Boas FestasPor Manuela Fonseca
Renasceu nas próprias palavras; teve menos pena de si, acreditou de novo na Ciência e nos Cientistas que cuidavam dela, pensou em todos os menos afortunados, rezou por eles, achou que ainda tinha algo para dar ao Mundo, pelo menos ao seu mundo.

Por Jornal Rostos
Passara o Natal, mais um em que a casa quase substituíra as compras da quadra, mais um em que a doença substituíra a saúde; mais uma quadra festiva que lhe sugeria que todos eram felizes menos ela; estava cansada: da doença, dos tratamentos agressivos que lhe causavam danos colaterais, do Inverno que, normalmente, potencia incómodos acrescidos a quem é mais frágil; paciência, não podia modificar a realidade, embora contribuísse da forma adequada que lhe era exigida pelos profissionais que a tratavam para que tudo se passasse da melhor forma possível.
Tinha agora uma vida sossegada, demasiado sossegada para quem, durante décadas, se sentira uma espécie de Fórmula Um, sempre a correr: de casa para o exigente trabalho, do apoio aos filhos para as saídas no âmbito daquele, das tarefas domésticas para as férias, Albufeira sempre em primeiro lugar, da concentração intelectual para as manifestações estéticas e desportivas de que tanto gostava, da vida familiar para o convívio com os amigos, que tanto prezava, das leituras, sistematizadas, no sossego do escritório, para os actos de cidadania que entendia prioritários.
A tranquilidade (agradecia, mentalmente, a Paulo Bento a palavra na moda) fazia-a recordar os mais queridos que a sua doença tinha levado; em primeiro lugar, o avô Fonseca, patriarca da família, homem a quem a ditadura nunca metera medo e que fora, cobardemente, vencido por uma parte dele próprio – era miúda e as imagens do profundo sofrimento do pai do seu pai, a solidariedade e a impotência da família à espera do pior, o terror infantil de herdar o mal, transformado num sentimento péssimo ao longo da vida, à espera de um qualquer gene maldoso, desse que provocara a hecatombe que a doença fora para muitos parentes.
Tinha referido várias vezes, sempre inquieta, o querido antepassado e a situação clínica de vários dos seus à sua ilustre psicanalista, Dr.ª Maria José Gonçalves que, com a sapiência reconhecida, tão bem a sabia escutar. Dissera-lhe uma vez: “Quando eu era miúda o meu pai ofereceu-me, de Gentil Marques, Lendas da Nossa Terra e, ao ler, ao longo dos anos, a de “D. Beltrão”, percebi que a frase ‘Sei que o futuro espera por mim’ podia ter sido produzida pela minha própria pessoa acerca do mal que um dia chegará.” E, há ano e meio, à Dr.ª Lucília Salgado, a médica especialista de Medicina Nuclear que a observara e animara, no Instituto Português de Oncologia.
As amigas Fernanda Raimundo, Manuela Pinhão, desaparecidas bem jovens, o companheiro de infância Luís Manuel Carvalho – quantos brinquedos lhe destruíra, desajeitada, no sótão da Ti Ana, na Rua Dr. António José de Almeida? Quando batia à porta, o Luís gritava logo, aflito, à sua amorosa mãe: “Mamã, esconda-me os brinquedos que vem aí a Bebé!” (fora sempre assim tratada pelos amados Albuquerque de Carvalho) deixavam-lhe saudades até às lágrimas, bem como Miguel Loureiro, homem de teatro e colega de profissão na Escola Superior de Educação de Setúbal, a D. Ana Bela Torrinha, chefe da Secretaria do mesmo estabelecimento, João Serpa, mestre que tanta paciência tivera com ela até deixar de ser iletrada informática, Rui Monteiro Leite, pintor e filósofo que fora seu aluno.
Que impulso a levara à despedida da grande Ivone Silva que não pudera ver, a sala esgotada, em Feliz Natal, Avozinha? Como o povo que se juntara aos milhares e dera a mais bela salva de palmas a uma das suas ARTISTAS!
Pois o neto, o querido David, viera dar-lhe um beijinho no Natal, ele, aniversariante em Dezembro e Menino Jesus dos Redondeiro e Fonseca da Costa. Nove anos ladinos que a faziam rir. Tempo de alegria com o garoto, tempo de alegria também com o CORUTIB, a que o marido pertencia, que cantara na Radiotelevisão Portuguesa, em programa dedicado à multiculturalidade, Portugal sem Fronteiras, prestigiara a Cidade, a Autarquia, a Maestrina Olga Panchenko, artista notável que trouxera a sua distante Ucrânia para perto de nós. E que também sabia falar de futebol, o que lhe agradava bastante.
Tempo de alegria, ainda, com os colegas de trabalho jornalístico que davam mais cor e diálogo ao Barreiro e à Região; como as narrativas, de chã literariedade, de Florbela Viegas que procurava amiúde.
Renasceu nas próprias palavras; teve menos pena de si, acreditou de novo na Ciência e nos Cientistas que cuidavam dela, pensou em todos os menos afortunados, rezou por eles, achou que ainda tinha algo para dar ao Mundo, pelo menos ao seu mundo.
Agradeceu ao marido – a sua situação também não era fácil para a família e às vezes ela não entendia isso – a oferta de um quadro de Liselotte Watkins, reinterpretação que lhe fizera, artista multifacetado, em actividade quase desconhecida.
E desejou, sem se preocupar com a falta de criatividade, Boas Festas a todos (na lembrança dos queridos e, em especial, de dois amigos a quem referira, recentemente, a irritação por estar doente, Raul Malacão e Jorge Fagundes). As que, em outros países, começavam agora a ser enunciadas.
Manuela Fonseca *
*Colunista do jornal Rostos













