O último artigo - ARTE CONTEMPORÂNEA (6)Viver na “serenidade do Ser”
Por Rui Monteiro Leite
Na Fenomenologia Contemporânea, o fenómeno não é simplesmente aquilo que se manifesta ao homem, mas o que aparece ou se manifesta tal como é “em si mesmo”. Não é um qualquer dado da experiência sensível, mas um dado ideal, “eidético”; uma essência que se revela numa intuição. O fenómeno é “revelação da essência” (Husserl). Deste modo, o fenómeno prende-se a um conceito fundamental da fenomenologia actual: o “evento”.

Por Jornal Rostos
Toda a realidade é fenoménica. A famosa asserção de Edmund Husserl do “retorno às próprias coisas” não conduz a nenhuma leitura empírica de um qualquer positivismo tatuado das ciências da natureza, pelo contrário, pretende uma “conversão do olhar”. Na perspectiva da Fenomenologia a descrição do vivido deve permitir aceder ao seu sentido. Visa-se, antes de mais, “a essência pura”, através de uma intuição eidética, ou seja, da razão,do intelecto e do espírito. O “fenómeno”, por sua vez, liga-se ao manifestar-se, aparecer, revelar-se. Equivale a “aparência”. Relaciona-se, ainda, a “surgir” e a “luz”. O fenómeno será “o que se revela ou se faz por si mesmo” (Heidegger). Revelar-se só é possível “a uma luz”, de outro modo não poderia “ver-se”. Portanto, fenómeno é “o que se revela por si mesmo na sua luz”.
Assim, na Fenomenologia Contemporânea, o fenómeno não é simplesmente aquilo que se manifesta ao homem, mas o que aparece ou se manifesta tal como é “em si mesmo”. Não é um qualquer dado da experiência sensível, mas um dado ideal, “eidético”; uma essência que se revela numa intuição. O fenómeno é “revelação da essência” Husserl). Deste modo, o fenómeno prende-se a um conceito fundamental da fenomenologia actual: o “evento”. Quando falo de evento estou a traduzir o francês “évènement” que, por sua vez traduz o alemão “ereignis”. O evento pertence à esfera do humano e abre-se ao Ser. Não sendo um simples “ facto”, nem se reduzindo a um “acontecimento”, ele é sempre aquilo que é original, novo, e de cada vez único. Ele rompe a continuidade do tempo e transporta-nos da esfera existencial para a dimensão metafísica das coisas. Revela o eterno presente em que vivemos naquilo que Goethe designou de “o perpetuamente novo”.
Por isso, o evento possui uma importância radical para a Arte e para o processo de criação artística, tal como para a fundamentação de uma Antropologia Filosófica. Basta adiantar que os dois “eventos” humanos fundamentais são o nascimento e a morte, únicos e irrepetíveis; verdadeiramente originantes e fundacionais e que, enquanto tal, se ligam ainda à temporalidade, uma vez que marcam o princípio e o fim dessa mesma temporalidade. Então, percebemos porque é que a Fenomenologia não abandona a noção de “evento” à simples esfera do ético ou do axiológico, mas eleva-o à categoria do ontológico, dando-lhe a primazia na reflexão filosófica e religando-a á experiência do “espanto”. O “espanto” enquanto experiência originária do pensar é algo que se liga a experiências estéticas e místicas. Ele não apenas derrota a razão fria, axiomática e apriori, como retoma a grande tradição filosófica da experiência poética do pensamento e o sentido primeiro da palavra “Filo-Sofia” como “Amor à Sabedoria”.
Ou seja, a passagem da esfera de um pensamento meramente racional para a esfera do puro dom do amor, da pura dádiva e da pura gratuidade que se transforma não apenas no discurso antropológico de uma sabedoria do amor, mas no discurso transcendente e, por isso, teoantropológico do velho amor à sabedoria. A Filosofia assume a tarefa insubstituível de libertar o ser humano para que este possa viver na “serenidade do Ser” (Heidegger), que só na experiência mais profunda da Verdade lhe pode advir. No amor à sabedoria e na sabedoria como amor perpetuada pelo “espanto”, a pergunta pelo sentido do Ser transforma-se numa atitude de disponibilidade para a esperança ontológica, cuja exigência mais profunda é a de nos tornarmos efectivamente disponíveis para a gratuidade do encontro com o Ser, cujo advento no horizonte do pensar se dá sempre sob a forma de uma “fractura”, “enigma” e “mistério”
Rui Monteiro Leite
(www.ruimonteiroleite.com)
Nota da Redacção
No domingo, dia 8 de Junho, pelas 16.22 horas, recebemos no e-mail do “Rostos”, o último texto escrito por Rui Monteiro Leite, enviado para a nossa redacção, mantendo, assim, a sua regular colaboração e dando continuidade à série de textos que vinha editando subordinados ao tema “ARTE CONTEMPORÂNEA”.
Mantivemos, como era habitual uma breve conversa telefónica com Rui Monteiro Leite, no domingo ao fim da tarde, como sempre acontecia, quando nos remetia os seus textos.
O seu texto não foi, entretanto editado, devido a um conjunto de problemas informáticos que estamos a solucionar.
Infelizmente, hoje, chegou-nos a triste notícia do falecimento do Rui Monteiro Leite.
Editamos o seu último texto. Uma reflexão sobre a vida e, afinal, os momentos – eventos – que marcam a nossa existência : nascer e morrer.
Até sempre Rui. Obrigado !
António Sousa Pereira













