Quinze anos depoisPor Jorge Fagundes
Aqui e além se assiste a veladas e mesmo concretas manobras de embraquecimento do anterior regime e dos seus mais odiados servidores..."

Por Jornal Rostos
Nota prévia: por me parecer ainda, no essencial, actualizada, transcrevo a minha intervenção, em 22 de Abril de 1994, naquela que foi a celebração do 20º. aniversário do 25 de Abril realizada pela Assembleia Municipal do Barreiro, na SDUB "Os Franceses".
"Numa iniciativa inédita, deliberou a Assembleia Municipal do Barreiro efectuar esta Sessão Solene comemorativa do 20º. aniversário do 25 de Abril.
E aqui estamos, eleitos que fomos pelo povo barreirense em representação de várias forças políticas, irmanados todos nesse sublime ideal que se chama liberdade.
Liberdade que foi, é e será - assim o queiramos e por tal lutemos- a maior conquista de quantas se reclamam do 25 de Abril.
Liberdade que abriu as portas a essa realidade que é o poder local e que deu a todos nós, componentes que somos da população deste Barreiro, a ventura de elegermos, consciente e livremente, os nossos representantes nos diversos órgão autárquicos, afastando, em definitivo, a imposição, por parte de um poder central anti-democrático, de representantes seus que pretensamente governavam este povo que, no íntimo, temiam, detestavam e reprimiam ostensivamente.
Liberdade que nos permite ter divergências ideológicas sem receio de por isso sermos perseguidos, marginalizados, hostilizados ou, mesmo, como, aliás, o foram alguns dos presentes nesta sala, nomeadamente membros desta Assembleia Municipal, encarcerados nas masmorras do Estado fascista.
Liberdade que por ser um bem que por vezes só se aprecia, dolorosamente, quando nos falta, nem sempre será valorizada devidamente por todos quantos dela beneficiam.
E, aqui e além, passados que são vinte anos sobre o 25 de Abril, se notam certos défices democráticos, quer nalguma juventude, que por nunca ter vivido sem liberdade e a quem, porventura, os mais velhos e particularmente as escolas não ensinam capazmente o que ela significa, quer por parte de quem, em nome da liberdade, nos quer privar dessa mesma liberdade.
E por ter referido a juventude, abro um parêntese para mencionar, gostosamente, que da nossa Assembleia Municipal fazem parte três jovens da geração do 25 de Abril (uma nascida poucos meses depois, um ensaiando os primeiros passos e outro no princípio da escolaridade).
Aqui e além porque as tentações centralizadoras ainda são muito fortes, se perfilam tentativas várias - e não só- e nós barreirenses bem o sabemos e sentimos, de estrangulamento de um poder local que se mostra incómodo.
Aqui e além se assiste a veladas e mesmo concretas manobras de embraquecimento do anterior regime e dos seus mais odiados servidores - tenha-se em conta, por exemplo, a concessão de pensões especiais a agentes da Pide/DGS e a sua negação a essa figura do 25 de Abril que foi Salgueiro Maia, hoje, por nós, homenageado, bem como o inexplicávei tratamento reverencial e destaque dados a alguns desses indivíduos por parte de órgãos da comunicação social.
Senhor Presidente, Senhores Membros da Assembleia Municipal, Minhas senhoras e meus senhores:
O 25 de Abril não pode confinar-se a um conjunto de meras comemorações de um evento que, sendo curta a memória humana, se irá esbater no tempo.
O 25 de Abril terá de acontecer todos os dias, terá de ser a força aglutinadora de um povo que ama e preza a liberdade.
Este grande desafio é colocados a todos nós, independentemente do escalão etário e das opções políticas de raíz democrática, e a ele todos temos de responder pela afirmativa.
Parafraseando um poeta e declamador barreirense, Lenine Sobreiro de seu nome, como ele afirmamos: as portas que Abril abriu ninguém as pode fechar."
Jorge Fagundes













