Hospital do Barreiro – Unidade de OncologiaPor Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Ontem foi celebrado o Dia Nacional de Prevenção do Cancro da Mama e recordo que o século passado teve, entre os seus ícones, Eva Perón, mito da sociedade argentina a partir dos anos quarenta, esposa de Juan Péron, militar e político que foi Presidente da República do grande País das pampas. Ela foi uma espécie de cruzamento entre santa e mulher de glamur e proporcionou uma estranha esperança de melhores dias ao seu povo, animoso mas quase vencido pelas crises económica e social, dessas que, ciclicamente, as economias, desatentas da vida de cada cidadão, dão como prenda virada do avesso aos mais necessitados que, com as suas mais-valias, têm enchido, ao longo da História, os bornais e os bolsos de muitos.
Faleceu, ainda jovem, por motivo de doença oncológica, um dos terrores que todos tentamos afastar dos nossos horizontes de pessimismo e que, um dia, bate, inexoravelmente, à porta de alguns. O espanto, a incredulidade, a revolta, a descrença nos tratamentos, a incapacidade, o caminho irreversível apontam-nos para Evita, diminutivo do nome próprio da mulher que, em pouco tempo, fez o trânsito da glória para o sofrimento e deste para o fim da vida. Que chega a todos e para o qual poucos estão preparados.
A senhora Perón tem dado azo, ao longo de décadas, a manifestações artísticas nas quais é a protagonista e que tentam imortalizá-la. Nas últimas décadas, a música, o teatro, o cinema glorificaram-na e Madonna, a fantástica e multifacetada intérprete estado-unidense, ofereceu-nos, há alguns anos, pela sensibilidade e inteligência postas no seu desempenho, hábito, aliás, nos trabalhos desta criativa, uma inesquecível e pungente Evita, em filme homónimo.
“Don’t cry for me Argentina”, canção retomada no celulóide, apresenta-nos, no esplendor da cantora e actriz, que encarna, primorosamente, a antiga primeira-dama, o apelo a que não se chore por Evita e, por hiponímia, por cada um de nós a quem a referida doença escolheu para incomodar. Nem o façam durante a nossa vida (depois dela também não) nem nos prometam isto ou aquilo que não possam cumprir, das coisas mais simples às mais sofisticadas. Escusam também, com esta ou com outra situação de doença ou de incapacidade grave, de ter comiseração em relação aos seus portadores – sejam, simplesmente, solidários e far-nos-ão bem.
Os portadores de enfermidades graves (tal como os acidentados e, no contexto social, todos os que têm menos sorte do que a desejada) necessitam, certamente, de muito apoio e conforto. Agradecem-nos e declinam tudo o que possa apoucá-los; gostam de ser tratados como nas Unidades Hospitalares e Hospitais de Oncologia – com humanidade, respeito, carinho. Sabem que ajudar também se aprende e que tal acção, esforçada e meritória, remete quem está do outro lado para um esforço – o de os compreender.
No que, especificamente, me diz respeito, posso referir cuidados exemplares, sob os pontos de vista técnico e humanitário, em todos os estabelecimentos por onde tenho passado e assinalo, especificamente, a Unidade de Oncologia Médica do Hospital de Nossa Senhora do Rosário de Barreiro, onde tenho as consultas e recebo os tratamentos. É um local de acolhimento para quem se confronta com a dureza da doença – bondade, cruzada com sapiência e competência técnica, verdade mesclada de esperança.
Na Sala de Tratamentos (Quimioterapia e outros), no Hospital de Dia, o sábio humor e a generalizada boa disposição das enfermeiras contagiam-nos e fazem-nos dar apoio mútuo – falamos de esperança, damos palpites acerca das melhoras dos companheiros de tratamento, somos atenciosos uns com os outros e esmeramo-nos com os mais jovens e os seniores. Simpáticos, os cavalheiros elogiam imenso as senhoras – um quilo a mais, uma blusa bonita, um cabelo a crescer e os piropos, sempre educados, enchem-nos de auto-estima e ajudam-nos nestes momentos difíceis que são o nosso quotidiano.
Também ouvimos música e canções, oferecidas pelo conjunto constituído por Paula e José, especializados em Música dos Hospitais, temos as senhoras e os senhores Voluntários que nos levam conforto: alguns mantimentos, sorrisos, empatia. Se queremos, podemos ler os textos da Capelania, sensíveis e bonitos.
Reparo também que os profissionais envolvidos nas árduas tarefas que lhes são atribuídas nem têm, muitas vezes, tempo para a alimentação ou comem fora de horas e apressadamente.
Profissionais cujas nobres tarefas são complementadas por outras, idênticas em valia e merecimento, no e para além deste Hospital. Enumero apenas, num texto de carácter pessoal, as áreas que conheço por actuarem ou já terem actuado em relação a mim: Imagiologia, Cirurgia, Anestesiologia, Senologia, Urologia, Cardiologia, Anatomia Patológica, Radioterapia, Patologia Clínica, Análises Clínicas (agora, até às dez horas na Unidade, a prestável Auxiliar de Acção Médica a chamar-nos, as Técnicas, com calma e precisão, a procurarem-nos as veias que às vezes, cansadas, fogem), Fisiatria, Medicina Nuclear, Psiquiatria, Farmacologia – é sempre interessante observar o trabalho de minúcia na Farmácia da Unidade, bem como a nova imagem na do Hospital, fruto de obras recentes que permitem um melhor diálogo com os doentes.
Também apreendo que os Serviços Social, Telefónico, de Taxas Moderadoras, de Segurança Interna interagem, bem, com a Unidade em apreço. E reparo como os Bombeiros, das Corporações do Barreiro e de outras terras, como sempre incansáveis, transportam e acompanham, estoicamente, muitas pessoas.
Da Unidade de Oncologia, aponto os seus heróis:
Director da Unidade
Dr. Jorge Espírito Santo
Médicos Oncologistas
Dr.ª Ana Teresa Xavier (a minha atenta especialista)
Dr. Hélder Mansinho
Dr.ª Idalina Miranda
Dr. José Jerónimo
Médicas Internas de Oncologia
Dr.ª Paulina Chitonho (a minha atenta e futura especialista)
Dr.ª Ana Massena
Médicos Pneumologistas
Dr.ª Elvira Camacho
Dr.ª Helena Garcês
Dr.ª Maria José Simões
Médicas de Anestesiologia na Consulta da Dor
Responsável
Dr.ª Margarida Frias
Colaboradoras
Dr.ª Alexandra Silva
Dr.ª Genoveva Piçarra
Médico Hematologista
Dr. Ricardo Costa
Nutricionista
Dr.ª Carla Pereira
Dietista
Dr.ª Jerónima Correia
Enfermeira Chefe
Maria do Céu Parreira
Enfermeira Especialista
Luísa Guilherme
Enfermeiras
Carla Ferrão
Célia Faia
Cristina Santos
Lucrécia Afonso
Márcia Lisete
Patrícia Antunes
Rosa Figueira
Farmacêuticos
Dr. ª Patrícia Fernandes
Dr. Vasco Rodrigues
Secretárias de Unidade
Carmen Tempero
Margarida Torres
Maria José Lamosa
Miraldina Zambujo
Vanda Barrela
Auxiliares de Acção Médica
Anabela Ferro
Ermelinda Parreira
Madalena Malato
Maria José Nobre
Funcionárias de Limpeza
Cândida Camões
Maria José
Maria Santos.
Acrescento que o Dr. Jorge Espírito Santo, também Presidente do Colégio de Especialidade de Oncologia da Ordem dos Médicos aguarda, incompreensivelmente, há dois anos, que o Ministério da Saúde o confirme no cargo de representante da Autarquia de Barreiro no Conselho de Administração do nosso Hospital, facto que, até à última letra deste texto, se mantém – nem quero acreditar que a Autarquia põe, dento das suas atribuições, e outros dispõem; vá lá saber-se a razão de as mesmas leis terem pela parte do Poder Central leituras A para uns e B para outros?
Trago ainda à colação outros heróis que, em colaboração com a Unidade que refiro, têm feito parte da identificação, tratamento e apoio da minha situação clínica: Dr. Luís de Sousa, Médico Cirurgião e Senologista em cuja perícia confio (longe vão os tempos em que, adolescente comedido, foi dos meus melhores alunos, no então Liceu Nacional do Barreiro, os olhos postos, certamente, nos elevados desígnios que veio a alcançar), as Médicas que completam sua equipa cirúrgica, Dr.ªs Rita Garrido e Lígia Santos, bem como a Dr.ª Belize Riscado, Médica Anestesiologista, a Enfermeira Instrumentista Dora Filipe, a Enfermeira Anestesista Marta Raimundo, a Enfermeira Circulante Margarida Marques, a Enfermeira da Unidade de Cuidados Pós-Anestésicos Catarina Rita.
Saliento, com agrado, que, no Serviço de Cardiologia, há ano e meio, atónita pela recidiva da doença, acabada de saber, as lágrimas sem controlo, embora tentasse evitá-las, uma Secretária, a Médica e as Técnicas tudo fizeram para minorar aquele reinício de dor que, de forma mais grave, ma assolava. Que, meses depois, na Cirurgia Geral, a caminho de nova operação, logo à entrada, a delicadeza de todo o pessoal, a começar pelas Técnicas do Secretariado, conseguiu que suportasse a nova etapa da minha vida.
Após a intervenção cirúrgica, acordar, talvez devagarinho, e deparar-me com os cuidados da Enfermeira-Chefe Maria Helena Joaquim, na Sala do Recobro, foi saber que continuava por cá. Dentro e fora da mesma, refiro-a de novo e lembro colegas seus, alunos estagiários de Enfermagem, Auxiliares de Acção Médica, Funcionários de Limpeza, todos sem um minuto de paragem. Estávamos no Natal e esforçavam-se por minorar a nossa sensibilidade de doentes fechados sobre nós próprios enquanto as ruas se animavam com risos e compras dos mais afortunados.
Dos profissionais com quem tive ou tenho tido contacto mais esporádico, refiro as Enfermeiras Maria João Campante e Carla Cristóvão, na Senologia, bem como os Dr.s João Luís Vaz e Nuno Pires, Médicos Urologistas, a Dr.ª Graça Moreira, Médica Fisiatra, as Dr.ªs Maria Helena Fonseca e Maria Helena Esteves, Médicas Psiquiatras, as Dr.ªs Virgínia Silva, Cristiana Couceiro, Ana Teixeira (que hoje trabalha em outro Órgão de Saúde que também estimo muito), Médicas Imagiologistas. Dos Técnicos e dos elementos do Secretariados da Urologia e da Imagiologia retenho a melhor das impressões.
Acrescento que Dr.ª Fernanda Gomes, minha Médica Ginecologista fora do Serviço Nacional de Saúde por opção pessoal, também clínica no nosso hospital, ouviu-me e amparou-me em início de dia de algum desespero quando nos cruzámos no Serviço do Urgência. A querida amiga Nilze Batista, Médica Pediatra, que adivinha sempre quando me faz falta, boa conhecedora da criança que há em mim, visita-me, amiúde, na Unidade e recordamos o nosso Liceu Nacional de Setúbal – desaparecido, com os outros e as Escolas Técnicas numa de loucura pseudo-educativa de que o País ainda se ressente. Liceu onde eu deveria ter sido uma menina e jovem tão atenta como ela…
Há Médicos, Técnicos, Secretários que intervêm nos Exames Complementares de Diagnóstico cujos nomes desconheço por terem actividades que não estão ao alcance da minha observação, o que lamento, mas cujo labor me ajuda a andar por este Mundo de que tanto gosto, embora agora mais pequenino, a escrever, por exemplo, este tecido de palavras. Do Bar a que tenho acesso, lembro boa gente que nos serve com rapidez.
“Heróis (…), nobre Povo
Nação valente, imortal”.
Heróis, produtores e promotores de saberes que nos ofertam a maravilha da Esperança, através de competência e fraternidade. Que nos ensinam a (querer) viver com a alegria possível. Tão mal reconhecidos, amiúde, por vários dos que representam os poderes instituídos. Para que sirvam de exemplo (no presente e no porvir).
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos













