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AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVESonho adiado
Por Paulo Calhau

Acabou. O sonho - mais uma vez adiado - de sermos campeões europeus de futebol.
Televisões, rádios e jornais bombardearam-nos com doses industriais de informação, análise, polémica, inquéritos de rua, debates, fait-divers.
Somos muito exigentes com atletas e treinadores. Queremos o máximo esforço, a dedicação plena, a competência absoluta. Não toleramos a parcimónia, a incúria, o erro. Mas nas outras actividades somos mais laxistas, descuidados, por vezes negligentes. Por isso estamos na cauda da Europa.

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AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVE Sonho adiado Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos

Acabou. O sonho - mais uma vez adiado - de sermos campeões europeus.
Estamos genericamente mal colocados nos rankings europeus relativos aos mais diversos itens de avaliação. Mas no futebol damos cartas. Mesmo sem grandes estruturas (campos relvados, academias de formação, …). Temos um jeito particular para o “pontapé na bola”. Batemo-nos com os maiores da Europa. Ganhamos mais do que perdemos. Mas tarda em sermos campeões. O que - acrescente-se - não tem nada de surpreendente. Nem é particularmente grave.

Desde há algumas semanas que o país se concentra - em doses porventura excessivas - num acontecimento que, sendo importante, não (?) deveria ter a ocupação de espaço nas nossas vidas que a evidência dos factos parece traduzir. Televisões, rádios, jornais - os desportivos mas também os generalistas - bombardeiam-nos com doses industriais de informação, análise, polémica, inquéritos de rua, debates, fait-divers acerca do EURO 2008 que decorrerá até domingo que vem na Áustria e na Suíça. Num país em crise. Angustiado. Pessimista. Deprimido. Com medo do presente. E receio do futuro.

Bandeiras em número significativo - mas claramente mais exíguo do que há quatro anos - cachecóis e outros adereços, deram mais uma vez cor a um final de Primavera instável - nos climas atmosférico, político-económico e social.
Precisamos destes momentos de catarse, de exaltação, de identificação com “heróis”. Também por isso vivemos tão intensamente - quase todos - estes “pontos altos” do desporto português. De que o futebol é o principal doador, episodicamente acompanhado pelo atletismo e pelo hóquei em patins e excepcionalmente por alguma outra modalidade.

A pergunta faz-me sentido: percorreríamos estas competições, abraçaríamos estas ilusões de vitória, sofreríamos com estes revés de forma diferente se fossemos um outro Portugal? Como seria num Portugal mais desenvolvido, mais próspero, mais educado e mais culto? Confesso que não sei.
E como é - realmente - nas sociedades europeias mais avançadas? Creio que semelhante.
Somos muito exigentes com atletas e treinadores. Pretendemos o máximo esforço, a dedicação plena, a competência absoluta. Não toleramos a parcimónia, a incúria, o erro.
Mas nas outras actividades somos mais laxistas, descuidados, por vezes negligentes. Por isso estamos na cauda da Europa. Apesar de sermos hoje um país bem diferente - para melhor, é claro! - do Portugal rural, isolado e atrasado de 1974. Crescemos - é certo. Desenvolvemo-nos - quem duvida? Mas a ritmos quase sempre mais vagarosos que os nossos pares e com estratégias discutíveis.

No 10 de Junho - Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades - o Presidente da República voltou a referir-se a um Portugal pouco exigente. Convenhamos que Cavaco Silva não foi exemplar por esses dias, com um lapsus linguae - ou algo mais? - inconveniente e perturbante. Que os seus prosélitos oficiosos se prontificaram a defender - por vezes de forma patética -, e que ele próprio entendeu não explicar, muito menos clarificar.
E esta semana, o facilitismo das provas de aferição do 4º e 6º anos e dos exames nacionais do 9º ano - descaradamente à procura de resultados artificialmente melhores e que deram azo a conclusões apressadas e presumivelmente falsas dos responsáveis governamentais - veio demonstrar, por mais uma vez, que não é esse o caminho certo, nem o rumo desejável. Que oportunismo político! Quanta demagogia!

Boa semana para todos. Até Domingo próximo.

Barreiro, 22 de Junho de 2008
Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)

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