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Barreiro: dos Trilhos de Ontem aos de HojePor Manuela Fonseca

O mundo das Oficinas da CP – do Falcão, do meu tio Manuel Horta Rodrigues, do Martiniano, do João Ferreira, do primo Carlos Fonseca, quase segundo irmão do meu pai, do Zé Francisco Pereira (“Firmino”) e do filho homónimo, do José Zacarias, do António Bolina a quem os colegas, solidários, completavam as tarefas quando a diabetes lhe trouxe a cegueira, do Edgar, das centenas de homens em corajoso protesto, na “Primavera (?) Marcelista”, cada um com um fumo no braço nos casacos de ganga a caminho dos locais de trabalho, volatilizou-se.

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Barreiro: dos Trilhos de Ontem aos de Hoje Por Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos

“Café com pão, café com pão” – o poema “Trem de Ferro” de Manuel Bandeira chega-me à memória, palavras com musicalidade de comboio bem longo, “Café com pão / Café com pão”, puxado por locomotiva a vapor – o meio de transporte que vai atravessar o Brasil até ao porto de Santos, nos anos tinta do século passado, e levar a preciosa carga aos barcos que a aguardam.

Café-que-é-pão, que ajuda a matar um pouco a fome dos carenciados do grande País. Café imortalizado nas e pelas palavras daquele pernambucano, exímio cultivador de património comum, a amada Língua Portuguesa, em texto de função literária exímia. Café, palavra mágica, louvor ao trabalho no Brasil em tecido de sons que passa o Atlântico e chega até nós, mesmo em tempo de brutalidade, inibidora da fala do povo, reconto dos sacrifícios, do labor, da luta quotidiana pelos dias mais felizes que deseja, merece e terá um dia.

“Café com pão, café com pão” e o comboio-correio da minha infância leva-me, em 1954, pela primeira vez, a Albufeira, vila de praia sossegada que o Dr. Luís Maria Estêvão Cabrita, Médico Pediatra (a competência profissional, admirada e referida por colegas de Lisboa, a simplicidade, a vivacidade do discurso, a comunicabilidade algarvia, num consultório, acolhedor, na Rua Vasco da Gama), recomendou para lá fazermos férias. O progenitor lê-me o texto, pára e diz-me para repetir excertos com ele – tenho quatro anos e meio e já me ensinou a ouvir e a entender um pouco os sinais que são letras, a declamar na que sempre designou por “Língua de Camões”, bem como a exprimir-me em rudimentos de Francês, aperfeiçoados pela minha prima e madrinha Maria Lucília Horta.

Pai que, por tradição familiar, ama a profissão de maquinista e que se ofende seriamente com a pergunta, maliciosa, à frente da máquina que trata com desvelo, de um chefe (admirador de Salazar, provocador dos subordinados com questões que possam proporcionar cólera, respostas à letra e castigos em corte de salários) que calculará quanto ele terá sofrido em silêncio, bebés durante largos anos perdidos, na expectativa do nascimento de uma criança que encha de mimos e transporte com orgulho a herança ferroviária e o apelido Fonseca: “E gosta mais da sua locomotiva ou da sua filha?!”

Pai que toca bandolim, que é nadador exímio (mulher feita, o que insisti com o Filipe, o júnior da casa Fonseca da Costa, para, décadas depois, não cometer, em praias, albufeiras ou barragens, as loucuras do saudoso avô, tão ponderado fora do meio aquático!), que, embora sisudo, se diverte com o Carnaval e os bailes do Clube 22 de Novembro (ele e a minha mãe em danças executadas de forma medíocre e bem cómica) e que agora segue connosco para férias, conhecedor do caminho quilómetro a quilómetro, e que vai entoando, parte do Alentejo percorrida devagar:
“Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?”

Os anos correram, os meus pais desapareceram, ele, ainda novo, desgastado, certamente, pelo trabalho, cansativo, e pelas injustiças que sentiu e viu e que lhe roubaram, devagarinho, o coração. O que palpitava com a família, a minha vida escolar, a luta contra a repressão, os jogos do nosso Barreirense.

A propósito do amado clube: foi, com a minha mãe, a também minha madrinha e prima, Maria Helena Horta, a Ana Silva, vulgo Aninhas “Faia” – por quem nutria enorme admiração, sentimento que lhe copiei – e outros excursionistas, de maneira idêntica doentes pelo Clube, a Madrid, na única vez em que as parcas economias permitiram a alguns a saída de Portugal, acompanhar a aventura do grande e eufórico Futebol Clube Barreirense, Campeão Nacional de Basquetebol, na Taça dos Clubes Campeões Europeus, em jogo com a principal agremiação desportiva de Madrid, quiçá das mais notáveis de Espanha e do Mundo, o Real. Do resultado e do esperado desnível do mesmo só falou uma vez…

Pai que sentia de forma apaixonada as interpretações musicais do amigo Carlos Saraiva, alentejano adoptado por esta terra ribeirinha, antigo ferroviário, ilustre Primeiro Clarinete da Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional e oficial do Exército, com a patente de Tenente, na área de especialidade – Maestro da Banda da Guarda Nacional Republicana. Pai que sentia de forma apaixonada as interpretações teatrais do Mário Pereira, filho de um confrade, António Pereira, que nos mandava bilhetes para podermos usufruir das peças de quem tanto amava, no Teatro da Trindade.

O mundo dos Maquinistas a que pertenciam o meu pai, o António Pereira, o Compadre Cordeiro, o Ti Martinho (Martinho Santos, destemido: aos chefes que o ameaçavam, dia sim, dia não, com castigos, pecuniários e políticos, retrucava, com justo mau humor, armado da pá, que retirava de uma das paredes do Depósito de Máquinas, com a qual, anteriormente, se colocara o carvão nas fornalhas das velhas locomotivas), o irmão dele, Miguel Santos, que ascendeu a Inspector de Tracção, o Rafael Loução, o Florival, o João dos Passos, já não existe.

O mundo que foi, igualmente, do Ti Balbino Martins Júnior, do José Martins Caeiro, do Carlos Manuel dos Santos, dos meus avôs, Manuel Horta Rodrigues e Cristiano da Fonseca, que deu o mesmo nome ao filho mais velho, dos Limpadores, do Pagador Luciano, dos Fogueiros Chinita Mendes e Franklin – nunca estudou para se tornar maquinista e, no Entrudo, exibia-se, vestido a rigor, de cartola, e…com um despertador atado ao braço, em voltinhas pelo Mercado Municipal –, do Condutor Manuel Joaquim, do Fiscal de Revisores Sebastião Cabrita, do Chefe de Estação Mendes da Silva, desapareceu. O das belas locomotivas 556 (Cristiano da Fonseca Júnior e o sobrinho, Artur Cristiano Teixeira da Fonseca, na altura muito pequeno, aos nove e treze anos meu padrinho, em fotografia enorme, junto às placas, no início dos anos quarenta, que exponho na minha residência) e 558, ambas tratadas com desvelo, desapareceu.

Rabicha 3, uma pequena e emblemática locomotiva (e designação da minha querida mãe, Maria Horta Rodrigues Fonseca, brincadeira de um dia do compadre Cavalheiro, pela rapidez com que arranjava o cabaz de viagem do marido quando, da reserva, partia para viagens menos esperadas) já não existe também; o Depósito, há décadas bem movimentado, confrange-nos.

O mundo das Oficinas da CP – do Falcão, do meu tio Manuel Horta Rodrigues, do Martiniano, do João Ferreira, do primo Carlos Fonseca, quase segundo irmão do meu pai, do Zé Francisco Pereira (“Firmino”) e do filho homónimo, dos dois parentes Jorge e João Caeiro, este, esperantista conceituado e amante de temas espaciais, do José Zacarias, do António Bolina a quem os colegas, solidários, completavam as tarefas quando a diabetes lhe trouxe a cegueira, do Edgar, das centenas de homens em corajoso protesto, na “Primavera (?) Marcelista”, cada um com um fumo no braço nos casacos de ganga a caminho dos locais de trabalho, volatilizou-se.

Os fados do Domingos Silva foram esquecidos e o humanitarismo dos que, no Posto Médico, exerciam funções, com competência e desvelo – visualizo o Dr. António Pacheco, o Dr. Paulo Benevides, o risonho Dr. João Manuel Prates, sempre com graças para as crianças, o Enfermeiro Simões, o Enfermeiro Samuel –, quase não deixou palavras.

As idas a Lisboa, proporcionadas por passes que tornavam gratuitas as viagens até à capital de ferroviários e familiares, de preferência no barco Évora – pequeno, elegante, o que menos baloiçava em dias de vento rigoroso – para o lanche de um copo de leite e um bolo na pastelaria dos Armazéns do Chiado, a observação das mulheres burguesas, chapéus elegantes na cabeça, em poses preguiçosas que entenderiam natural, a esposa do Presidente Craveiro Lopes, acompanhada por outras senhoras, junto ao Elevador de Santa Justa, o regresso, rápido, ao Barreiro, parecem, por enquanto, não gerar as histórias da História que construímos. Também não terão deixado rasto os que, pertencentes a uma minoria detestada, acolitados pelo regime político vigente, abusavam do poder com que ofendiam, humilhavam, denunciavam e mandavam prender trabalhadores.

Acerca do António Bolina a quem os colegas completavam as tarefas quando a diabetes lhe trouxe a cegueira, do Edgar, das centenas de homens em corajoso protesto, na “Primavera (?) Marcelista”, cada um com um fumo no braço sobre os casacos de ganga a caminho dos locais de trabalho, o esquecimento.

O Museu Ferroviário do Entroncamento perto de todos nós em programa de excelência, como vários, na TSF, Encontros com o Património que nos levou até ele, na “Cidade do Baú”, simbiose de memória e actualidade – que os barreirenses, não podem ou não puderam ainda guardar – liga passado, presente e futuro de e a uma população que continua a ter os comboios com elemento da sua riqueza; no Barreiro, o nosso repositório da ferrovia é feito dos diálogos quase íntimos entre amigos, dos livros e objectos, bem como, especial e publicamente, das fotografias e textos dos colegas José Encarnação, ainda hoje Maquinista, e do nosso ilustre Decano, Matos Serras.

Que venham os novos trilhos, já iniciados em obras em estações caducas, impossíveis que estavam para os dias que correm! Que os mesmos voltem a trazer a confiança nos dias de hoje e do porvir; que a Cidade do Cinema chegue também e se lhes associe para melhores caminhos, na lembrança dos que nos fizeram chegar até aqui.

Que comecemos, nos carris já gastos, por antever as imagens dos que serão em breve colocados para neles encontrar e produzir saberes e pão de que daremos testemunho. Que as inovações que (re)façam a Nossa Cidade tenham como um dos parceiros o Instituto Politécnico de Setúbal, vocacionado para as sinergias e com uma Escola Superior de Tecnologia modelar na cidade!

“Café com pão”: boas condições laborais, criatividade, suor e risos em futuras madrugadas de entusiasmo, num (novo) 25 de Abril com desenvolvimento actualizado, num presente melhor a iniciar-se e a prosseguir nas rodas infindáveis que nos manterão fiéis aos antepassados.

Manuela Fonseca*
* Colunista do jornal Rostos

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