António, Irmão de CausasPor Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Barreiro, 16 de Maio de 2009
Transcrevo, de livro que muito aprecio, este delicioso excerto de Armando Silva Carvalho: “A mãe [‘quando a família saía, quase sempre às Caldas’] fazia o seu percurso nos armazéns de revenda. Apalpava sarjas, popelinas e chitas, mandava abrir o conjunto de cama, avaliava, pondo-as em cima do peito, as blusas da moda e as camisolas de fioco e lã. Discutia os preços com o senhor Arsénio, um homem com ar triste e mesureiro e muito desenfreado no ritmo quando chegava a altura de medir o artigo.” (1)
Ainda me lembro de, criança, na segunda metade da década de cinquenta, a mesma situação acontecer entre Maria Horta Fonseca, minha a mãe, e os lojistas e empregados comerciais, em Lisboa – aproveitávamos a possibilidade de poder ir de barco: o bilhete da viagem tinha um preço reduzido porque o meu pai era ferroviário, numa tradição familiar que já tenho referido. O progenitor e eu ficávamos à porta e ele dizia-me, habitualmente: “A mamã é que tem jeito para descontos.”
Lá se trazia um tecido por uma quantia um pouco mais reduzida, quase sempre para mim, que as primas e madrinhas, ambas irmãs, Maria Lucília e Maria Helena Horta transformavam em bonitas fatiotas de que se orgulhavam, com razão, na expressão de sentimentos positivos face às auto-aprendizagens que as formavam. Bem me recordo das coisas interessantes que, com gosto e criatividade, executavam, dos livros que estudavam, tantas vezes à luz do candeeiro a petróleo (que, nos conceitos da época, ajudava a despender menos dinheiro com a energia eléctrica) como desígnio uma ascensão social que lhes permitisse algum desafogo material, o que lhes aconteceu, fruto de sacrifícios avultados.
Era o tempo das vacas magras e tudo servia para se poupar uns tostões cujo conjunto era bem escasso – o salazarismo ordenava que o Estado e as empresas privadas pagassem pouco aos trabalhadores que, se organizados, de forma obviamente clandestina, para reivindicações, justas e básicas, sofriam a ousadia na prisão, em perseguições ou em despedimentos.
A propósito do tempo em que não tivemos Democracia, ouvirei, António, enquanto puder, com respeito e carinho, os que me trouxeram a Liberdade, a ditadura hoje como má memória que terá que ficar irrepetível entre nós, bem como outras, quaisquer que tenham sido as suas cores, para os que as sofreram. E manterei o desejo da derrota nos muitos países onde, infelizmente, ainda existem.
Por essas razões, ouvi, há um mês perfeito hoje, nas Comemorações do 25 de Abril da Escola Superior de Educação de Setúbal (dou os parabéns à Instituição nas pessoas dos organizadores do evento, Professores Ana Cristina Sequeira e Fernando Almeida, nosso conterrâneo ilustre), dois dos obreiros da data mais bela do Portugal de contemporâneo, Otelo Saraiva de Carvalho e Francisco Fanhais, que nos contaram como foi o tempo antes, durante e imediatamente depois daquele dia. Na sequência da narrativa, disse ao meu filho mais velho: “Olha, Rui Sérgio, nesta época de grandes dificuldades para a nossa população e muitas mais, podemos rebelar-nos em Liberdade pelo que actualmente acontece de injusto a tantos trabalhadores e pequenos empresários e, em vários países, isso ainda não é possível. Jovem, 25 de Abril e 26, aqui e no Mundo!”
E acrescentei, ainda, que só acabarão os salários em atraso e o encerramento de locais de produção quando houver ministros, deputados, administradores, banqueiros e quejandos com ordenados, prémios, comissões (e o que mais ignoramos) por pagar. Cá e onde o escândalo se repete; pois é, mano (e regressa Zeca Afonso, recentemente citado por um homem de prestígio na vida portuguesa), “Eles comem tudo, eles comem tudo”.
Chegámos a uma falta de moral incompatível com o progresso social atingido e que tentam usurpar-nos – há, em muitas regiões do Globo, Portugal incluído, situações catastróficas para os mais necessitados; roubam a Terra uns ignorantes que imaginam, coitados, o Planeta ser deles.
Irmão, como Ana Teresa Xavier, de quadrante político bem diferente do meu e humanismo idêntico, referiu, num número do nosso ilustre colega Margem Sul, a propósito da fábula A Galinha dos Ovos de Ouro: “Na era das globalizações apenas a humanitária me convence por julgá-la indispensável para um mundo melhor. Globalizar os mercados, para mim, não obrigado. O resultado está à vista: um devastador tsunami social.” (2)
Lutemos contra “os vampiros”, irmão(s), e mantenhamos esta consciência: todos os que querem vencer a “crise” (contra o povo) não se deixa(r)am dormir e passam, no dia-a-dia, mensagens de esperança, solidariedade e revolta para que quem foi e for eleito saiba encarar as aspirações em melhores dias pela parte dos que os escolheram e escolhem.
Quanto aos que não passaram nem passam pelo escrutínio popular, que sejam banidos, e depressa, do pedestal da brutalidade.
Recebe, como é costume, um beijinho da mana. *
* Manuela Fonseca, colunista do jornal Rostos
(1) Armando Silva Carvalho, Maria Velho da Costa, O Livro do Meio: Romance Epistolar, Lisboa, Caminho, Col. O Campo da Palavra, 2006, p. 253.
(2) Ana Teresa Xavier, “A Galinha dos Ovos de Ouro”, in Jornal Margem Sul – Opinião, de sexta-feira, 06 de Fevereiro de 2009, p.12.













