Novo Interesse em FábulasPor Manuela Fonseca
Mostrei, em texto recente, o meu interesse por este género narrativo que, num dos conceitos, “designa um relato quase sempre breve, de acção relativamente tensa, mas não muito sinuosa, interpretada por personagens também não excessivamente complexas (personagens que são muitas vezes animais irracionais), apontando para uma conclusão ético-moral.” (1)

Por Jornal Rostos
Renovei tal interesse, com muitas saudades, por um destes dias, o que perfez quarenta anos sobre o passamento de meu pai, na leitura e reinterpretação de um livro que me ofereceu quando, em criança, fiquei uns dias sem poder ir à escola. Deixo aqui a síntese de “O Rapaz e o Lobo” – um moço, enquanto apascentava as suas ovelhas, resolveu, por mais de uma vez, gritar e pedir que lhe acudissem porque um lobo o acossava e ao rebanho. Acorriam todos, preparados para lutar contra o temido animal e o rapazito ria até mais não poder com a partida que pregara.
Até que um dia a investida aconteceu. Cito a obra: “E, no monte, Manuel João gritava desesperadamente, porque desta vez a sua aflição era a sério (…): um lobo tinha assaltado o seu rebanho e matava as ovelhas sem compaixão.”
Mas, habituados à brincadeira do Manuel João, os habitantes da aldeia não saíram das suas casas e o pastorinho ficou sem ovelhas, para castigo da (…) mentira.” (2)
Passado o tempo imemorial atrás referido, chegou-se, pouco a pouco, dia a dia, semana a semana, mês a mês, ano a ano, século a século, ao terceiro milénio: em cidades cheias de pessoas que delas dependiam, fechava-se fábricas ou encerrava-se parte da produção, reduzia-se, também, postos de trabalho em outras áreas de actividade; no interior, as condições de existência eram, amiúde, deploráveis: idosos, deixados ao abandono e ao critério de quem sofria de maus hábitos e instintos.
Centenas, milhares de pessoas vinham da África para a Europa à procura de melhores condições de vida, tantas vezes não encontradas, em aliciamento que colocava, neste Continente, cidadãos despojados de direitos. Angariação de SERES HUMANOS como se eles fossem, mais uma vez, mercadoria, a fazer lembrar, que vergonha, os terríveis transportes de escravos e, posteriormente, os de pessoas de origem hebraica, cigana e de outras nacionalidades, também odiadas pelos nazis, em miseráveis percursos para os campos de concentração.
Isto enquanto uns exemplares, grotescos, apresentados como pertencentes ao grupo dos bolsos mais cheios por uma comunicação social mais do que duvidosa, não sabiam o que fazer com as inutilidades acumuladas. Por outro lado, veteranos e jovens procuravam sustento digno e nada encontravam – formação, experiência profissional, estudos subitamente desvalorizados.
Na Ásia, Estados e patrões, gananciosos, obrigavam, auxiliados por polícias e exércitos, homens, mulheres e crianças (sim, crianças) a esforços sobre-humanos, a trabalho brutal para a transformação de matérias-primas em produtos que inundavam o mercado mundial por meia dúzia de tostões, tal a exploração dos que não conseguiam livrar-se de quem dirigia, demencialmente, as suas vidas. Eleições vigiadas mantinham os sistemas políticos.
Nos Estados Unidos da América a partir de um inominável dia 11 de Setembro que tudo transformara na Terra, com grave prejuízo em vidas e perdas materiais, principalmente em Nova Iorque, uma onda, justa, de indignação e revolta varrera o grande País e desembocara, mal conduzida, numa guerra contra gentes longínquas: vidas e vidas perdidas, fazendas destruídas, riquezas, das maiores, naturais e históricas, pilhadas.
Nos mesmos Estados Unidos havia ondas sociais, cíclicas e primárias, que levavam, várias vezes, à bestialidade, em escolas, museus, locais de culto, estabelecimentos comerciais, lares – as autoridades e a sociedade civil perderam o controlo de situações complicadas.
Os que, afortunados, puderam poupar, guardaram o dinheiro (tinham passado de moda e sentido os colchões para fazê-lo) em locais que, pensavam, seriam instituições que lhes permitiam administrar as poupanças merecidas. Quando foram à procura das mesmas, nada havia e ficaram sem os bens.
As palavras de alguns governantes, os honestos, tinham deixado de ser comunicacionais – pareciam pertencer a estranhos que não eram entendidos; ter-se-iam transformado numa curiosidade no meio dos momentos conturbados que se atravessava?
Numa montanha de Portugal, excepcionalmente bem tratada, com os seus animais e meios electrónicos que lhe permitiam o contacto com outrem, Pedro Miguel, estudante, ainda entusiasmado e esperançado com as Novas Oportunidades, dizia, através do telemóvel, a um amigo: “Se aprendi com as fábulas! Servem para me formar e ajudam-me nas tarefas académicas. Quanto aos LOBOS, olha, afinal os actuais mordem a sério!”
(1) REIS, C., Lopes, A.C. Dicionário de Narratologia, 7.ª ed., Coimbra, Almedina, 2000, p.158.
(2) ESOPO, LA FONTAINE, Fábulas de Animais e Outras (Adaptação de Alsácia Fontes Machado), 2.ª ed., Lisboa, Portugália, 1959, pp. 197-198.
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos













