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VOCÊ ESTÁ IRRECONHECÍVEL, MÁRIO!Por Kira

Antigamente, pelas 5 da tarde, acabava o passeio, bebia um copinho de três, comia uns passarinhos fritos e zarpava até à pensão da dona Eulália. Hoje isso não é possível. Há muitos mais pássaros, há, mas não há quem os apanhe. Só de vez em quando, se levarmos um gravador, claro!

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VOCÊ ESTÁ IRRECONHECÍVEL, MÁRIO! Por Kira

Por Jornal Rostos

Gosto de ir até Cortes, uma freguesia ali para os lados de Leiria. Adoro passear naquela boa zona. Tem a paz dos espíritos - maus e bons - alivia-me do stress provocado ultimamente pela ausência de notícias sobre os aumentos da gasolina, a preparação da Selecção Nacional ou o caso Esmeralda. E sempre vejo o amigo Alfredo, a quem chamam o papa-sopeiras, compincha criado no meu querido Bairro das Palmeiras. Para além disso é sempre com ele que faço uma visita à Casa-Museu Mário Soares. Foi o que ontem aconteceu.
Em má hora, diga-se, e onde gravei esta conversa:

“-Eh pá, doutor, traga-me daí esse calhamaço que está na segunda prateleira, ai mesmo na sua frente! Esse, sim!
- Mas isto é o Capital, do Marx!
-Pois é. Traga-mo cá.
- Oh! Mário, sinceramente, para que quer você o livro? Descanse, homem! Deixe-se de mais leituras. Mais e más!
- Deixe-se você de conversas, Alzheimer! Chegue-me a merda do livro.
Ah! Aqui está ela! Pegue nesta chave e abra-me essa gavetinha, a primeira, a da secretária.
-Sim?
- Está a ver o que eu quero? É para enviar ao miúdo.
-Qual miúdo, o João?
- Não, o Zé. O Sócrates. Avisei-o já várias vezes para ter cuidado com o que anda a fazer! Governa este país como quem fuma um cigarro num avião em turbulência e isso vai-lhe ficar caro.
- Mas oh Mário, o que é que você quer enviar ao miúdo? Não vejo aqui nada. Não há nada dentro desta gaveta!
- Está, está! Está aí o Socialismo que eu fechei há uns anos e é isso que vou enviar ao miúdo.
- O Mário acha que o senhor Primeiro-Ministro …?
- Não sei!
- Mas sei eu. Vou dar-lhe alta, Mário. Você está irreconhecível.”

Antigamente, pelas 5 da tarde, acabava o passeio, bebia um copinho de três, comia uns passarinhos fritos e zarpava até à pensão da dona Eulália. Hoje isso não é possível. Há muitos mais pássaros, há, mas não há quem os apanhe. Só de vez em quando, se levarmos um gravador, claro!

Kira

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