Palavras, só palavras!Por Jorge Fagundes
Mas agora as que estão na berra são as palavras "crise" e "pressão".
Vinte e quatro horas em vinte e quatro horas que um dia comporta, tais palavras são ditas, escritas e ouvidas centenas ou milhares de vezes.
Haja o que houver, a "crise" dá cobertura a tudo!

Por Jornal Rostos
É costume dizer-se que a língua portuguesa é muito rica, com ou sem o novo, e ainda futuro acordo ortográfico.
E, de quando em vez, há palavras que assentam arraiais no nosso dia a dia, tornando-se moda e que quase todos pronunciam e escrevem, mesmo a despropósito.
Aqui há uns bons anos, um ilustre Professor de Direito, que, por mal dos nossos pecados, se tornou Presidente do Conselho, inventou umas televisivas "conversas em famila" nas quais utilizava, com frequência, a frase "na medida em que".
Tornou-se fina e corriqueira, e por tudo e por nada, servia de introdução oral ou escrita.
Mais tarde, logo após o 25 de Abril, introduziu-se a moda do "pá". Que fez carreira, até presidencial!
Como também se tornou corrente o "cerca de". Por exemplo: numa operação policial foram detidas cerca de dez pessoas".
Quantas o foram, na verdade? Nove, por defeito, ou onze, por excesso?
Na mesma altura apareceu o uso e abuso do "evidentemente".
Em tempos mais recentes, e pagando direitos de autor aos senhores políticos, é comum ouvir-se nas suas entrevistas e mesmo em conversas de esquina e de café um "no meu ponto de vista".
Mas agora as que estão na berra são as palavras "crise" e "pressão".
Vinte e quatro horas em vinte e quatro horas que um dia comporta, tais palavras são ditas, escritas e ouvidas centenas ou milhares de vezes.
Haja o que houver, a "crise" dá cobertura a tudo!
Para não ficar em desvantagem a "pressão" é um ver se te avias. E mexe com a vida de toda a gente.
Apenas alguns exemplos do nosso quotidiano.
Um velho colega da Alfredo da Silva, ao encontrar-me esta manhã disparou-me logo: "estou indignado. Vê lá tu que recebi uma carta do Hospital para me apresentar a fim de ser operado às cataratas".
Retorqui-lhe: "então não estavas há cinco anos à espera? Jã não era sem tempo".
Com cataratas e tudo, fulminou-me:"pois estou. Mas não achas que é uma pressão intolerável ameaçarem-me com a perda da operação se não comparecer na data que, sem me consultarem, marcaram?"
A semana passada, como o faço regularmente há mais de vinte anos, fui almoçar com uma colega de curso, por sinal juìza.
Mal nos sentámos à mesa, disse:"Jorge, se calhar é melhor, durante uns tempos, interrompermos estes nossos almoços".
Porquê, indaguei. "Olha, por causa do processo daquele sujeito cuja bisavó era terceira prima da tua avó. Se a imprensa sabe disso, logo vai sair , em letras das grandes, que tu, como Advogado, me estás a pressionar".
Ontem, a meio da tarde, fui mais uns amigos a um café local a fim de beber umas imperiais acompanhadas daquele marisco, haja ou não crise, chamado tremoço.
Sai a que seria a primeira rodada, mas as imperiais vinham mortinhas de todo.
"Menina Sílvia (é o nome da empregada) já viu como estão as imperiais?"
"São ordens do patrão". E lá explicou que uma denominada "comissão dos defensores da cerveja" reclamara da pressão a que a mesma era sujeita antes de virar imperiais. E mais, até ameaçara pedir uma audiência urgente ao Presidente da Junta de Freguesia!
Adenda (para não ferir susceptibilidades): desminto, categoricamente, que o Director do Rostos me tenha pressionado, no almoço de ontem, para escrever este artigo.
Jorge Fagundes













