Os meus milhões perdidosPor Jorge Fagundes
Foi o que ontem também sucedeu. Mas, mais ou menos a meio do percurso, encontrei um velho colega da Alfredo da Silva, o qual, seguindo o que é moda neste Barreiro, me perguntou:"então o que achas do aumento da largura da faixa de rodagem da Avenida?".

Por Jornal Rostos
Desde que há alguns anos, algures na Europa, se inventou um jogo de sorte e de azar chamado euromilhões, ao qual Portugal, via Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, acabou por aderir, que, praticamente todas as sextas-feiras, após o preenchimento do boletim respectivo, me dirijo à agência mais próxima, por sinal a pouco mais ou menos duzentos metros da minha residência, a fim de registar a minha aposta.
Sendo hábito generalizado dos portugueses, em matéria de prazos, deixar para o último dia o cumprimento do que quer que seja (por exemplo, vejam-se as monumentais bichas, perdão, filas, junto às Repartições de Finanças no último dia de entrega das declarações do IRS), nesta questão do euromilhões não fujo à regra.
Podendo as candidaturas, perdão, apostas, ser entregues até às dezanove horas de sexta-feira, meia hora antes subo a Avenida Alfredo da Silva e vou entregar a minha esperança a novo milionário.
Foi o que ontem também sucedeu. Mas, mais ou menos a meio do percurso, encontrei um velho colega da Alfredo da Silva, o qual, seguindo o que é moda neste Barreiro, me perguntou:"então o que achas do aumento da largura da faixa de rodagem da Avenida?".
Como este momentoso assunto me afligiu durante algum tempo, respondi-lhe que achava bem. E porquê?
Ainda mal começadas eram as obras, já se ouvia dizer que, para os veículos automóveis, só ficavam seis metros de largura. E, com ar de profundo conhecedor da matéria, logo alguém adiantava que, com apenas esses seis metros , os autocarros não poderiam cruzar-se no seu trajecto.
Ora, como os autocarros circulam quase vinte e quatro horas por dia, logo antevi que, não podendo cruzar-se, chocariam.
E isso, entre a meia noite e as sete da manhã, altura em que, mesmo não sendo atleta olímpico, gosto de estar dormindo na minha caminha, iria causar-me grandes perturbações. Sim, se os autocarros, ocasionalmente batessem debaixo da minha janela do quarto, para além dos vidros partidos e da chapa amolgada, lá estaria eu a acordar em sobressalto.
Numa primeira fase perguntei, a um ou outro motorista dos ditos, se era possível os autocarros se cruzarem numa via com seis metros de largura.
Apesar da resposta afirmativa, o ar convencido dos que diziam que não, levou-me a passar a uma segunda fase.
Em combinação com um meu vizinho, munidos da indispensável fita métrica, às três da madrugada, temerariamente sem capacetes de protecção e em chinelos, fomos medir a largura da via da discórdia.
Porém, antes da medição, disse ao meu vizinho: e se a polícia, a estas horas, nos apanha?
Resposta pronta: nem pense. Será mais fácil acertar na chave do euromilhões do que encontrar um agente na rua.
E, medida efectuada, constatámos que, na verdade, a largura era de seis metros.
Felizmente que, para meu sossego e de muitos, muitos outros, a nossa Câmara, com a pompa e circunstância de uma conferência de imprensa, anunciou que a largura iria passar a seis metros e meio.
Como é fácil de perceber, a conversa com o meu vellho amigo levou um certo tempo, até por ele ser defensor de um maior alargamento da via para sete metros.
Despedidas feitas, vou direitinho para a agência, puxo do impresso da aposta e, surpreza das surprezas, não me aceitaram o papelinho por serem dezanove horas e doze minutos!
Ainda questionei se podia telefonar ao Senhor Provedor, a quem, há anos, fui apresentado nos bastidores de um congresso. Nem pensar. A máquina só aceita as apostas até às dezanove horas. Ponto final!
Imaginem agora a minha ansiedade nas duas horas e picos de espera até aquela simpática apresentadora, em diferido, nos confidenciar a chave milionária.
Nesse "longo" espaço de tempo já me via objecto de gozação geral perante o facto de ter deixado, por doze miseráveis minutos, de poder emparceirar com aqueles senhores que os "media" nos dizem ser os mais ricos deste país.
E as críticas dos familiares, dos amigos e dos desconhecidos exigindo, no mínimo, a minha demissão de modesto colunista do "Rostos"?
Mas, como há horas de sorte, só acertei numa estrela.
Em consequência, dormi tão bem a noite passada!
No entanto, à cautela, vou passar a entregar a minha aposta às quintas-feiras.
Jorge Fagundes













