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Colunistas

Pedro de Santarém, um Homem de dois ContinentesPor Manuela Fonseca

Conheci Pedro de Santarém há alguns anos, num contacto que me foi necessário junto de um serviço camarário. Confesso, numa impressão feminina, que fiquei admirada por encontrar aquele homem com roupa num estilo diferente da que estava habituada a ver em engenheiros, certamente por preconceito meu. E, talvez por isso, Santarém fez-me recordar as personagens do corajoso romance de Romeu Correia intitulado Trapo Azul.

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Pedro de Santarém, um Homem de dois Continentes Por Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos

Trapo Azul é um livro que me acompanha há duas décadas e em cuja contracapa há um texto notável de João Gaspar Simões do qual respigo este excerto: “As figuras que anima (…) – costureiras e caixeiras, vadios e operários, bêbedos e rufiões, boa e má gente, pobres honestos e desonestos, ricos de bom e mau coração (…) – trazem a marca de um convívio verdadeiro, criaturas humanas que a máscara literária não tornou convencionais nem a ortodoxia social modelou consoante o interesse ingénuo posto no triunfo de uma concepção de vida mais doutrinal que humana (…)”. (1)

(Que os meus leitores seniores tirem esta obra – concluída em 1948 – da estante e voltem a embrenhar-se nela e os mais jovens a façam sua, agora que milhões de trabalhadores em todo o Mundo lutam por uma vida digna que lhes é sonegada por uma globalização desligada, como diz uma pessoa que muito prezo, de Cultura e, acrescento, também de Humanismo, valores desconhecidos dos malfeitores engravatados que a criaram para benefício pessoal de que ainda hão-de arrepender-se.)

Habituada a associações mentais entre passado e presente, criação literária e realidade, encarei aquele desconhecido e considerei que poderia ter sido herdeiro de pessoas como as personagens enunciadas e apreendi que aquele homem honesto resolveria algo que me incomodava.

Pedro de Santarém conduziu a viatura de trabalho na qual me transportou para eu poder verificar, no próprio local, que já não existiam razões para estar melindrada com uma situação que tinha envolvido a última morada de entes muito queridos.

Eficaz, Santarém e a sua equipa laboral já haviam tratado do delicado assunto e as preocupações que me conduziram ao seu encontro deixaram de ter razão de ser. Fiquei, intimamente, grata por ele ter tratado de tudo com manifesta compreensão a que a proficiência demonstrada não era obrigada.

Retive a face delicada, os cabelos crespos (como os da minha mãe, da prima Antónia, na Mina de S. Domingos – de infância e adolescência perto da família materna, durante largos períodos de férias – da prima Catarina, do filho João Francisco. A Maria José Horta, parente comum, ele e eu ouvimos dos mais velhos, em momentos distantes da nossa existência, que, tal como em muitos outros alentejanos ou descendentes, seriam herança de africanos trazidos como escravos para Portugal e chegados à terra das planícies), os olhos, bonitos, sempre sorridentes, de perene rapaz.

Correram os anos e tenho voltado a encontrá-lo ao acaso, nas nossas ruas ou em alguma situação pública em que temos manifestado interesses comuns. Já soubera, entretanto, da sua história, idêntica à de outros filhos da paz, da guerra e da nova Paz, desejada definitiva por todos.

Na madrugada de 19 de Março, ouvi o anúncio de uma Reportagem TSF cujo protagonista seria um compatriota nosso que, garoto, sozinho, perdido da família (ou perdida esta em horas brutais, pensei), fora acolhido e recolhido, numa mata de Angola, por militares portugueses, há quatro décadas e meia. Enquanto me concentrava no anúncio do trabalho jornalístico, em breve a difundir, lembrei-me da história de vida de Pedro de Santarém, idêntica à que estava a ser mencionada. Afinal tratava-se do próprio.

Ouvi a Grande Reportagem em deliberada solidão: Pedro de Santarém, um sobrevivente de tempos que nós, Portugueses e Angolanos, só queremos memorizar para que a História nos traga outros, mais felizes. Em recordações e efabulações de infância, na imagem que dele têm os antigos militares que o encontraram, que o levaram para o aquartelamento e lhe deram, segundo narraram, o nome. E também tratamentos, alimentos e roupas e cama por eles inventadas e confeccionadas.

Foi (como outros meninos perdidos entre armas estúpidas, nas matas, nas aldeias e nas cidades de todos os Continentes desta Terra onde ainda não se aprendeu a conviver) símbolo daqueles a quem a dureza não roubou toda a solidariedade para com o semelhante. Nem o humor, quando, chegados a Lisboa, no fim da comissão colonialista e bélica a que tinham sido forçados, arrancados às famílias, aos campos, às fábricas, às escolas, a projectos e sentimentos adiados, o “promoveram” a furriel com a entrega de divisas que deixaram para trás as de primeiro-cabo, dadas em Angola, prémio por uma conquista do miúdo.

Continuei, emocionada, a ouvir a peça acerca destes heróis, os mais velhos e o outrora garoto que descobriram e amaram. Aqueles, homens de atitudes positivas que projectaram em Pedro Santarém. Em Portugal, foi entregue a uma pessoa de bem, ligada a um deles, que passou alguns anos a educá-lo. O rapaz foi depois para uma Instituição das mais prestigiadas deste Estado (que, infelizmente, com a responsabilidade de todos nós, nem sempre zela as crianças que se encontram sob a sua custódia) e fez-se o adulto que, um dia lhes apareceu, em almoço evocativo dos duros tempos de Angola.

Aquele a quem os soldados inicialmente chamaram “preto”, rebaptizado Pedro; Pedro Luqueia de Santarém; Luqueia, como nos explicaram, por ter sido encontrado numa das margem do rio homónimo e Santarém devido à Companhia de Cavalaria a que pertenciam ser oriunda da bela capital Ribatejana. Companhia que, pouco mais de uma década depois, teve papel de relevo na queda da ditadura – que nos apoucara e aos nossos irmãos africanos – pela consciência política, democrática, voz de comando e ponderação do sempre lembrado e saudado Salgueiro Maia, um dos Oficiais (da saga) de Abril.

Pedro Luqueia de Santarém, um cidadão exemplar há muito radicado numa cidade de acolhimento e confluência civilizacional, a nossa. É hoje um cavalheiro com alguns cabelos já grisalhos - vejo-o, na Internet, numa das fotografias que o retratam (2) - e com os olhos transparentes de generosidade. Um dos elos entre dois Países que estreitam cada vez mais os laços de cooperação. Tenho saudades de voltar a vê-lo numa das nossas ruas, se calhar em alguma manifestação de cidadania que exorte a melhor qualidade de vida de um Barreiro diferente que o asseio (aplaudo a campanha da Câmara Municipal de Lisboa por uma higiene mais visível e penso que podemos fazer cá uma idêntica) torne bem mais agradável.

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

(1) - Romeu Correia, Trapo Azul, Lisboa, Editorial Notícias, Obras de Romeu Correia, 4.ª edição, 1989

(2) - http://tsf.sapo.pt/paginainicial/Audioevideo.aspx?content_id=1178475

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