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AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVE“Agradeço, mas não esqueço”
Por Paulo Calhau

Foi com alguma curiosidade e expectativa que parti há alguns dias para a leitura de “Alfredo da Silva – Biografia 1871-1942”. Fruto de uma vastíssima e aprofundada pesquisa bibliográfica, o autor desvenda e percorre as suas origens familiares, a infância na Baixa Pombalina, o percurso académico no Liceu Francês e no Instituto Comercial e Industrial de Lisboa, a construção de um grandioso e fecundo império industrial e financeiro, as incursões políticas – intermitentes mas muito comprometidas.

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AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVE “Agradeço, mas não esqueço” Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos

Em ano de centenário da fundação da primeira fábrica da Companhia União Fabril (CUF) no Barreiro e da deslocalização da estátua do seu principal rosto – o industrial Alfredo da Silva (AdS) – do pedestal onde foi assente no ano de 1965, foi com muita curiosidade e alguma expectativa que parti, há alguns dias, para a leitura de “Alfredo da Silva – Biografia 1871-1942” (Bertrand Editora, 2004).
O livro, da autoria de Miguel Figueira de Faria (MFF) – Professor do Departamento de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Autónoma de Lisboa e Director do Centro de Estudos de História Empresarial – é uma obra muito interessante para o conhecimento da vida e obra de AdS.
Fruto de uma vastíssima e aprofundada pesquisa bibliográfica, o autor desvenda e percorre, ao longo de 273 páginas e 883 anotações, as origens familiares de AdS, a sua infância na Baixa Pombalina, o percurso académico no Liceu Francês e no Instituto Comercial e Industrial de Lisboa, a construção de um grandioso e fecundo império industrial e financeiro, as incursões políticas – intermitentes mas muito comprometidas.

O percurso empresarial de AdS foi, inquestionavelmente, uma construção dinâmica de um homem de enorme inteligência, visão e persistência. Com períodos de grande fulgor, mas também com momentos críticos – o maior dos quais terá sido a gravíssima situação da Casa Totta no final da segunda década do século XX. Com muitas vitórias, e algumas derrotas – com destaque para a não concretização da ambicionada aquisição da Companhia Nacional de Navegação e da Companhia Portuguesa Rádio Marconi.
A Carris, a CUF, a Sociedade Geral, o Banco Totta, o Estaleiro da Rocha do Conde de Óbidos (futura Lisnave), a Tabaqueira e a Companhia de Seguros Império são os exemplos mais flagrantes do património adquirido ou erigido por AdS.
O universo empresarial de AdS assentou num modelo de desenvolvimento baseado “nas vantagens comparativas da modernização tecnológica e no recrutamento de recursos humanos baseado na competência técnica [com recrutamento ocasional no estrangeiro], (...) no alargamento da sua actividade a mercados em expansão (...) e no constante melhoramento das suas instalações”.
AdS “ambicionava prender o pessoal da companhia [CUF] aos destinos da mesma, interessando-o na sua prosperidade”. A sua concepção de empresa era no entanto mais lata, dando particular atenção à formação escolar dos trabalhadores, à assistência médica, ao apoio na aquisição de produtos alimentares, etc. Na sequência da “vocação social de Henry Burnay”, AdS implementou o seu modelo de “assistência social”, que foi indiscutivelmente um traço distintivo do grupo CUF – de reconhecidos e inegáveis méritos, mas que o livro de MFF aborda de forma frustrantemente superficial e incompleta.
Mas AdS era duro, autoritário, implacável. Suportava mal a contestação e os movimentos grevistas, alguns dos quais percorreram as fábricas do Barreiro (anos de 1910 e 1911), englobados em processos reivindicativos sectoriais ou mais abrangentes com outros sectores de actividade como os comerciantes. O despedimento dos mais aguerridamente militantes na defesa dos interesses operários era ameaça latente, bastas vezes concretizada. E a melhoria salarial – que inteligentemente foi promovendo em períodos de maior conflitualidade – uma panaceia frequentemente bem aceite pelos trabalhadores. Entre 1919 e 1921, AdS foi alvo de três atentados à sua vida, tendo na sequência do terceiro e último abandonado o país mais uma vez – desta feita de forma mais prolongada (1921-1927), num “exílio” que só findou com a implantação do Estado Novo, na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926.

Monárquico confesso, AdS exerceu por três vezes actividade parlamentar, numa intervenção política coerente, alinhada com opções governamentais conservadoras e quase sempre autoritárias. Foi assim que apoiou João Franco, (militando com ele no Partido Regenerador-Liberal), Sidónio Pais e Salazar.
Desassombrado na crítica aos protagonistas da Primeira República, foi um defensor – de João Franco a Salazar – de uma concepção corporativa do Estado, que veio aliás a estar consagrada na Constituição de 1933.
AdS nunca se considerou um político, julgava-se mesmo pouco dotado para a oratória e dialéctica parlamentares, e nas suas três passagens por S. Bento foi pouco assíduo e modestamente relevante nas suas intervenções. O Parlamento “(...) interessou-o mais como meio para alcançar um objectivo [pela] (...) possibilidade de influenciar quem tinha capacidade para definir o rumo da economia nacional”.
Foi muito criticado pela relação perversa e espúria que estabeleceu entre a actividade política e a defesa dos seus vastos interesses económicos e financeiros, o que lhe valeu palavras pouco abonatórias, graçolas e insultos no Parlamento e na Imprensa – com destaque para os jornais republicanos A VANGUARDA e O SÉCULO e para o satírico SEMPRE FIXE.
As acusações e as suspeitas de germanofilia – em parte determinadas pelo peso accionista do alemão Martin Weinstein – umas vezes confirmadas e outras desmentidas, tornaram-no permanentemente escrutinado e vigiado pelo governo britânico, sobretudo a partir do início da Primeira Guerra Mundial. Na Guerra Civil de Espanha, AdS esteve envolvido no apoio aos revoltosos franquistas – com o conhecimento, a conivência e o apoio de Salazar.

A propósito da relação com Salazar, o livro de MFF é esclarecedor da admiração e da identificação de AdS pelo ditador português – mas não traduzida, ao que me parece, por qualquer amizade ou proximidade pessoal. E, sobretudo, demonstrativo da enorme dependência que contraiu, ainda Salazar era Ministro das Finanças e a Casa Totta ameaçava bancarrota. Foram encontros e cartas dramaticamente suplicantes de AdS a Salazar, em momentos de enorme pessimismo e invulgar desespero.
Confio plenamente na credibilidade científica do valioso estudo de MFF. O que me leva a concluir que AdS não foi, ao contrário do que Nuno Banza escreveu em ROSTOS no dia 14 de Maio último, “o primeiro Reformista Liberal que o Barreiro conheceu”.
“De l´audace, encore de l´audace, toujours de l´audace”. Esta expressão de Danton foi certamente muito querida para AdS e fez todo o sentido no seu trajecto profissional. Mas ele foi também ao longo do seu percurso – importa não o subestimar e muito menos esquecer – um inabalável defensor do proteccionismo estatal, que claramente o protegeu e lhe justificou uma parte do seu sucesso empresarial.
Fiel à intenção de saldar as dívidas do seu grupo económico-financeiro – decorrentes fundamentalmente da gravíssima crise da Casa Totta em 1929 e do demorado processo de afirmação e de sustentabilidade da Tabaqueira – AdS porfiou nesse desejo, que apenas veio a concretizar em 1942, com honras de anúncio na Assembleia-Geral da CUF de 21 de Março. Todos os seus principais “parceiros de caminhada” haviam já perecido – Henri Burnay, João Baptista Dotti, Martin e Benno Weinstein, Alexandre Silva (irmão) e Manoel Carlos Alzina. AdS morreria 4 meses depois, a 22 de Agosto de 1942. Tinha 71 anos.

“Agradeço, mas não esqueço”. Foram palavras proferidas por AdS em dado momento da sua vida, num contexto que MMF não precisou no seu trabalho. Esta expressão poderia perfeitamente ter servido de mote a muitas das intervenções públicas registadas por sectores políticos da esquerda barreirense nos últimos meses, a propósito do centenário da CUF-Barreiro e também da polémica envolta na futura localização da Estátua Alfredo da Silva.
A biografia de AdS ajuda a perceber melhor – concordando ou discordando-se – a argumentação e a fundamentação expressa por essas personalidades e partidos políticos, em textos, colóquios e outras actividades que o autor desta crónica acompanhou de forma parcelar, mas interessada e atenta. Também por isso, “Alfredo da Silva – Biografia 1871-1942” vale uma leitura.

Boa semana para todos. Até Domingo próximo.

Barreiro, 15 de Junho de 2008
Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)

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