Há males...e males!Por Jorge Fagundes
"E que ligação tem esse teu desejo com o BI?"
"É simples, rapaz, é simples. Por exemplo: se eu, com ou sem concurso público, entregar todas as obras ao meu tio empreiteiro, quem me pode acusar? Se os meus pais eram, oficialmente, incógnitos, tenho algum tio? Tenho?

Por Jornal Rostos
Hoje, da parte da manhã, subindo a Avenida Alfredo da Silva, voltei a encontrar o meu velho colega da Escola Industrial e Comercial com o nome daquele industrial.
Estava no numeroso grupo de assistentes às obras do novo Mercado Municipal 1º. de Maio e, surpreza das surprezas, ao regresso da estátua ao seu antigo poiso.
Numa nota à margem, não resisto à tentação de imaginar a quantidade de sapos engolidos hoje por algumas "figuras" barreirenses.
Mas, voltando ao meu colega da Escola, este insistiu para irmos até ao Parque e nos sentarmos um pouco.
"Tenho uma coisa para te contar".
"Boa ou má?"
"Boa, boa, mesmo boa. Lembras-te daquele complexo que eu tinha quando éramos rapazotes e me pediam o Bilhete de Identidade?"
"Complexo? Não me recordo. O que era?"
"Por aquela razões que todos conheciam, aliás muito vulgares na época, o nome dos meus pais biológicos não constava no meu BI. Nesse espaço existia como que uma marca sangrenta, que me acompanhou quase toda a vida, dizendo: filho de pais incógnitos".
"Já me lembro. Mas cresceste com os teus pais mesmo sem esse nome no BI e fizeste-te um homem de bem. O que te leva a reavivar agora uma situação que pertence ao passado?".
"Pertence, sim, mas vai ter bons reflexos num futuro próximo. Mais propriamente, daqui a quatro anos".
"Daqui a quatro anos, porquê?
"Ora, daqui a quatro anos, se aquela senhora não tiver a oportunidade de suspender a democracia, vamos ter eleições autárquicas".
"E depois?"
"Vou candidatar-me a Presidente da Câmara ou da Junta de Freguesia, tanto faz".
"E que ligação tem esse teu desejo com o BI?"
"É simples, rapaz, é simples. Por exemplo: se eu, com ou sem concurso público, entregar todas as obras ao meu tio empreiteiro, quem me pode acusar? Se os meus pais eram, oficialmente, incógnitos, tenho algum tio? Tenho?
E mais: se todas as compras de fatos e de luvas para o pessoal das limpezas forem feitas no armazém do meu primo, quem pode beliscar-me? Quem? Se não tenho tios, também não tenho primos".
"Não está mal imaginado, não senhor!".
"E o gozo que vou ter quando a invejosa da minha vizinha do primeiro andar, aquela que, contrariando a lei da gravidade, me acusou de ao estender a minha roupa, na corda do rés-do-chão onde moro, lhe ter salpicado a camisa de marca, made Singapura, do marido, em carta muito bem escrita, mas com o pormenor de não ser assinada, e enviada para os jornais, insinuar sobre a falta de transparência dos meus negócios com o meu tio e o meu primo. Qual tio? Qual primo? Como vês, meu velho colega da Escola, há males...e males!"
Jorge Fagundes













