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O 25 de Abril nas Escolas do Concelho de BarreiroPor Manuela Fonseca

Por qualquer ruído na comunicação como, numa abordagem de carácter sistémico poderei afirmar, entre as duas entidades que agendaram a Acção, a camarária e uma Escola Secundária, a aula que organizámos para ontem não chegou a realizar-se porque os alunos terão tido uma outra actividade no mesmo momento.

13 min de leitura
O 25 de Abril nas Escolas do Concelho de Barreiro Por Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos

Introdução

Convidada, como desde o início, pelos mentores do interessante projecto com que, em boa hora, a nossa Câmara Municipal pretende dar de Abril uma memória, presente e futura, às crianças e jovens das escolas do Concelho, aderi, mais uma vez, ao mesmo com as ferramentas de trabalho que não deixo enferrujar, passe a expressão metafórica, e, da minha Arte e Ciência de ensinar a aprender, fruto de muitos anos de aprender a ensinar, darei testemunho se e quando necessário e possível.

Nesse contexto, resolvi preparar uma Unidade Didáctica, a Liberdade com pano de fundo na união de três tempos na nossa História contemporânea: o que antecedeu Abril, o que se lhe seguiu, os dias de hoje, com autores estudados e seleccionados para isso.

Por qualquer ruído na comunicação como, numa abordagem de carácter sistémico poderei afirmar, entre as duas entidades que agendaram a Acção, a camarária e uma Escola Secundária, a aula que organizámos para ontem não chegou a realizar-se porque os alunos terão tido uma outra actividade no mesmo momento.

Desenvolvimento

1. Assim porque Abril é de todos, publico aqui os materiais que preparei, e ofereço-os ao Dr. Artílio Batista, à Universidade da 3.ª Idade de Barreiro, instituição, menina dos seus olhos, a que tanto tem dado das suas vastas competências e generosidade, aos discípulos da mesma, na continuidade, por esta via, de participação na UTIB (que não tem podido ser eficaz, pelas razões que muitos conhecem, instada tantas vezes a fazê-la por este grande Mestre e Amigo, um dos que me ensinou Abril ainda em Janeiro, pais, irmãos, esposas e outros amigos “por companheiros”).

2. Apresentação da proposta de aula:

PLANO DA AULA

Designação - Liberdade vs. Repressão
Turma do 12º ano

Estratégias - Duração

◙ Projecto
10 minutos

◙ Organização dos alunos em pequenos grupos.

◙ Distribuição de materiais
5 minutos

- Dos alunos

Recursos Materiais
- Dicionários monolingues de Língua Portuguesa
- Revista Visão (842, de 23-29 de Abril de 2009)
- Poemas de 2 autores com Abril desejado
- Poemas de 2 autores com Abril vivido

◙ Levantamento semântico da palavra
censura

◙ Curta discussão
5 minutos

◙ Leitura e comentário e levantamento da temática do texto entregue a cada grupo
10 minutos

◙ Trabalho em grande grupo com apresentação oral da temática de cada poema
15 minutos

◙ Eventuais comentários pela professora
5 minutos

SEBASTIÃO DA GAMA
In Diário, 11.ª ed., Lisboa, Ática, Obras Completas de Sebastião da Gama, Col. Prosa, 1999, pp.81-83

“ESTÁGIO DE PORTUGUÊS NA ESCOLA VEIGA BEIRÃO 1948-1449 [p.23]
(…)
Março, 21

No último dia, por escassez de tempo, só as respostas que eu considerava melhores foram lidas. Ora isso podia deixar menos confiados os sobre que eu fizera silêncio – e um dos resultados a exigir de mim, nesta altura, era que todos saíssem contentes e com ânimo, uns com mais, outros com menos, mas nenhum como eu os tenho visto por vezes. Quando o metodólogo, aqui há tempos, me disse que devia encobrir as notas por causa das negativas, ensinou-me uma grande coisa. E tão bem ensinada, que eu hoje fiz o possível (e creio tê-lo conseguido) por que nenhum daqueles cinco a quem a sorte não sorriu ficasse convencido de que a sua nota era abaixo de dez. Não os burlei – porque outras provas que eles deram já, ou hão-de dar, me vão dar a possibilidade de os classificar com dez valores ou mais. E aquela negativa de ontem ficará para sempre meio ignorada.

Quando, para meu governo e para conhecimento do metodólogo, copiei parte dos exercícios, por alíneas, aqui para o Diário, tive a preocupação de pelo menos uma vez aparecer o nome de cada um. Assim, pude a todos contentar, porque a aula de hoje foi a leitura desses trechos. O facto de eu os ter transcrito num caderno de memórias deve ter-lhes agradado; e depois, todos sentiram que não tinham errado completamente, porque mesmo dos de nota negativa consegui citar alguns mais do que uma vez. Ao fim da leitura de cada alínea sublinhava o facto de entre tantas respostas não haver uma só que pelo conteúdo ou pelo modo como se exprimia não fosse diferente das outras. E os moços escutavam-me, porque se escutavam.

Depois distribuí os exercícios, levando cada um a emendar o que fizera. Assim é o próprio aluno que se corrige; dá-se-lhe até a probabilidade de interpretar o seu erro como uma distracção. Ao Hélder entreguei o ponto, a seu pedido, sem comentário. O Hélder escreve muito mal e eu disse-lho na rua, não para o censurar, mas para o obrigar a fazer o que sempre lhe tenho pedido: que trabalhe, que trabalhe, que trabalhe, a ver se chega escrever correctamente. Ora o pudor do Hélder em ser esclarecido perante os companheiros ensina como devo e quando não devo corrigir.

Tudo queria saber as notas e apetecia-me dizê-las. Mas os fraquinhos? Dizia então: “Fulano, bom. Sicrano, um bocadinho melhor. Beltrano, justamente igual a Sicrano.” Fez-se assim uma animação que por momentos (só por momentos!) adormeceu a ansiedade de saber as notas. Com o Salgado é que não soube resistir. Tinha catorze e meio e é o pior aluno de Francês, além de ser impressionantemente pobrezinho. Quis dar-lhe aquela compensação.

A meio da entrega, a propósito não sei de quê, falámos de “falar caro”: - Onde é que estão certas expressões ou certas palavras, onde é que não; pessoas que falam caro (ou “à polícia”, como se diz na minha terra) para se darem ares – e se dão mesmo, Deus do Céu!; o palavreado do Senhor António do Convento da Arrábida, que merece um monumento e que, por preocupação de falar bem, chega ao outro extremo. Um dia, apresentando a uns visitantes a imagem do Fundador – Frei Agostinho de Santa Maria – exprimiu-se assim: “Este tipo que aqui está…” Julgava que tipo era uma palavra excelente. Não é, pois não? Não a devemos dizer diante de senhoras, pois não? (E para outro dia ficou dizer que mesmo entre rapazes há que velar pelo vocabulário…)”

“Sebastião da Gama
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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Sebastião Artur Cardoso da Gama (Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, 10 de Abril de 1924 - Lisboa, 7 de Fevereiro de 1952), foi um poeta e professor português, licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1947. Foi professor em Lisboa, (Escola Veiga Beirão, hoje, Fernão Lopes), Setúbal e Estremoz (Escola Industrial e Comercial).
Colaborou nas revistas Árvore e Távola Redonda.
A sua obra encontra-se ligada à Serra da Arrábida, onde vivia e que tomou por motivo poético de primeiro plano (desde logo no seu livro de estreia, Serra-Mãe, de 1945), e à sua tragédia pessoal motivada pela tuberculose.
Fundador da Liga para a Protecção da Natureza em 1948.
O seu Diário, editado postumamente em 1958, é um interessantíssimo testemunho da sua experiência como docente e uma valiosa reflexão sobre o ensino.
As Juntas de Freguesia de São Lourenço e de São Simão, instituíram, com o seu nome, um Prémio Nacional de Poesia. No dia 1 de Junho de 1999, foi inaugurado em Vila Nogueira de Azeitão, o Museu Sebastião da Gama, destinado a preservar a memória e a obra do Poeta da Arrábida, como era também conhecido.”

W http://pt.wikipedia.org./wiki/Sebasti%C3%A3o_da_Gama

NATÁLIA CORREIA
In As Maçãs de Orestes, Lisboa, Publicações D. Quixote, Col. Cadernos de Poesia (13), 1970, pp.16-18

“QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
sonos vazios, despovoados
de personagens de assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.”

NATÁLIA CORREIA (1923-1993)
Escritora, dramaturga e poetisa, Natália de Oliveira Correia defendeu que a intervenção política era uma «obrigação dos poetas». Foi jornalista do Rádio Clube Português e, no final da Segunda Guerra Mundial, apoiou o Movimento de Unidade Democrática (MUD). Depois da revolução de 25 de Abril de 1974 esteve primeiro ligada ao Partido Socialista (PS), depois ao Partido Popular Democrático (PPD) e, por fim, ao Partido Renovador Democrático (PRD). Foi eleita deputada à Assembleia da República, pelas listas do PPD, de 1979 a 1980 e de 1980 a 1983, e pelo PRD, como independente, de 1987 a 1991.
Para além da vasta obra literária que produziu (onde se inclui a letra do Hino dos Açores), Natália Correia tem também o seu nome associado a várias intervenções parlamentares nos campos da cultura, da defesa da Mulher e dos Direitos Humanos.”
NATÁLIA CORREIA (1923-1993)
http://www.parlamento.pt/VisitaVirtual/Paginas/BlgbNataliaCorreia.aspx

JOAQUIM PESSOA
In Amor Combate, 1.ª ed., Lisboa, Moraes Editoras, Col. Círculo de Poesia, 1977, p.16

SONETO PRIMEIRO

Não foi Guevara mãe quem te rasgou
com os punhais do frio pela manhã.
Foi quando eu te feri que um cão ladrou.
Das rosas veio um cheiro a hortelã!

Nos mastros adejavam as gaivotas.
Era Fevereiro. E a noite um pesadelo.
Da chuva que caía algumas gotas
quiseram repousar no teu cabelo.

E eu nasci. No quarto ninguém estava.
À porta só a chuva é que teimava
em molhar os lençóis da tua cama.

Não foi Guevara mãe quem tu pariste.
Foi um grito do povo azul e triste
na noite em que chorei luas de lama.”

JOAQUIM (Maria) PESSOA
Nasceu no Lavradio (Barreiro), em 22 de Fevereiro de 1948 (refere o mês no poema apresentado), “quase junto à baixa da Banheira”, como gosta de dizer.
É casado e pai de três filhos.
Poeta de renome, nas duas últimas décadas dedicou-se também à pintura na qual a sentimentalidade e o sarcasmo se cruzam com notoriedade. Na primeira das duas vertentes artísticas referidas, tem recebido os mais importantes prémios portugueses da especialidade. Também é notável dizedor da sua própria poesia. É uma Enciclopédia viva e um cultivador de humor.
Dedicou-se a várias actividades profissionais, sendo a mais conhecida a de publicitário na qual canalizou os talentos para a Arte da palavra de que é dotado.
Envolvido em questões políticas e cívicas, é um dos nossos grandes Poetas de Abril.
Não reside no Barreiro há mais de três décadas mas volta sempre à sua terra com Alma, Poesia e Cultura (Barreirense). A nossa Autarquia galardoou-o com a medalha Barreiro Reconhecido na área da Cultura.

SOUSA PEREIRA
Inédito

“Abrir o caminho à vida
(Em 8-03-09 para o Dia Internacional da Mulher)

No teu corpo há uma janela aberta à luz,
um lugar onde tudo nasce a florir,
uma energia que dá alento e seduz,
um vento que sopra no teu olhar a sorrir.

Tu és a força de vida a nascer, o calor,
dos teus braços, dos teus sons, ternura,
que sentimos brotar na palavra amor,
de mãe, de amiga, num aperto de mão pura.

Podia chamar-te sol, na labuta diária,
ou chamar-te luar, no silêncio da paixão,
ao sentir tua força de mulher solidária,
no fluir de palavras e ritmos de canção.

Chamo-te apenas assim, companheira,
amiga, irmã, filha, avó ou camarada,
porque tu és, bem sabes, sempre a primeira,
que abre o caminho – à vida : esta linda jornada!”

SOUSA PEREIRA
Nasceu, este filho adoptivo do Barreiro, em Vila Real de Santo António, no dia 15 de Julho de 1952.
Estava a cumprir o Serviço Militar, em Lisboa, na Ajuda, em Lanceiros 2, como cabo, quando se deu o 25 de Abril que amou e ama como poucos: em família, no local de trabalho, na Câmara Municipal do Barreiro (da qual é aposentado recente e onde foi Director de Informação e Relações Públicas e Coordenador da Protecção Civil), como dirigente associativo e cooperativo, autor de produções escritas acerca dos mesmos movimentos, dirigente desportivo, jornalista (Director da vasta equipa do jornal Rostos, os prémios que o seu jornal criou são já uma instituição desta Cidade).
Homem de Cultura, produtor de obras em diversas áreas, a sua casa é uma acolhedora pinacoteca onde se come, e bem, com Lurdes Sales (companheira de uma vida, professora) e descendentes enquanto se vê Arte.
Amigo do seu Amigo, protege-o nas mais difíceis condições.
Universitário a concluir Filosofia, a profundidade do discurso dá-lhe a capacidade de diálogo com todas as gentes.
Do Algarve, quente e acolhedor, terá trazido uma poesia luminosa, de sentimentos fortes e fraternos: criação onde a Mulher (também) é Abril.
A nossa Autarquia galardoou-o com a medalha Barreiro Reconhecido na Área do Associativismo.

Conclusão e Recomendações

1. “Por morrer uma andorinha não se acaba a Primavera”; se não dei a aula acerca Abril, as Câmara Municipal de Barreiro, as escolas e Abril continuam.

2. Este plano de aula poderá contribuir para mais recordações de momentos anteriores a Abril, concomitantes e posteriores, de seniores e de todos os que deles esperam apoio e sabedoria, mormente os mais jovens.

3. Recomendo melhoria nas interacções entre todas as partes intervenientes para que o Projecto em epígrafe seja mais frutuoso e para que situações equívocas não se repitam.

Manuela Fonseca *
* (Professora aposentada) Colunista do jornal Rostos

Barreiro, 29 de Abril de 2009

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