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El Verano AzulPor Pedro Estadão

Dou por mim a classificar os candidatos em várias categorias de pelo facial. Temos o candidato Rambo, que tem um aspecto viril e promete partir tudo; o candidato Bond, eficiente, cheio de estilo e a prometer acção; o Capitão Iglo, que é bonacheirão, conta umas anedotas e faz umas barritas de pescada panadas como ninguém; o Capitão Haddock, que também tem galões, mas tem um fígado do tamanho de um tamboril e é capaz de digerir tudo...

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El Verano Azul Por Pedro Estadão

Por Jornal Rostos

De quatro em quatro anos, num ritmo que nos faz recordar as olimpíadas, voltamos a assistir à profusão de obras e promessas de futuros melhores que fatalmente antecedem os períodos eleitorais e, sem saber porquê, damos por nós a desejar que houvessem eleições todos os anos, ou melhor, de dois em dois, para não termos que andar sempre a gramar com as campanhas eleitorais, cada vez mais vazias de conteúdo político.

Andando pelas ruas, em qualquer parte do mundo, verificamos que entre eleições, os poderes públicos entram num estado letárgico, uma espécie de sesta que apenas serve para engordar enquanto esperam que as circunstâncias eleitorais os forcem a levantar-se da cama e começar a fazer qualquer coisa que se veja.

Chegando à época eleitoral, quando têm de decidir em quem votar, os cidadãos são sempre confrontados com um conjunto de escolhas, que, geralmente, se podem dividir em cinco classes, que, de maneira uniforme, perpassam pela cabeça de todos nós antes de decidir em quem votar: Uma primeira é a verificação de quantidade de clubite que encerramos dentro de nós e a constatação de que, em quantidades exageradas nos faz repetir vezes sem conta o mesmo erro, fecundos que estamos de uma esperança imensa de que os nossos são sempre os melhores, mesmo que trabalhem mal; outra é a vontade de castigar quem lá esteve e trabalhou mal, exorcizando também a nossa culpa de neles termos votado nas eleições anteriores, conquistando uma espécie de momento de vingança pouco duradoura, uma vez que rapidamente, aqueles a quem passamos o testemunho, nos mostram que não têm mais soluções nem mais capacidade que os precedentes; uma terceira é a escolha de uma via que apesar de sabermos que não vai conduzir a mudanças muito drásticas, pelo menos vai introduzir uma espécie de equilíbrio no sistema e nos vai desculpabilizar de estarmos em conluio com a força vitoriosa e nos vai permitir manter a nossa independência crítica durante os quatro anos que se seguem; a seguir, existe a escolha do total desespero que é o salto no abismo, como quem joga na lotaria, colocamos o nosso voto num qualquer desconhecido, na esperança de que nos saia a grande e, ganhando, a nossa selecção se revele uma espécie de mutação de tudo o que era mau num admirável mundo de novas maravilhas; a quinta é verificarmos se vale a pena manter as coisas como estão, ou considerando as alternativas, tentar que a situação não mude para pior.

As coisas estão verdadeiramente más quando damos por nós a tentar ler nos cartazes alguma razão que nos leve a escolher este ou aquele candidato como repositório da nossa esperança, e começamos a procurar as diferenças entre os vários que nos apresentam. Hoje em dia, tenho tendência para classificar os candidatos em função da quantidade de pelo facial, uma vez que, salvo as raras excepções, em que nos apresentam uma mensagem, que nos distraem da face com que o cartaz nos confronta, como por exemplo, naqueles em que aparece a Manuela Ferreira Leite e depois colocam ao canto, disfarçadamente, uma espécie de coelhinho da Playboy estilizado, que se destina, quase certamente, a trabalhar no nosso sub-consciente.

À parte desses casos, dizia, dou por mim a classificar os candidatos em várias categorias de pelo facial. Temos o candidato Rambo, que tem um aspecto viril e promete partir tudo; o candidato Bond, eficiente, cheio de estilo e a prometer acção; o Capitão Iglo, que é bonacheirão, conta umas anedotas e faz umas barritas de pescada panadas como ninguém; o Capitão Haddock, que também tem galões, mas tem um fígado do tamanho de um tamboril e é capaz de digerir tudo; o velho Xanquete, ou avô Gepetto, sábio e experiente mas encorajador de umas traquinices; e, por fim, o Pai Natal, que nos faz parecer que tudo é possível, mas no fim das coisas faz-nos aparecer uns truces novos de uma cor que não gostamos. As categorias femininas, por serem menos providas de pelo facial, são menos numerosas, só identifico três: a Sereiazinha, jovem, com o futuro pela frente, que nos promete um mundo melhor; a Mãezinha Ursa, carinhosa, preocupada com o nosso futuro e que nos quer ajudar a crescer; e a Madrasta da Cinderela, que só quer o melhor para os seus, mesmo que isso custe aos outros uma vida de escravidão. A Super-Avózinha, normalmente não concorre às eleições, acha que no tempo dela é que era bom, bebe chá e come torradas.

Infelizmente para nós, as escolhas que nos vão apresentando são cada vez mais de embrulho e menos de conteúdo e o vazio de conteúdo vai-nos custar caro no futuro. Mas não faz mal, até lá podemos gozar o nosso Verão azul e cheio de sol e ver como é que está o tempo em Outubro, para decidir se vamos votar ou passar o fim-de semana ao Algarve.

Pedro Estadão
Sesimbra, 28 de Junho de 2009

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