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O pesadeloPor Jorge Fagundes

Chegado ao Ginásio, pareceu-me que o ambiente estava diferente, com as pessoas a falar em surdina.
Lá me sentei na mesa do costume e um dos meus amigos fêz-me um sinal a chamar-me a atenção para dois cavalheiros sentados numa das mesas mais afastadas. "Caramba, há cada moda. Então, numa noite tão quente, os tipos estão de gabardina clara, chapéu e óculos escuros?"

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O pesadelo Por Jorge Fagundes

Por Jornal Rostos

Ontem, depois do jantar, fui, como é hábito, até ao Ginásio do Barreirense, para tomar a bica e trocar dois dedos de conversa com alguns amigos.
No amplo largo junto à estátua do Alfredo da Silva, estranhei a presença de um grupo de fulanos, fardados de verde e com espingardas às costas. Marchavam, um dois, um dois, esquerdo, direito, comandados por um indivíduo com uma corcunda assinalável. O qual, numa voz de falsete, lhes dizia: "rapazes, endireitem-se como eu".
"Não será nada fácil", pensei com os meus botões. E lá segui, intrigado por não ver câmaras a filmar o que julguei ser uma reconstituição histórica.
Chegado ao Ginásio, pareceu-me que o ambiente estava diferente, com as pessoas a falar em surdina.
Lá me sentei na mesa do costume e um dos meus amigos fêz-me um sinal a chamar-me a atenção para dois cavalheiros sentados numa das mesas mais afastadas. "Caramba, há cada moda. Então, numa noite tão quente, os tipos estão de gabardina clara, chapéu e óculos escuros?"
Depois de falarmos (em voz baixa ,porquê?) sobre o calendário de jogos saído ao Barreirense, regressei a casa.
Deitei-me, e hábito velho, liguei o rádio portátil. "É boa, estão a passar o bailinho da Madeira! Que giro!"
Acabada a música, uma voz, com o tradicional sotaque daquela região, anunciou que os aeroportos do Funchal e de Porto Santo estavam congestionados com a chegada de tantos aviões vindos do "contenente".
E acrescentou que essas centenas de pessoas, mal desembarcavam, se apressavam a retirar dos respectivos pescoços umas asfixiantes espécies de coleiras cor-de-rosa, que atiravam para uns contentores colocados à mão de semear.
E que todos gritavam:"estamos livres, estamos livres. Aqui, sim, respiramos uma fresca brisa democrática. Viva a liberdade!".
Aturdido, levantei-me e fui ligar a televisão. Por sorte, ou por acaso, estava num directo mostrando a chegada desses "continentais", a quem eram servido, por gentis meninas vestidas à moda da Camacha, um apetitoso tabaibo e uns quadradinhos de milho frito.
A reportagem passou, de seguida, para as esplanadas ao pé da Sé do Funchal, todas elas a abarrotar de gente.
"Curioso, cá estão os tipos das gabardinas claras e dos óculos escuros. Mas, no lugar do chapéu, têm barretes de orelhas!"
Estava nesta quando a campainha da minha porta tocou fortemente. "Que terá acontecido às três da manhã?"
Lá abri a porta e dei com a minha vizinha do andar de baixo, com ar aflito, a perguntar-me:"Vizinho, sente-se mal? Deu cá uns gritos! Deve ter acordado toda a gente!"
"Ai, vizinha, desculpe. Agora percebo ter acordado com o pijama a escorrer suor. Não é que tive cá um destes pesadelos!"

Jorge Fagundes

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