Podem dar voltas à Estátua mas não dão a volta à história!Por Nuno Banza
O Barreiro beneficiou muito desta visão reformista e liberal, e viu muitos dos filhos destes trabalhadores, que recebiam ordenados muito acima até dos próprios funcionários públicos, terem a oportunidade de continuar os seus estudos e serem hoje homens e mulheres de sucesso...

Por Jornal Rostos
Eu começo por dizer que na minha opinião, Alfredo da Silva foi sem dúvida o primeiro Reformista Liberal que o Barreiro conheceu, e a quem reconheceu justamente o seu mérito. É preciso enquadrar todo o seu trabalho no contexto da época e da Sociedade em que Portugal vivia. É fácil dizer hoje que na fábrica haviam informadores da PIDE e que se trabalhava em condições muitas vezes sub-humanas, quando olhamos para o passado com os olhos de hoje. Mas esta é só uma parte da história, e neste caso até, uma pequena parte. Porque se perguntarmos aos mais idosos, que passaram pela fábrica, como caracterizavam a sua relação laboral comparativamente aos trabalhadores de outras indústrias ou outros sectores, rapidamente perceberão que as diferenças eram abismais.
Numa época em que não haviam direitos laborais, em que no Alentejo se trabalhava “de sol a sol”, ou que no norte se vindimava nos socalcos muitas vezes até cair de exaustão, Alfredo da Silva implementava um sistema de apoio social aos trabalhadores da fábrica. Criava um plano de saúde, com a abertura do posto médico e do hospital da CUF, a par da medicação gratuita. Criava um plano de educação com a abertura da escola primária. Criava um plano de habitação, com a construção dos bairros, vários e com características distintas em função dos seus destinatários, é verdade, mas todos com condições muito acima do que era a típica habitação dos portugueses na altura. Abria uma dispensa e várias cantinas – enfim – construiu um império empresarial com uma estratégia económica liberal, mas em que os trabalhadores tinham efectivamente um papel valorizado. E imagine-se o que não pensavam na altura os restantes empresários, desta estratégia que podia até parecer para alguns ter inspirações “comunistas” por defender tanto os trabalhadores, mas que de facto mais não era do que uma visão reformista onde, num contexto nacional em que o trabalhador era apenas mais um dos factores produtivos como a terra ou a matéria prima, no Barreiro era visto como uma peça de valor.
Com todo este passado, é fácil perceber que Alfredo da Silva é de facto muito incómodo para muitos ortodoxos, que preferem ter os patrões no papel de vilões. O Barreiro beneficiou muito desta visão reformista e liberal, e viu muitos dos filhos destes trabalhadores, que recebiam ordenados muito acima até dos próprios funcionários públicos, terem a oportunidade de continuar os seus estudos e serem hoje homens e mulheres de sucesso, alguns com grandes responsabilidades dentro e fora de Portugal. E por isto, tudo, confesso que não estou muito preocupado, porque por muitas voltas que se dêem à estátua, o que não vão conseguir fazer é dar a volta à história.
Nuno Banza













