Dia da MulherPor Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Lembro-me dos (distantes) tempos de infância quando adultos e crianças iam à capital, os barcos – ditos vapores pelos mais antigos – como lugares de convívio social. Lembro-me do cuidado com as palavras para que não levassem a comentários políticos contra o salazarismo, opressivo e detestado (como poderão os jovens de agora perceber, felizmente para eles e para todos, os excursos postos na comunicação em tempo de ditadura?) que, um dia, com mais ou menos sacrifícios, haveria de ser vencido.
Os mesmos tempos em que o meu pai, maquinista competente e cheio de orgulho na profissão de tradição familiar, me levava, nos semanais (os dias de descanso) ao Seixal, o comboio que passava sobre a ponte – um dia destruída num incidente fluvial – a unir as duas vilas industriais, ciosas de Liberdade e mais respeito pelos trabalhadores que davam riqueza a outros, parcos os salários levados para casa.
Espero contar essas curtas viagens nas mensagens informáticas que troco com André Afonso, colega de actividades jornalísticas, jovem figura daquela terra vizinha – de labor, acolhimento e excelentes iniciativas – que emerge, com segurança e muito saber, na área da Cultura. É especialista em Património Artístico, elemento directivo da novel e criativa Associação Elucid’Arte, que foi aluno da turma – briosa, competente, cortês e simpática – que, por uma vicissitude que mudou a minha vida, foi a última em que dei uma aula, incompleta depois de preparada com o esmero exigido pelo dever.
Sonhava, a aposentação então a aproximar-se, com outro tipo de despedida da vida de professora e essa impossibilidade de concretização entristece-me mas ficam-me as boas recordações de um momento difícil nos cuidados dos meus educados discípulos face às deficientes condições físicas em que, subitamente, fiquei.
Lisboa, de regresso aos tempos de menina: para passeios, idas ao médico, visitas a museus, ao Jardim Zoológico, viagens com os pais e a tia Bárbara Horta ao Centro e Norte do País, no aproveitamento de regalias fornecidas pela Companhia dos Caminhos de Ferro aos funcionários, cônjuges e filhos, talvez em substituição de salários e pensões de sobrevivência, escassos e muito sofridos.
Vejo as duas pontes que ligam uma cidade de beleza única ao Sul e antevejo, sem dificuldade, devido aos recursos técnicos que permitem este exercício mental, a que, em dia não muito distante, chegará ao meu amado Barreiro, numa nova travessia que se espera dinamizadora da economia concelhia e da zona limítrofe.
Vejo outra ponte: a que Lisboa estabelece connosco, sob o ponto de vista de cuidados de saúde, e alegra-me que já tenhamos aqui, apesar de dificuldades várias, grande parte dos tratamentos e reabilitação de doenças graves, o que deixa os pacientes menos isolados.
No que me diz respeito, a nossa Associação de Mulheres com Patologia Mamária (AMPM) (hoje já com alguma visibilidade, considerando ser uma entidade recente) permite-me desabafar e manter a esperança ao olhar para outras sócias, mais militantes do eu, que dão a cara por esta agremiação – doentes, antigas doentes, profissionais de saúde e outras pessoas que, solidárias, nos acompanham, no entendimento de que “a união faz a força”. O Dia da Mulher é mais uma mostra de vitalidade da Associação, bem como de projectos de prevenção do referido mal e da possibilidade de mais confiança para as que são portadoras dele.
Começa a arrefecer; regresso a casa, saúdo a Democracia que nos permite a comemoração de dia tão especial, deponho, no meu coração, uma flor por todas as que se sacrificaram e sacrificam em nome da comunidade feminina.
Leio mais um lindo poema (apropriado para leitura do meu marido, o dizidor Manuel Alpalhão) que o Sousa Pereira dedica às Mulheres e ao 8 de Março, ele que tão bem nos entende, e telefono-lhe a dizer que o publique. Exorto outros amigos à mesma tarefa porque cada dia é um dia de todas e de todos nós.
Manuela Fonseca *
(* Colunista do jornal Rostos)













