O DILEMA DA PATERNIDADEPor Pedro Estadão

Por Jornal Rostos
"Some men see things as they are and ask why. I see things that never were and ask: why not?" J.F. Kennedy
"Alguns homens veêm as coisas com são e perguntam porquê. Eu vejo coisas que nunca foram e pergunto: porque não?" J. F. Kennedy
Chegámos ao fim do Ano do Senhor de Dois Mil e Oito e estamos a menos de um ano das próximas eleições autárquicas. Chegou a hora de começarmos a reflectir sobre o estado do nosso governo local e tomarmos uma decisão importante em relação ao futuro: em quem votar em 2009?
Vivemos, ao longo de todo o mandato autárquico corrente um fenómeno curioso, uma gestão camarária CDU viu-se confrontada com a execução de um conjunto de projectos de grande porte cuja autoria foi da gestão PS que a precedeu. Este facto deu origem a um curioso dilema da paternidade. Enquanto alguns comentadores mais facciosos preferem esgrimir a existência das obras em curso do Auditório Municipal Augusto Cabrita quando o Partido Socialista tomou posse na Câmara em 2001, eu dedico-me hoje a considerar porque é que o o executivo actual herdou tanta obra e de tais dimensões e pretende construir a sua propaganda política em cima de realizações como o desenvolvimento da centralidade de Coina na Península de Setúbal, as obras de recuperação da Avenida da Praia, a construção da Etar Barreiro-Moita, o desenvolvimento do Programa Pólis, a implementação do Fórum Barreiro, a modernização do Mercado 1º de Maio ou a forma final da Terceira Travessia do Tejo. Chego a considerar que só faltou assumirem também a paternidade da electrificação da linha ferroviária Barreiro-Pinhal Novo.
O Partido Socialista confronta-se hoje, no Barreiro, com o dilema eleitoral de ter feito filhos em mulher alheia e a CDU gaba-se de projectos que nunca lhe pertenceram e que não sabe enquadrar na visão global das coisas, porque nunca foi do seu carácter ter alguma visão para o Barreiro que não fosse a da exploração da miséria do desapontamento que resultaram da desindustrialização ocorrida no início dos anos 80 do século passado, vai daí, socorre-se de uma actividade de propaganda que pretende, como de costume, retirar para si os louros das realizações que parecem bem à população e enjeitar para o Governo as coisas que parecem menos bem.
Os fins objectivos da força política que propulsiona a CDU continuam a passar unicamente por tentativas estéreis de aumentar a sua popularidade junto da população, mesmo quando já todos percebemos que a única forma de manterem em sua posse a gestão camarária é assegurarem que a abstenção seja suficientemente grande para que não sejam desmontados do cavalo pelo reverso do acidente que os colocou lá em cima. Esta constatação leva-me a considerar que o Partido Socialista, ao contrário do que fez a CDU nas últimas eleições, se deve preparar seriamente para assumir a direcção da autarquia e constituir uma equipa de candidatos com reais condições de poder assumir o projecto de cidade que foi posto em curso há sete anos atrás e cujos primeiros reflexos se estão agora a perceber.
Parece que este dilema da paternidade deu origem a duas distintas análises da situação política, a daqueles que continuam a pensar que os Barreirenses são estúpidos e não perceberam que todos estes projectos são os primeiros reflexos da visão de cidade apresentada pelo PS no mandato anterior, e a daqueles, que, pelo contrário consideram que os Barreirenses já se aperceberam que a falta de uma visão de futuro por parte da CDU vai devolver o Barreiro à estagnação assim que a obra em curso acabar, e se vai mobilizar nas próximas eleições para votar e impedir que a presente equipa camarária volte a ganhar por falta de comparência.
É que o PS, apesar dos erros de palmatória que cometeu na coordenação de algumas áreas da autarquia e de alguns problemas de casting, representou uma nova visão de Cidade de futuro baseada no desenvolvimento social, cultural, infraestrutural e económico que passava pela ocupação humana dos vastos espaços devotados ao esquecimento industrial do passado que colocaria pela primeira vez a nossa terra, simultaneamente, na centralidade urbana da Àrea Metropolitana de Lisboa e da Península de Setúbal. É esta a razão fundamental que me faz acreditar que o PS pode ganhar as eleições autárquicas no Barreiro, já em 2009: É que os erros servem para se aprender e não repetir e a CDU não foi capaz, em trinta e tantos anos, de nos apresentar uma visão da cidade do futuro.
Vejamos, fazendo uma reflexão séria, ponderada e abrangente, analisando à lupa aqueles que são os factores verdadeiramente importantes da gestão autárquica: - haver uma ideia global de futuro para a cidade em que os cidadãos se revejam e a capacidade de agir politicamente de acordo com essa visão. Tudo o resto são factores importantes, mas acessíveis a qualquer partido político do espectro actual, na nossa terra: sejam eles a potencial honestidade ou seriedade dos candidatos, o carisma, a capacidade de gerir grupos ou de liderar a vida da cidade, a capacidade de gestão eficiente dos meios públicos, ou a capacidade de comunicar com os concidadãos.
Apesar de se perceber claramente que o Presidente Carlos Humberto Carvalho parece ser um homem sério, honesto e de uma invulgar capacidade de trabalho, que o torna capaz de gerir sozinho quase todos os pelouros da Câmara, tal não significa, por si, que haja uma visão que vá para além da gestão do que foi deixado em cima da mesa e das necessidades imediatas do funcionamento corrente dos serviços camarários. À primeira vista parece que tudo vai bem na acção da CMB, mas tal só é possibilitado pelo estilo personalista de governo que se instalou, que, analisado profundamente, nos permite perceber que a coerência de acção se baseia não num projecto claro, mas na acção denodada e vigilante do actual Presidente da Câmara. Analisando mais profundamente ainda, não se percebeu nesta gestão camarária a capacidade de transmitir aos Barreirenses uma visão para o Barreiro do Futuro. Embora se perceba que este facto radica na impossibilidade de compatibilizar o modelo social que o PCP defende com as necessidades contemporâneas e os anseios dos cidadãos, deve-se exigir que, quem está na direcção dos nossos destinos explique clara e concretamente qual o modelo de cidade e de sociedade que defende para que se possa fazer uma avaliação que passe para além do julgamento de carácter deste ou daquele candidato.
No ofício de gerir o nosso destino colectivo, apesar de desejável, não chega ser boa pessoa, é necessário ter uma ideia de para onde ir e ter capacidade de adaptar as ferramentas disponíveis para atingir esse objectivo, de outra forma, a capacidade de trabalhar corre o risco de se esgotar na gestão das coisas correntes, levando à degradação da vitalidade e da capacidade de renovação dos tecidos sociais, económicos e culturais da cidade, conduzindo-nos novamente à estagnação. É importante que todas as actividades se conjuguem no sentido de uma acção global, e não sejam unicamente acções pontuais que geram este ou aquele benefício propagandístico.
Será certamente argumentado que não se fez mais porque se estavam a pagar dívidas daqui ou dali. Ora, esta visão é própria de quem tem a ideia de que tudo o que se faz deve ter origem na acção económica do estado ou das autarquias, quando todos nós sabemos que o essencial no desenvolvimento de uma comunidade é a auto-confiança que essa comunidade tem nas suas próprias capacidades e a existência de um ambiente social que proporcione as condições para o crescimento da confiança dos agentes económicos e culturais. Neste ponto, a simplificação de burocracias e a redução do intervencionismo das autoridades, a par de uma acção pró-activa na busca de soluções positivas para os problemas da comunidade, assumem um papel particularmente importante. A actividade política não pode ser diminuída à simples condição de gestão orçamental, o orçamento, mesmo admitindo que não passa de um documento virtual, é apenas um instrumento, não é o fim da política.
Desconfio seriamente que a equipa que actualmente chefia a autarquia não dispõe de qualquer visão de futuro para o Barreiro e que apenas está a fazer a gestão das acções que já se encontravam em andamento, por forma a não passarem vergonhas, deixando a discussão política da vida da cidade resumir-se ao debate da personalidade do Sr. Carlos Humberto de Carvalho, das suas virtudes ou faltas como ser humano que é, do seu maior ou menor incómodo com as opiniões dos outros ou da sua maior ou menor disposição para passar por um simples coitado que só é criticado por quem não compreende o seu esforço e dedicação. Neste particular, diga-se que já vai estalando o verniz da imagem que foi criada em torno deste senhor, o que não parece dar muita saúde a este tipo de estratégia. Eu não duvido do seu esforço e dedicação nem por um momento. Mas parece-me que esforço e dedicação não são os únicos ingredientes necessários à gestão municipal, pois não chega escudar uma equipa claramente incompetente atrás da ilusão que o comando iluminado de um único senhor irá eventualmente resolver todos os nossos problemas e corresponder a todas as expectativas e sonhos que temos para o futuro da nossa cidade. É necessário mostrar que se tem um plano, e é necessário agir em equipa, de forma competente, de acordo com ele. Não é suficiente concorrer de forma esporádica a este ou aquele projecto comunitário, só porque ele está lá. É preciso ver as coisas ao contrário e tendo um projecto, ir à procura dos meios de financiamento ou da conjugação de vontades para que se concretize.
Neste triénio, não vimos explicado aos cidadãos qual é o projecto de cidade que este executivo camarário representa, nem tão pouco qual é a visão de futuro que pretende implementar, que tipo de cidade quer que o Barreiro seja. A única bandeira que foram capazes de apresentar foi o conceito de Cidade da Participação, que tão fogosamente é apresentado como bandeira do actual regime. Este conceito parece, ao observador atento, mais do que uma simples abertura à aceitação das opiniões dos cidadãos, uma válvula de escape para alguns protestos e uma forma engenhosa de ocultar a falta de existência de um verdadeiro projecto de cidade. Havendo um projecto, faz sentido colocar à discussão pública as formas de o levar a cabo, de outra forma, só resta ouvir protestos por este ou aquele buraco ou lâmpada fundida, que qualquer autarquia tem obrigação de gerir automaticamente, ou abrir concursos de ideias que não se faz a mínima ideia de pôr em prática.
À parte da novidade da elevação da Participação a pelouro, que de resto nem faz muito sentido, uma vez que desde há muito tempo é obrigatória, em Portugal, a auscultação pública dos cidadãos em relação aos instrumentos de planeamento do território que lhes dizem respeito, e de as acções deste pelouro executarem pouco mais que uma mímica do que já se praticava no mandato anterior, dando a transparecer o reconhecimento do erro crónico do PCP relativamente à sua abertura a novas ideias e a críticas relativamente à sua acção, nada se percebe no discurso nem na acção da presente gestão camarária que nos dê a entender que os eleitos da CDU tenham alguma visão para o Barreiro do futuro.
Resta questionar quantas das realizações do Barreiro actual são, de facto, obra da actual gestão camarária. Considerando isso, deparamo-nos com o dilema da paternidade. Para uns, são obras avulsas, para outros, são os primeiros reflexos de um projecto que estava no início e que abortou acidentalmente.
A única obra que este regime pode advogar para si é a da Avenida Alfredo da Silva. Dá por um lado a entender que, para este executivo, não há mais freguesias para além da do Barreiro, senão haveriam mais obras espalhadas por ai. Por outro lado faz levantar questões sobre o que é que se perdeu e qual foi o verdadeiro custo para a cidade da realização de uma obra que, para além de questionável em termos de necessidade, não deixa de ser pontual e propagandística, à semelhança de todas as outras medidas tomadas por este executivo.
Quanto a mim, sei que tanta obra e de tanta qualidade, nasceu de um projecto de cidade de futuro que o PS iniciou, é por isso que sei que o resultado das próximas eleições vai ser determinado pela capacidade que PS ou CDU tenham de fazer perceber aos Barreirenses que têm uma visão para o futuro da nossa terra. Vamos ver quem é que consegue explicar o que pretende e fazer os Barreirenses sonhar com um futuro melhor.
A mim, parece-me que vai ser o PS. E a si, o que lhe parece?
Pedro Estadão
Militante do Partido Socialista













