A listaPor Jorge Fagundes
"Não senhor. A lista até estava bem escrita, com letra muito bonita. Tem é de substituir alguns dos artigos por outros mais adequados às boas digestões. Daqueles que não fazem bem, nem fazem mal. Do género come e cala-te. Volte cá depois depois para vermos se corrigiu bem".
"Entregaram-me a lista e desandaram. Agora como vou explicar à patroa que tem de substituir o feijão frade, a batata roxa, o rábano e os carapaus de gato. Sim, como vou convencê-la a mudar a lista?"

Por Jornal Rostos
Ao subir, hoje, a Avenida Alfredo da Silva (nome que continua a ser indigesto para uma minoria de gente de bom nome e de não menos boa fama) voltei a cruzar-me com aquele velho colega da Escola Alfredo da Silva (arre, outra vez!) já por mim referenciado em tempos.
Vinha espumando de raiva, congestionado, à beira de um ataque de nervos ou de outro qualquer mais gravoso.
"Ainda bem que te encontro", atirou-me logo. "Queres saber o que me aconteceu?"
"Quero, sim, quero. Mas antes, comos estamos tão perto de duas farmácias, não será melhor ires medir a tensão?"
"Qual tensão, qual carapuça. Isto está pior do que no tempo da outra senhora".
Ingenuamente perguntei: "Qual outra senhora? Daquela nossa professora de matemática de quem não gostavas?"
"Estás burro, ou quê? Estou a falar da D. Situação, a do antes e a do depois".
Como me parecesse mais descontraído, arrisquei:"conta lá a razão do teu alvoroço. Roubaram-te a carteira ou o cartão do multibanco? Chamaste a polícia?"
"Hoje pareces mesmo um asno. Então, se me tivessem roubado a carteira ou o cartão do multibanco, mesmo que tivesse um megafone, achas que algum polícia me ouvia?"
"Desculpa lá. Hoje não devo estar muito bem. Se calhar, apanhei sol a mais em Alburrica. Mas, o que te sucedeu?"
"Como sabes, há muitos anos que eu faço as compras lá para casa. A minha patroa (é assim que ele se refere à companheira de muitos anos de vida em comum, por ironia do destino com o namoro começado na Escola Alfredo da Silva) elabora uma lista, muito certinha e eu, seja a praça (leia-se, nos dias de hoje, mercado provisório), seja o supermercado, limito-me a comprar e a pagar, claro, o que aí vem. Mas hoje, tive cá um azar!"
"Deixaste a lista em casa?"
"Não, aliás não me lembro de ter tido um esquecimento desses. À entrada da praça estavam três fulanos, de fatinho e gravatinha à maneira. Até pensei que, finalmente, os da ASAE tinham descoberto a tenda. Puro engano!"
"Então, não eram fiscais?"
"Não eram, não. Muito pior do que isso. Pediram-me a lista, disseram-me para esperar um pouco até voltarem com a decisão".
"Essa agora. Qual decisão?"
"Olha, ainda não tinha passado meia hora voltaram, e com ar solene, tipo inauguração de placa em rua nova, disseram-me": " a sua lista foi reprovada por maioria".
"Reprovada? Tinha algum erro de ortografia? Isso emenda-se já".
"Não senhor. A lista até estava bem escrita, com letra muito bonita. Tem é de substituir alguns dos artigos por outros mais adequados às boas digestões. Daqueles que não fazem bem, nem fazem mal. Do género come e cala-te. Volte cá depois depois para vermos se corrigiu bem".
"Entregaram-me a lista e desandaram. Agora como vou explicar à patroa que tem de substituir o feijão frade, a batata roxa, o rábano e os carapaus de gato. Sim, como vou convencê-la a mudar a lista?"
E abalou, Avenida abaixo, tão furibundo como no início.
Jorge Fagundes













