguns dos principais clubes do Barreiro terá sido efectuada pelo conceituado jornalista Domingos Lança Moreira, em data e contexto que não consegui precisar.
Em artigo publicado na edição de 5 de Setembro de 1957 do JORNAL DO BARREIRO, o jornalista Oliveira e Silva defendeu publicamente um processo de fusão que abrangesse, pelo menos, o FCB e o Grupo Desportivo da CUF. Apesar das críticas de imediato desencadeadas pela sua posição, Oliveira e Silva voltou à carga em 3 de Outubro.
Foram muitas as vozes discordantes dessa pretensa solução para os problemas estruturais, financeiros e desportivos dos, à época, principais clubes do Barreiro: FCB, Grupo Desportivo da CUF, Luso Futebol Clube e Clube Naval Barreirense.
O JORNAL DO BARREIRO, onde parecia dominante uma perspectiva favorável à fusão, voltou a levantar a questão em 23 de Fevereiro de 1958, informando que Jorge de Mello, líder do grupo CUF, estava a estudar essa possibilidade com alguns clubes. A demissão de Armando da Silva Pais, Director de O BARREIRENSE, jornal do FCB, foi reveladora da delicadeza e conflitualidade da questão e pelo clima gerado no interior do FCB. E o assunto pareceu morrer, ou pelo menos adormecer…
Em Junho de 1990, por influência de Pedro Canário – Presidente da Câmara Municipal do Barreiro – realizou-se no Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro, uma reunião patrocinada pelo autarca, onde estiveram presentes algumas dezenas de associados em representação do FCB e do Grupo Desportivo da Quimigal (que sucedera em 1980 ao Grupo Desportivo da CUF e que em 2000 passou a designar-se Grupo Desportivo Fabril).
Albino Macedo, Presidente da Direcção do FCB, convidara-me uns dias antes para estar presente, o que prontamente aceitei. Na Biblioteca do Ginásio-Sede realizou-se uma reunião preparatória, onde a Direcção expôs a sua visão do problema. O Grupo Desportivo da Quimigal debatia-se então com graves problemas organizativos, desportivos e financeiros. E, admitia-se em alguns círculos supostamente bem informados, que a administração do Grupo Mello estava disposta a vender as instalações do Complexo Alfredo da Silva. O FCB perfilava-se aos olhos de alguns dos seus dirigentes como potencial comprador. Confesso que apesar de ter crescido num ambiente de muita crispação e algum ódio em relação ao Grupo Desportivo da CUF, não considerei aquela hipótese particularmente digna e interessante.
O desenrolar da reunião, presidida por Pedro Canário, veio a revelar uma clara ausência de estratégia por parte dos dirigentes do meu clube. E a determinada altura, resolvi pedir a palavra. De improviso, até porque não perspectivara qualquer intervenção, critiquei qualquer eventual proposta de fusão dos dois clubes e mostrei concordância e sintonia com a posição formulada por Álvaro Monteiro, em rota de colisão com o Partido Comunista Português, no sentido de ponderar devidamente os benefícios da municipalização do ‘Alfredo da Silva’. Pareceu-me que Albino Macedo e os seus colaboradores não apreciaram o meu arrojo e independência, mas, passados dezassete anos, creio ter assumido uma posição genericamente justa e correcta, importante para a sustentabilidade e autonomia de ambos os clubes, e adequada à vida desportiva do Barreiro.
O tema não mereceu atenção do JORNAL DO BARREIRO, que não lhe dedicou qualquer espaço noticioso. Desta vez, não houve debate público, nem polémica…”.

Há portanto muito tempo que sou frontalmente contra a fusão entre o GDF (ou qualquer um dos seus antecessores nominais) e o FCB. Não creio – ao contrário de FM – que a sensibilidade dos associados do FCB seja geracional, ou seja que “enquanto os velhos não morrerem...”. Mas, apenas o escrutínio universal da vontade dos meus consócios – democraticamente expressa – poderá validar a minha sensibilidade e a minha intuição.
Também há algum tempo que sou defensor da municipalização do Complexo Desportivo de que o GDF tem direito de superfície concedido pelo Grupo Mello. Sei que esta minha posição – reflectida e consciente – é susceptível de irritar a massa adepta e associativa do GDF, entre a qual tenho alguns bons amigos. Mas não creio que jamais lhe venha a ser concedido o direito de propriedade que vem denodadamente perseguindo...

Tal como fizera no passado recente em relação ao executivo socialista liderado pelo Engº Emídio Xavier, FM recorre e persiste na crítica à autarquia do Barreiro – agora de maioria comunista – reafirmando tratamentos de desfavorecimento do GDF em relação ao FCB. Aplaudo a sua frontalidade. Questiono a sua “razão”.
Mas FM vai mais longe, despudoradamente longe, quando afirma – referindo-se mais uma vez ao FCB – que “tem que se ter ideias, ir à Câmara buscar dinheiro é fácil”. Menorizando e quase ridicularizando a capacidade dos dirigentes do FCB. Como se fosse (tivesse sido) essa a prática dos dirigentes do FCB. Como se fosse (tivesse sido) essa a prática da Autarquia. Como se fosse (tivesse sido) essa a realidade.

O GDF parecia estar em processo acelerado de definhamento antes da liderança de FM. Apercebo-me que o clube se relançou, ganhou novo fôlego, outra capacidade, outra ambição. O que foi bom para o GDF, para o Barreiro e para o Desporto. Mas as fragilidades do clube não diminuíram. E continuam a parecer imensas. Apesar da credibilidade auto-assumida pelo seu presidente e que será brevemente sufragada pelos associados “verde-brancos” na sua próxima pugna eleitoral contra Amadeu Batista. FM adverte mesmo que “temos alguns associados que aqui metem o dinheiro para que o clube assuma os seus compromissos”. O que talvez não seja premonitório de uma verdadeira e continuada sustentabilidade.
FM não refere que, resultante do acordo celebrado com o FCB para a cedência do Estádio Alfredo da Silva, o GDF aufere anualmente mais de cem mil euros, o que lhe assegura certamente boa parte do orçamento para o futebol e resulta num acrescida competitividade em relação ao seu rival FCB, com quem vem disputando uma muito almejada subida de escalão.

O FCB está em vias de ultrapassar um período complexo de indisponibilidade de estruturas físicas para a prática do futebol, ao longo do qual conseguiu, ainda assim, manter uma razoável capacidade de atracção da juventude, barreirense e de alguns concelhos limítrofes, e prosseguiu uma capacidade competitiva invejável nos escalões de formação.
A recém-inaugurada da Academia de Futebol trará nova dinâmica e pujança ao Futebol Juvenil de FCB. E a construção do Estádio da Verderena constituirá um factor decisivo na independência estrutural do futebol sénior.
Não desejo um FCB mais forte pelo enfraquecimento dos seus mais directos adversários. Mas também não me resigno a um FCB menos forte pelo enriquecimento artificial do nosso mais directo opositor local.
Os tempos não estão fáceis para os clubes desportivos. E também para o FCB. Obviamente!
Por isso, como escrevi em “PROVA DeVIDA” (página 89):
“Será apenas através de um contributo mais activo e alargado dos seus associados, do talento, criatividade, empenhamento e bom senso dos seus dirigentes, e da capacidade de diálogo e colaboração solidária, harmoniosa, transparente e moderna, com a Câmara Municipal do Barreiro e com os agentes económicos da cidade, que o Barreirense poderá ultrapassar as graves dificuldades e constrangimentos actuais. E prosseguir um percurso desportivo de mérito (na formação e na alta competição), um desempenho de relevo na sociedade Barreirense, um estatuto de Utilidade Pública tão legitimamente adquirido. Caso contrário, não estarão criadas, em minha opinião, as condições mínimas para a prossecução de objectivos desportivos competitivos semelhantes aos actuais, e o Barreirense será obrigado a recuar para patamares bem menos ambiciosos, de alcance e consequências ainda muito pouco discutidas e consciencializadas pela imensa maioria dos Barreirenses”.

Boa semana (desportiva e não só) para todos. Até Domingo próximo.

Barreiro, 11 de Maio de 2008
Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)

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