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João Serpa: evocação de um HomemPor Manuela Fonseca

Nunca me esquecerei do brilho dos seus olhos quando me / nos falavas de coisas novas e sérias, das gargalhadas francas, tonitruantes que, por vezes, irrompiam após comentários, sarcásticos, meus, acerca do “País em Inho” contado e cantado por Manuel Alegre, dos profundos conhecimentos que tinha acerca da problemática da multiculturalidade.

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João Serpa: evocação de um Homem Por Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos

João Manuel Serpa foi, até ao momento, o último dos meus grandes amigos, numa relação que começou com os ensinamentos que me proporcionou na área informática. Isso aconteceu em momento posterior a várias pessoas terem tentado, infrutiferamente, fazê-lo – eu olhava então para o computador com o ecrã em branco, e achava, numa indiferença que disfarçava a ignorância (e, inusitadamente em mim, a falta de persistência e de crença nas possibilidades de aprendizagem, eu que tenho levado parte da vida a ensinar, a reflectir acerca da arte e ciência da formação e da mediação de conhecimentos), que nunca viria a manusear um computador.

Tinha-me até acontecido, no fim da década de noventa, num dos países desenvolvidos da Europa, ver uma colega, na preparação comum de uma acção internacional, a olhar, admirada, para mim, percebendo a info-ignorância, prontamente disfarçada pela companheira da Escola Superior de Educação de Setúbal a quem comentei quando terminámos a actividade do dia: “Tenho que aprender os serviços mínimos com esta nova máquina de escrever para representar bem a nossa instituição e o País.”

Com a inestimável ajuda do João, bondoso e prestável, este objecto no qual trabalho e através do qual comunico com os leitores tornou-se um prolongamento do que faço, penso e sinto, um meio eficaz de chegar aos outros, de estar perto deles, inseparável no e do meu quotidiano, da profissão que desempenhei durante quase quatro décadas e que continua a estar perto de mim, da assunção de cidadania, dos múltiplos interesses que me norteiam.

E agora, nos dias menos felizes e pouco movimentados por que passo, nem sei imaginar como geriria um período maçador e delicado da minha saúde se não me tivesse aliado a esta manifestação tecnológica da Cultura chamada computador, ombreando com os oito anos do meu neto, David Mousinho Costa, na atracção que a sua magia nos proporciona.

Referi a alegria e funcionalidade que a literacia informática me deu, indissociáveis do saudoso João Serpa, em excerto não publicado, de entrevista recente para este órgão de comunicação social, acerca do tempo de colaboração no mesmo, no qual disse: “Sou má em datas… Esporadicamente, parece-me que desde o início do Rostos em suporte de papel e algum tempo depois de surgir em forma digital, embora então ainda muito aflita porque, imagine(m), a informática me atrapalhou até aos ensinamentos do casal Dr. João Serpa – Dr.ª Maria Helena de Sousa, ele, sem ofensa para a ilustre colega citada, génio dos computadores, ambos dos grandes amigos que tenho.”

João Manuel Serpa frequentou o Instituto Superior Técnico, onde não chegou a concluir o curso escolhido porque a vocação que tinha era outra, que o levou a licenciar-se, em França, na segunda metade dos anos setenta, como animador sociocultural, e dos três anos da instituição portuguesa referida, ficou-lhe o gosto pela electrotecnia que o terá levado à área informática; a junção de saberes diversificados levou-o à produção e implementação de projectos interessantes, num gosto pelo trabalho em grupo, como o da Associação Inovação e Intercâmbio, sempre em busca da excelência, sem perdas de tempo com palavras levadas pelo vento, tendo-as certas no tempo adequado

Em França coordenava agora um projecto denominado “Projet des Réseaux Associatifs sans Fils pour des Antennes Régionales” que abrangia as zonas de Bordéus, Marselha, Nantes e Estrasburgo.

Avesso a especulações estéreis, fazia, realizava, incansavelmente, os olhos postos na melhoria desta cidade que o acolheu e a que se dedicou, empolgado pela colaboração para que se construa um Barreiro com olhos no futuro, num presente de respeito pela sua História.

Testemunhei, as muitas horas roubadas ao sono, o entusiasmo com que ele e Helena, companheira de há mais de duas décadas (querida amiga e colega que, há quase três, conheci, professora-ainda-menina, a vontade de trabalhar com competência em prol dos alunos, na Escola Secundária de Santo André, onde a mesma voltou a ser materializada, após passagem por outros estabelecimentos de ensino e regresso à casa-mãe), participaram na fase preliminar do Concurso de Ideias para a zona do Mercado Municipal.

O Barreiro perde um filho adoptivo que por ele lutou, talvez nem sempre bem compreendido (marca distintiva das grandes pessoas), que nos prestigiou e de cujos saberes continuaremos a beneficiar, na memória da sua lucidez de homem simples e informado.

Nunca me esquecerei do brilho dos seus olhos quando me / nos falavas de coisas novas e sérias, das gargalhadas francas, tonitruantes que, por vezes, irrompiam após comentários, sarcásticos, meus, acerca do “País em Inho” contado e cantado por Manuel Alegre, dos profundos conhecimentos que tinha acerca da problemática da multiculturalidade.

Nunca me esquecerei do desportivismo, a perguntar-me pelo Barreirense (um dos temas dilectos que herdei da famíla) e a ouvir as narrativas que dele tenho, a toda a hora, no coração e no discurso oral. Também demonstrado na rua, Benfiquista que era, na noite, inesquecível, há quatro anos, do Futebol Clube do Porto Bicampeão Europeu. Ainda da reprodução de Miró, emoldurada, que, com entusiasmo, me trouxe da nossa Barcelona e, finalmente, do arrebatamento com último trabalho; mesmo atrapalhado com os aviões, aquele quase-gigante ajudava a França a tornar-se mais sábia e mais plural.

Até sempre, João Serpa!

Manuela Fonseca
(Colunista do Jornal Rostos)

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