A Quinta dos AnimaisPor Pedro Estadão

Por Jornal Rostos
Advertência: Spoiler
Se ainda não leu “O Triunfo dos Porcos” da autoria de George Orwell, faça o favor de ler antes de continuar. Há uns meses que o autor deste artigo pergunta a si próprio porque é que as pessoas comentam textos que não estão preparadas para entender. É claro que este autor perguntaria aos próprios e não a si mesmo se os comentadores se identificassem em vez de fazerem figura de ignorantes. Enfim… O livro está amplamente disponível nas livrarias e, se conseguiu aceder a este artigo também o conseguirá obter na internet. O texto do Orwell é muito pequeno e fácil de ler, portanto, se começar já, amanhã por esta hora já terminou e pode ler o artigo e tirar dele todo o proveito pretendido pelo autor.
A Quinta dos Animais
Tive este mês a rara oportunidade de passar uns dias de dolce fare niente que não foram os suficientes para que lhes pudesse chamar férias, no entanto, deram-me ocasião para poder praticar uma das actividades que mais gosto: ler. Apesar de já ter passado os olhos por mais de uma resma de livros e possuir uma biblioteca considerável pelos padrões nacionais, não me considero um bibliófilo, mas sempre tenho sido um grande apaixonado pela leitura, procurando ler cada vez mais e mais livros e tentando desvendar os seus sentidos mais profundos.
De cada vez que termino um livro, faço uma pequena ficha de leitura e entrego-o à guarda da estante. Apenas reli uma escassa dúzia de livros, uns, por serem de orientação científica, a maior parte por não os ter conseguido apreender à primeira, dois deles, por me terem deixado completamente fascinado.
O que se passou nestes últimos dias fez-me reconsiderar toda a minha concepção da leitura e a forma como tenho encarado os livros. Aconteceu que me deu para comprar uma nova cópia de “O triunfo dos porcos” de Orwell. A primeira que possuí ganhou pernas e foi repousar à estante de alguém a quem a terei emprestado há umas duas décadas. A minha intenção era somente repor na minha estante um dos títulos que se encontrava sem correspondência na minha lista de fichas de leitura, como tantos outros que em tempo cedi ou emprestei e nunca voltaram às minhas mãos.
Tudo isto seria banal se não me tivesse dado para reler o livro. Reler o “Animal Farm” pôs em causa toda a minha concepção da leitura, confrontou-me brutalmente com a afirmação de que a nossa própria experiência e o momento que vivemos, o nosso ponto de vista, variam com o decorrer do tempo e as interpretações que podemos retirar de um texto não são estáticas. Livros como os de Orwell, a que chamamos Clássicos, estão sempre a abrir-nos caminho para novas interpretações. O que me sucedeu com a re-leitura do Triunfo dos Porcos obriga-me a reler toda a literatura clássica que já me passou pelas mãos.
Há vinte e poucos anos, quando li o livro pela primeira vez, vivia-se no mundo o fim do Império Soviético, e, em Portugal, cantavam-se laudas à realização do país de Abril, falava-se de liberdade e de igualdade. Nesse particular, evoluímos muito pouco, num certo paralelo com o livro, a igualdade para todos tem degenerado em tratamentos desiguais para os cidadãos no que toca à justiça, ao acesso à saúde, à educação e ao emprego, se bem que esta evolução tem sido contrabalançada com o discurso oficial que afirma que estamos muito melhor do que estávamos há trinta anos atrás, aparentemente, a única igualdade que falta conquistar é a igualdade entre os homens e as mulheres. Nas palavras do meu amigo Jean Pierre: -Pffff… Balelas.
Já estou a divagar. Dizia eu que quando li o livro pela primeira vez, como para todos os livros que li como deve ser, analisei-o, tirei conclusões sobre a sua mensagem, escrevi uma pequena ficha de leitura e tomei notas mentais que me foram ajudando a contextualizar os discursos que leio, ouço ou faço e adicionei-as ao tecido do filtro com que vejo o mundo. Todos sabemos que os filtros com que vemos o mundo são construídos com os nossos pré-conceitos e vão petrificando e ficando anquilosados com a idade e cada vez se vai tornando mais difícil ver o mundo por outros olhos que não os nossos. A releitura deste livro chamou-me à atenção para essa realidade e para a necessidade de renovar constantemente os filtros, mantendo-os o mais translúcidos possível, é necessária uma manutenção constante das janelas por onde olhamos para fora e para dentro de nós.
Na ficha de leitura do “Animal Farm” de George Orwell, que li em inglês numa edição da Grafton Books estão anotadas as conclusões que tirei da leitura da obra:
“- A fábula narrada neste livro descreve a tomada do poder ao estilo comunista, numa quinta, pelos animais de criação, que expulsam o proprietário humano para passarem, eles próprios a deter os meios de produção. Encarada inicialmente por todos os animais como uma revolução que traz a promessa de igualdade entre todos e uma melhor distribuição dos recursos a cada um de acordo com as suas necessidades, de cada um de acordo com as suas possibilidades, acaba por se desenvolver rapidamente num sistema em que existe um grupo privilegiado e uma vida de servidão para todos os outros. No final, tudo volta a ser igual ou pior do que antes, com a substituição do anterior opressor humano por um novo grupo, os porcos, que no final acabam por não se conseguir distinguir de Jones, o inicial proprietário da quinta. Várias personagens se destacam nesta história: Snowball, o porco idealista que, de acordo com o discurso oficial passa de herói da revolução a traidor dos animais; Napoleão, o porco com sede de poder (e de whisky), corrupto, mentiroso e alienador das massas, que, pouco a pouco, se vai substituindo ao anterior opressor humano; um cavalo que já fazia todo o trabalho e acaba por fazer ainda mais; os carneiros, cujo balir se sobrepõe sempre a qualquer tentativa de contestar as decisões do poder; e, entre outros menos importantes, um burro, que por ter uma esperança de vida maior que os restantes animais, se mantém calado, a sua experiência dá-lhe a saber que nenhuma mudança é permanente.”
Conclui, na altura, que este livro era um sério aviso quanto aos malefícios do Comunismo, considerei que Orwell nos estava a avisar metaforicamente contra os perigos que encerram os regimes totalitários, e, fiquei por ai. Usei frequentemente nos debates políticos e filosóficos que tive entre amigos ou em público, aforismos retirados do texto em questão, frequentemente para contestar e derrubar argumentos com origem na dialéctica marxista. Isto foi nos anos oitenta do século passado. Não se enganem, não retiro nem uma palavra do que disse então. Continuo a considerar as conclusões que então tirei da leitura do livro, extremamente válidas. O que me chocou foi que, passados vinte e tantos anos sobre a última visita a este texto, considerei as conclusões que então tirei extremamente incompletas e facciosas, pequeninas mesmo.
A releitura do Triunfo dos Porcos, após trinta e cinco anos da última revolução que houve em Portugal e com a carga da minha própria experiência da vida política e partidária das últimas duas décadas, com especial relevo para os eventos a que assisti nos últimos anos, fez-me ver neste livro, um livro completamente novo. Comecei a confrontar a fábula com acontecimentos a que assisti recentemente e verifico que a história de Orwell se está a passar todos os dias diante dos meus olhos.
O aviso que o Animal Farm contém, concluo eu hoje, não é em relação a qualquer regime político, em particular, nem a qualquer tipo de revolução, em especial. O aviso é em relação aos grupos que aparecem descritos no livro como porcos e cães, e em relação ao esforço permanente que fazem de modulação do discurso dos carneiros, de forma a agirem e decidirem de forma incontestada. O Triunfo dos Porcos é um aviso contra o vale tudo que alguns grupos de pessoas utilizam nos seus movimentos de ascensão nas organizações.
O sentido que hoje encontro na leitura deste livro e que não considero, para mim, definitivo, ( daqui a vinte anos posso ver tudo de uma maneira muito diferente), é que todas as mudanças de cariz social trazem consigo a ascensão de um grupo dominante que rapidamente se afasta de qualquer idealismo inicial para se dedicar à satisfação dos seus próprios interesses, caprichos e vaidades. Ora, isto não vale só para os sistemas totalitários, o que nos afronta é que é válido e aplicável a qualquer sistema democrático, aliás, é aplicável a todo o tipo de organização humana: política, social, empresarial ou recreativa.
Há duas conclusões que não quero, por enquanto, tirar, ainda não vivi o suficiente para o observar. A primeira é a de que os porcos triunfam sempre, a segunda é a de que a seguir a esse triunfo a pressão aumenta no sentido de uma nova revolução que recomeçará o ciclo e levará um novo grupo ao estatuto de opressor.
A projecção clara que Orwell faz no livro é de que os porcos, por se considerarem superiores aos outros, se vêem no direito de retirar para si tudo quanto querem, sempre ajudados pelos cães que servem de instrumento de opressão da oposição e que são privilegiados em relação aos restantes por serem cegamente fieis a quem detém o poder. Ao mesmo tempo, a alienação dos carneiros produz um ruído de fundo que se sobrepõe a toda a tentativa racional de oposição ou crítica ao sistema vigente. Esta projecção é, infelizmente, válida para todo o tipo de sistema ou de organização humana.
Para todo o lado para onde olharmos nos nossos dias, podemos perceber a vertiginosa ascensão de grupos de porcos orwelianos e as consequências catastróficas que isso tem provocado nos vários domínios e o que isso tem atrasado o desenvolvimento de uma sociedade humana mais justa, mais solidária e mais igualitária. Apesar do discurso oficial de que as coisas estão muito melhores do que há 20 ou 30 anos atrás, quem se debruçar seriamente sobre o assunto dificilmente vai perceber que as diferenças sejam assim tão notáveis, principalmente se fizer comparações em termos da nossa posição relativa a outras nações ao longo das últimas décadas: essencialmente estamos na mesma; o país real continua a ser o que era.
O que “O Triunfo dos Porcos” nos ensina supremamente é que, enquanto os carneiros balirem sem pensar, os porcos farão o que lhes aprouver.
Pedro Estadão
Sesimbra, 26 de Agosto de 2009
P.S.– Poucas horas após terminar este artigo recebi a notícia da morte de Edward Kennedy, que foi ao longo do último meio século um infatigável paladino da igualdade entre os homens e da implementação de um sistema social mais justo e mais solidário, tanto nos EUA, como no resto do mundo. Aqui lhe deixo a minha homenagem. Paz à sua alma.













