O Barreiro e a HistóriaPor Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Ana Isabel chegou, como tantas vezes, à Avenida Bento Gonçalves, um dos locais mais visitados do Barreiro e da Freguesia homónima. Também de convívio entre elementos da população que ali, ou bem perto, mora. Contemplou habitações sem as mínimas condições para as famílias que albergam. Uma dificuldade somada, certamente, a outras e ainda sem fim à vista. Imaginou mais prosperidade no porvir e, em consequência, as casas alindadas – na impossibilidade, substituídas por outras, adequadas ao local. Albergariam pessoas com a qualidade de vida que deveria ter mínimos padrões universais, aliada à exigência de saberes e trabalho, no caminho do bem-estar que proporcionasse gente mais feliz.
Sentou-se numa esplanada e, antes de acender o cigarro, considerou que a sanha que se generalizava contra os fumadores não se comparava, sabia lá ela (que cumpria e concordava com a lei em vigor para o tabaco) porquê, com a que seria interessante em relação aos que, por esse Mundo, abusavam de cargos, públicos ou privados, só pela ganância – o concomitante aumento de degradação de condições de vida para milhões e milhões de seres humanos nada dizia aos selvagens.
Ligou o pequeno aparelho electrónico, pôs os auscultadores e ouviu Otis Redding – os pais tinham-lhe transmitido o apreço pela voz do cantor que, eram adolescentes, desaparecera, jovem, num acidente aéreo. Sorriu com a designação de “afro-americano” em relação ao artista porque não havia correspondência vocabular para os estado-unidenses de origem europeia. E assim o pensamento chegou ao Presidente Obama e ao bafiento boicote contra Cuba que ele e a sua Administração atenuavam com elevada diplomacia. Chegariam a anulá-lo, estava certa disso. Augurou-lhes as melhores práticas, importantes para quase todos; não que acreditasse em magia ou em cidadãos providenciais mas pelo alento e moralidade que esperava do Governo Americano para o desenvolvimento global.
Sorriu de novo: os pais chegaram a pensar em Hillary Clinton como a primeira mulher na presidência dos Estados Unidos mas já se tinham habituado a ver, nesse prestigioso cargo, o homem nascido no Havai cujas palavras – quase sempre sensatas – e acções apreciavam. E seguiam com atenção os passos dela como Secretária de Estado. Na noite eleitoral que ditara a mudança na Casa Branca deitaram-se só após tal certeza.
Pediu um sumo natural e um café (gostava de bebê-lo quase frio) e ligou à mãe:
– Então, como vai o teu “Tour”? E o Alberto Contador? Aguentou-se no “Mont Ventoux”?
– Claro e amanhã Paris terá o justo campeão. Olha, filha, até parece que há quem não o queira vestido de amarelo, cor óptima sobre a pele morena do fenómeno espanhol.
– É o melhor, mãe.
Apaixonada, desde garota, pela França e as suas realizações, Maria Eduarda visitara-a umas quantas vezes, estudara e trabalhara lá, episodicamente. Grande entusiasta por manifestações desportivas, vira, orgulhosa, o inesquecível Joaquim Agostinho no terceiro lugar, através da televisão, em 1979, em Vichy; frequentava de um curso de Língua e Civilização Francesa. E decidira que, mais tarde, quando dispusesse do tempo à vontade, iria a Paris ver a chegada da última etapa da “Grande Boucle”.
Essa era a Volta cujos heróis, vencedores de peripécias diversas, a comunicação social e Roland Barthes, um dos excelentes pensadores do século XX, tinham imortalizado. (O estudo deste autor, orientado pela docente Maria Alzira Seixo, Barreirense de eleição e sua Mestra na Faculdade de Letras de Lisboa, era uma marca indelével que a erudita lhe tinha deixado.)
Impossibilitada de se encontrar onde tanto tinha querido, Maria Eduarda acompanhava o evento à distância como se galgasse montanhas, vales e planícies com os afortunados que o seguiam directamente (continuaria o Professor Marçal Grilo – gerira um módulo no seu Mestrado – a fazê-lo?). Ana Isabel minorava a situação por que a mãe passava na busca e aprofundamento de interesses comuns e, até 26 de Julho, o último dia da Volta à França de 2009, perguntaria à progenitora pela mesma.
Contemplou a bonita ponte Vasco da Gama – imaginou, motivada pela designação da infra-estrutura, algo da vida portuguesa no tempo do descobridor. Do seu, considerou bem morosos os actos definitivos em benefício da região que a vira nascer e onde vivia: seria importante, sob o ponto de vista da criação de riqueza, que a Terceira Travessia do Tejo não fosse desviada do Barreiro.
A querida terra à qual voltava sempre com alegria. De acordo com que a madrinha (também prima) lhe dizia, com emoção idêntica à desta: Nani nunca quisera ir para outros locais, a título definitivo, ainda que com promessas de boas remunerações.
Havia um livro com que aprendera a interpretar melhor a cidade que atingira esse grau administrativo em 1984, quando nascera. Era fruto de um trabalho de pesquisa exaustiva de Armando Silva Pais, conterrâneo notável, colega na escola e amigo do avô paterno – conhecera o antepassado através dos calorosos relatos dos que tinham privado com ele. (1)
O historiador legara ao filho, Carlos Silva Pais, o interesse e o rigor na investigação em torno de obreiros do Barreiro e Ana Isabel sentia orgulho nas referências que o criador fazia a um tio-avô materno, António Horta Rodrigues. Contara, recentemente, um episódio, dos mais curiosos e pitorescos da luta dos barreirenses contra a ditadura, que envolvera o Horta e outros. Acontecera bem perto dali, no início dos anos trinta do século passado. (2)
Parente que oferecera a Maria Eduarda o emblema em oiro do Futebol Clube Barreirense, recebido aquando dos cinquenta anos como associado. Partira com a equipa principal de futebol habituada à 2.ª Divisão Nacional; bem desgostoso estaria agora ao vê-la na 1.ª Distrital, sem estádio ou até um simples campo para jogar.
Olhou para o relógio; a hora anunciava-lhe Pedro Miguel; o companheiro chegou minutos depois. Cansado e incomodado com o que estava a passar-se no Ensino Politécnico: a mudança de estatuto profissional dos seus docentes penalizava colegas, alguns bem mais velhos do que ele, na idade e na profissão. O sindicato a que pertencia não assinara nenhum acordo com a tutela e fizera bem. Beijou Ana Isabel, pousou a pasta, gozou a brisa, sentou-se, pediu uma sanduíche e uma cerveja.
– Estive com os teus pais; olha o que a Maria Eduarda te mandou.
Licenciada em Turismo e técnica do ramo, a rapariga desenvolvera, com o curso e a profissão, o gosto pela História que herdara no lar. Em relação aos factos mais salientes do Barreiro, a mãe já fizera o prefácio de um livro de Rosalina Carmona e o pai dissera poemas na apresentação de dois de Armando Sousa Teixeira; eram as últimas produções de ambos que chegavam.
Leu alguns excertos da citada autora. Tocava sempre Ana Isabel a visão dos que, tirados de África com a maior brutalidade, chegaram, sem alternativa, a outras paragens: “A existência de escravatura no Barreiro está comprovada desde as primeiras décadas de Quinhentos. A instalação de algumas actividades no concelho, de importância estrutural para o projecto expansionista português, conferiu a toda a região um especial incremento económico, tornando-se um dos principais centros de produção destinado à grande aventura marítima dos portugueses.” (3)
Com o correr de ventos, sóis, luas, marés, vontade força de homens e mulheres, os dias tornaram-se, pouco a pouco, melhores. E continuava a historiadora: “Não queremos (…) deixar de assinalar que em 1534, na Visitação efectuada pela Ordem de Santiago à Igreja de Santa Cruz é referida uma tal Caterina Preta, que ofereceu ornamentos para esta Igreja.” (4)
Já seria, por certo, mulher com algumas posses: “Sem querer especular muito sobre esta Caterina Preta, se fora escrava e era liberta, que posses tinha, para doar tais paramentos. (…). Apenas podemos ter uma certeza, era negra, pois quanto a isso a antroponímia não deixa dúvidas. Ora, não era comum nesta época uma pessoa com estas características não ter passado pela condição de escrava.” (4)
E evocou, a partir do que a avó materna lhe contara, uma prima Catarina: olhos vivos, cabelos crespos e arruivados. Viera, falecido o pai, mineiro, da pobreza de Aljustrel para o Dafundo com passagem por Lisboa. Costurara para mulheres de várias classes sociais, entre as quais prostitutas sem privilégios – clientes sensíveis, amantes dos filhos e de bons pagamentos.
Que gentes longínquas tinham deixado parte dos genes a essa alentejana de franqueza e solidariedade logo ao primeiro olhar? Também inteligente, bela cozinheira de mesa farta, apaixonada pelo marido e mãe de endeusado filho único.
– Vamos andando, Ana?
O casal pagou a conta e seguiu para casa. No caminho, surgiu uma amiga de Pedro Miguel que sobrevivera, psicologicamente, a péssimos momentos; a reconstituição do caminho, complicada, fora uma das longas e difíceis metas estabelecidas. Passeava, bem-disposta, acompanhada pela pessoa com quem refazia a vida sentimental.
– Fico feliz por ela; a Joana reencontra a alegria.
Depois do jantar e das notícias televisivas a rapariga pegou no mais recente livro de Armando Sousa Teixeira e viu, na capa, em fotografia de Mestre Augusto Cabrita, um maquinista ou um fogueiro, junto a uma roda de velha locomotiva a vapor. Associou-a à origem ferroviária de parte da família. Leu em Armando Sousa Teixeira: “A manifestação [28 de Julho de 1943] que vai ao Barreiro-A, passa pela rotunda das máquinas e entra pelas Oficinas dos Caminhos de Ferro aos gritos de ‘Pára! Pára! Os chefes ameaçam, os operários ferroviários hesitam, a opressão na CP é tremenda, alguém desliga a energia, as máquinas claudicam e as oficinas param.” (5)
– Gente de coragem, gente coragem, Pedro! O meu bisavô paterno, maquinista, teve que deixar, por um tempo, ignoro a data, a mulher, os três filhos e o ganha-pão. Para evitar a repressão, escondeu-se num moinho que conhecia como a palma da mão, em Alhos Vedros, vila onde nasceu e viveu algum tempo. Puseram-no lá como moleiro, na clandestinidade. Preciso de mais informação acerca do assunto; vou pedi-la ao Engenheiro Caro Proença que já escreveu acerca dos meus. (6)
Continuou a ler o livro.
(1) Armando Silva Pais, O Barreiro Antigo e Moderno: as Outras Terras do Concelho. Barreiro, Câmara Municipal do Barreiro, 1963.
(2) Carlos Silva Pais, “Nótulas / Introdutórias António Horta Rodrigues”. Vinculados ao Barreiro n.º 2: De Carlos Silva Pais para a Memória da Cidade.
www.vinculadosaobarreiro.com, consultado em 31/7/09.
(3) Rosalina Carmona, Barreiro, o Lugar e a História: Séculos XIV a XVIII. Barreiro, Junta de Freguesia de Barreiro, 2009, p. 92.
(4) Idem, ibidem, p. 94.
(5) Armando Sousa Teixeira, Barreiro, Roteiro das Memórias: da Resistência, do Trabalho e da Luta. Barreiro, Câmara Municipal do Barreiro, 2009, pp. 32-33.
(6) José Caro Proença: decano dos intelectuais do Barreiro, engenheiro, antigo desportista, jornalista, historiador, estudioso de Epistemologia.
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos













