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DESPORTO À PORTUGUESATempo perdido
Por Paulo Calhau

Com Scolari na liderança técnica da Federação Portuguesa de Futebol houve uma clara e gravosa depreciação do investimento – organizativo e afectivo – no futebol de formação em Portugal. O passado, longínquo e recente, de Carlos Queiroz augura uma inversão dessa tendência e dessa (falta de) visão estratégica. Oxalá o novel timoneiro disponha do élan, da vontade, do tempo e das condições para levar por diante esse desiderato, publicamente anunciado logo após o seu regresso à pátria lusa.

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DESPORTO À PORTUGUESA Tempo perdido Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos

A visita da Selecção Nacional de Futebol (sub-21) na passada sexta-feira ao mítico e renovado Estádio de Wembley, saldou-se por uma comprometedora derrota. Resultado que poderá vir a impedir o apuramento para a fase final do “Europeu” desse escalão. Mais do que perscrutar as causas próximas do 2-0 sofrido, importa entender que este insucesso do futebol jovem português vem confirmar e acentuar as dificuldades verificadas nos últimos anos. Esta realidade, bem diferente daquela a que nos vínhamos habituando em tempos ainda não muito distantes, resulta de factos concretos, dois dos quais me parecem – observador atento mas não especializado – facilmente identificáveis.
Que factos são esses?
Em primeiro lugar, a invasão estrangeira de futebolistas seniores que participam nos campeonatos nacionais. Na liga principal, são este ano e mais uma vez, maioritários. E, mesmo nas ligas ou divisões inferiores, são já em número muito significativo. Resulta então, entre outras consequências, que os jovens portugueses saídos do período etariamente final de formação (juniores) têm uma manifesta dificuldade de evoluir, perdendo-se ou não se aproveitando cabalmente muitos talentos, que acabam por interromper as suas carreiras ou prossegui-las sem o potencial de desenvolvimento que resultaria da integração de equipas e quadros técnicos mais competitivos, exigentes, e competentes.
Em segundo lugar, e ainda mais dramático, os três principais clubes portugueses vêm acentuando uma tendência, que é recente mas demolidora. E que consiste no recrutamento de dezenas (sim, dezenas!) de jovens não portugueses (juvenis e juniores) para integrarem os seus quadros. Num Benfica x Sporting (Campeonato Nacional de Juniores) disputado na época transacta, mais de dez atletas estrangeiros participaram nesse prélio, o que atesta bem a veracidade das minhas palavras e da minha preocupação.
O curioso é que esta irrupção de jovens praticantes, oriundos de África, da América do Sul e da Ásia, se acentuou num momento histórico em que nasceram e proliferaram as Academias de Futebol. E em que o futebol permanece a modalidade de eleição das crianças e jovens portugueses, ainda insuficientemente atraídas para a prática de outras modalidades.
Admito que, a persistir esta tendência, a própria selecção nacional sénior – que ontem iniciou com sucesso o caminho rumo à Africa do Sul – venha a sofrer as consequências de um limitado e desequilibrado campo de recrutamento.
A Roménia – tradicional potência do futebol europeu – parece estar já a pagar o preço de um modelo semelhante. Perdeu ontem por 3-0, em terra própria, contra a modesta Lituânia (treinada por José Couceiro). Sintomático...
Com Scolari na liderança técnica da Federação Portuguesa de Futebol houve uma clara e gravosa depreciação do investimento – organizativo e afectivo – no futebol de formação em Portugal. O passado, longínquo e recente, de Carlos Queiroz augura uma inversão dessa tendência e dessa (falta de) visão estratégica. Oxalá o novel timoneiro disponha do élan, da vontade, do tempo e das condições para levar por diante esse desiderato, publicamente anunciado logo após o seu regresso à pátria lusa.

Barreiro, 7 de Setembro de 2008
Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)

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