José Man, o Pedagogo, o Artista e o AmigoPor Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Fomos respeitados pela generalidade dos discípulos e das comunidades a que pertenciam. Amávamos a profissão e, tenho a certeza do que digo, contribuímos com o nosso trabalho para que Abril florescesse nos alunos que nos tinham sido confiados: a tarefa do pão (ético, intelectual, estético, da sensibilidade) fermentou neles. Construtores de gente jovem que se formava e que contribuía, por sua vez, para a melhor formação dos mestres, esses tempos moldaram as nossas vidas.
Envolvemo-nos – com fraternidade e na busca da sabedoria – no ensino de rapazes e raparigas que organizavam, sob a nossa supervisão, projectos que os levavam a processos e produtos dinâmicos, as famílias como suporte da busca e construção de tempos outros, das formas de produção às de expressão, toda a gente empenhada na criação de momentos de confiança que faziam História.
Às vezes parece-me que esse Portugal que tentámos construir nunca existiu, tais os atropelos e desmandos de que tem sido alvo até se encontrar, no presente, exaurido, achincalhado e, no sector educativo, as escolas públicas e os seus professores desautorizados por gente que nem percebe da Pátria nem a quer mais radiosa, e, finalmente, mais madura e autónoma.
Regresso à memória de dias que (infelizmente) não se tornaram perenes: na Escola Secundária de Santo André a personalidade do Man sobressaía entre discípulos e colegas: calmo, compenetrado, maduro, educador excelente. Aproximei-me dele por senti-lo parceiro em conceitos e em práticas profissionais. A circunstância de ser professor de Artes Visuais e eu de Língua Portuguesa terá juntado as nossas sensibilidades, no entendimento da Pedagogia (também) como Arte e da Arte como elemento decisivo na evolução dos jovens e do seu percurso para a Cidadania.
O Man já passara por experiência como docente em terra vizinha, a Moita, na Escola Preparatória D. Pedro II: a minha amiga Maria Helena de Sousa, professora de Educação Física, recorda o colega e pintor de renome que levava os alunos à percepção do belo, na execução de trabalhos que os faziam artífices do seu próprio gosto: nas cores, nos formatos, nas dimensões, na Geometria. Num caminho – para a aquisição e desenvolvimento de competências – que os terá conduzido, através do labor, à fruição da vida.
Sigo de perto as realizações da Lena – moramos a uma distância, na paralela, de duas ruas pequenas, e encontramo-nos amiúde: apaixonadas pela profissão, embora eu já esteja na condição de aposentada (será que um docente alguma vez deixa de sê-lo?), a instrução é motivo de diálogos infindáveis entre ambas e, neles, o Man surge como uma das referências que muito prezamos.
Mais afastado de mim, pouco tenho estado com o querido José Man ao longo destas décadas mas isso nunca nos impediu de uma comunicação regular ou da minha presença nas suas Exposições, embora não tenha podido fazê-lo em relação aos recitais “Palavras Vivas”, na Escola Secundária de S. João do Estoril. José Man: artista multifacetado e promotor de Cultura, os alunos em primeiro lugar, o amor ao ensino, um Mestre de elevada valia.
A possibilidade de ter acompanhado o Man em algumas dessas suas Exposições é uma das coisas boas da minha vida: o rigor matemático e a luminosidade clássica dos seus quadros são, entre outras características, um forte apelo ao cultivo do meus sentido estético, numa síntese de emoções que fazem sentir-me irmanada com outros admiradores e amigos que, nesse contexto, o acompanham. E como o Man tem amigos!
Desportista de autêntico espírito olímpico, foi o criador da revista Haltere que, entre 1980-1983, animou os apreciadores de uma modalidade na qual tantos compatriotas se revêem. Ele, com as credenciais que pode ostentar, eu, como pertencente ao grupo de bancada e antiga praticante de Ginástica no Futebol Clube Barreirense, estivemos na despedida de Carlos Pinhão (lembra-se, Zé Augusto?), esse Mestre das Artes Jornalística e Literária e de Valores que deixou um vazio entre quem ama as Palavras e a Honra. Simples, anónimo, José Man, presente na partida daquele apaixonado, ilustre, pela Liberdade, pelas Letras, por Portugal e por Lisboa.
Como pessoa de que todos nos podemos orgulhar, desejo e espero que o Man continue a encantar-nos com os seus talentos. Nosso Amigo (para mim sempre com palavras de apreço e esperança), nosso Pedagogo e nosso Criativo.
Manuela Fonseca *
* Colunista do jornal Rostos
Foto legenda : José Man e Manuela Fonseca na abertura da Exposição Man, um Percurso: 1959 / 2004, no Centro Cultural de Cascais, em Março de 2004













