AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVEMaio de 68: esquecer ou lembrar?
Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos
Nos anos sessenta logo que o mês de Junho findava, o meu tio “Zé” deixava temporariamente o “13eme arrondissement de Paris” e apanhava o Sud Express na Gare d´Austerlitz. Aguardavam-no longas horas, mais de trinta, penosas e desconfortáveis, até à chegada a Santa Apolónia. Já no Barreiro, era o reencontro anual, sempre emotivo e apaixonado, primeiro com sua mãe, irmãos e sobrinhos e, pouco depois, com os muitos amigos que conquistara ao longo de décadas de morada barreirense.
Como tantos outros, o meu tio “Zé” emigrara, fugindo à miserável exploração que consecutivamente sofrera enquanto operário corticeiro, e que decidira não mais suportar. Fora à procura, na Cidade Luz, de algum desafogo financeiro que lhe permitisse regressar mais tarde a Portugal. Labutou “por terras de França”, como bem cantou José Mário Branco em “Margem de certa maneira”, que oiço (vezes sem conta, e agora uma vez mais) enquanto redijo estas linhas. Sei que foi uma estadia francesa com privações materiais e afectivas. Uma vida sofrida.
Durante um mês, de segunda a sexta, eu não descolava do meu tio “Zé” durante as primeiras horas da tarde. Almoçávamos juntos, em casa de sua mãe, no 1º direito do nº4 do Páteo Albers. Ele sabia como fazer um bife delicioso, que esmerara na solidão do seu quarto parisiense. Depois, rumávamos ao Ginásio-Sede do nosso querido Barreirense, que ajudara a erguer.
No Verão de 68 o meu tio “Zé” esteve connosco, como sempre. E trouxe o seu testemunho do que vira e vivera durante o mês de Maio, quando a revolta estudantil pôs Paris e a França em polvorosa e pulverizou a atenção dos media. No “Portugal amordaçado” a censura encarregava-se de impor a sua verdade, deturpar realidades, exorcizar fantasmas. Recordo-me bem de o meu tio “Zé” ter sido múltiplas vezes interpelado pelos amigos, sedentos de saber a sua visão dos factos. E lembro-me das suas respostas vagamente receosas, pouco consistentes, escassamente politizadas. Em Roterdão, o irmão Aníbal procurara na emigração um caminho e um sonho similares, mas, mais culto e empenhado, embora com o mesmo parco grau de instrução, adquirira uma formação política mais sólida e adoptara um engajamento no Partido Comunista Português (que julgo bem anterior à Revolução de Abril).
1968 foi um “ano louco”: assassinato de Martin Luther King; derrota da Primavera de Praga e do socialismo de rosto humano de Alexander Dubcek às mãos (e pelos tanques) da barbárie totalitária soviética; ofensiva do TET que mudou o curso da Guerra do Vietname. Em Portugal, a luta contra a ditadura prosseguia, o regime tentava sobreviver agora à custa de uma tímida abertura e... acontecia Vilar de Mouros.
À data, eu era pequenito. Tinha completado 11 anos. A recordação que guardo das palavras do meu tio “Zé” foi a de uma grande confusão pelas ruas de Paris, com estudantes a erguer barricadas, a apedrejar polícias e a incendiar viaturas. Soube, soubemos depois, que o Maio de 68 foi muito para além dessa arruaça. Constituiu, num primeiro tempo, um momento de revolta da juventude universitária de Nanterre e Paris, um movimento anti-autoritário “partilhando um desejo de liberdade sem precedente” [Miguel Gaspar, PÚBLICO de 2 de Maio de 2008], que se estendeu posteriormente, mas de forma vertiginosa, a importantes sectores do operariado e dos trabalhadores de serviços, vindo a desaguar numa imensa greve geral com a adesão de cerca de sete milhões de franceses. Representou o embrião de importantes transformações da sociedade francesa. Com implicações contraditórias mas irredutíveis – políticas, culturais, sociológicas e civilizacionais – que extravasaram o espaço territorial gaulês.
Maio de 68 tem despertado, como se esperava na celebração dos seus quarenta anos, uma multiplicidade de relatos, avaliações, testemunhos e discussões, que venho acompanhando com particular interesse. Como Manuel Villaverde Cabral, considero que “como uma grande revolução cultural, o Maio francês de 1968 foi também político, mas só no sentido em que, para os participantes do movimento, a política fazia parte da vida” [Visão História, Nº 1, Abril de 2008]. Mas recordo que, como assinalou Medeiros Ferreira em depoimento ao Rádio Clube Português, já existira luta estudantil em Portugal em 1962. E estou de acordo com Maria Filomena Mónica, que à mesma rádio destacou a importância da divulgação da pílula contraceptiva como fenómeno civilizacional mais fracturante.
Em minha opinião, Maio de 68 terá sido, na sua vertente política mais restrita, uma manifestação da inconsequência do “gauchisme” (anarquista, trotskista, maoista) e mais uma demonstração da concepção centralista e da prática controleira dos partidos comunistas de inspiração marxista-leninista e das suas centrais sindicais “apendiculadas”. Ou seja, Maio de 68 foi politicamente importante, mas não demasiado importante. E a prova – pelos percursos depois encetados por alguns dos mais mediáticos e entusiásticos líderes (de Serge July a Alain Krivine, de Jacques Sauvageot a Alain Geismar) – da sua inconsistência político-ideológica e da sua inocente utopia radical. Esqueci Daniel Cohn-Bendit? Claro que não. Dele falarei num destes domingos. E da Primavera de Praga – que considero historicamente bem mais relevante e estimulante.
Boa semana para todos. Até Domingo próximo.
Barreiro, 25 de Maio de 2008
Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)
Apostila: Francisco Lucas Pires faleceu a 22 de Maio de 1998, dez dias antes de minha mãe. Não resisto a transcrever um excerto das palavras bonitas que um dos seus filhos, o escritor Jacinto Lucas Pires lhe dedicou, no PÚBLICO de 23 de Maio: “Por um lado, a dor da saudade continua nova e brutal e esse dia 22 de Maio de há dez anos mantém-se terrivelmente sem sentido. Por outro lado, é-me possível hoje olhar para trás, para o que foi a vida inteira do meu pai, Francisco Lucas Pires, e sentir uma sólida felicidade nisso. Nas boas lembranças, claro, no rememorar de certos momentos especiais, com certeza. Mas, mais até do que nessas polaróides interiores, no recuperar do total de uma vida: no exemplo que ele deixou, e deixa. Um exemplo de convicções e tolerância, de inteligência e liberdade, de honestidade e sonho. A importância de o ver tratar todas as pessoas da mesma maneira, com a mesma franqueza e disponibilidade, fossem anónimos na rua ou individualidades nos salões. A importância de perceber a cultura, o conhecimento em geral, como um “gesto” natural e não uma “diferença”. E a política como um lugar de palavra, um honrado combate de ideias, e não mera estratégia marqueteira, mero projecto de “carreira”. Um exemplo assim vale mais que mil lições. Um exemplo assim é algo que trazemos connosco não só nos dias das efemérides, não só nas ocasiões importantes, e não só, até, nos momentos em que nos lembramos concretamente das pessoas – um exemplo assim segue connosco, sempre ao lado do que somos, nos todos-os-dias de hoje e amanhã”.













