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A Cidade do Cinema PornoPor Pedro Estadão

Confesso que tenho sido um espectador pouco atento das novidades locais, em parte por ausência, em parte por algum desinteresse que se tem instalado em mim relativamente aos processos políticos e partidários do nosso burgo, assim, escaparam-me os episódios finais da novela da Cidade do Cinema. Reparei, há quatro anos, como, ao melhor estilo das eleições para qualquer clube de futebol, apareceu a notícia bombástica de que se estava a negociar a vinda para o Barreiro da Cidade do Cinema. Parecia uma coisa do género de um candidato à Presidência do Benfica anunciar que estava a negociar a vinda do Mourinho para treinador da equipa

8 min de leitura
A Cidade do Cinema Porno Por Pedro Estadão

Por Jornal Rostos

Queria ter escrito este artigo sob pseudónimo mas alguém me recordou da importância de darmos a cara pelo que escrevemos. Não me faz grande diferença, a questão era meramente estética. É que, para escrever uma peça onde se refere o cinema porno, é engraçado usar um “nome porno”. Pois, visitei recentemente um sítio da rede onde prometem revelar o nosso nome porno, ou seja, o nome que usaríamos se fossemos actores de filmes pornográficos. O dito sítio requer que se introduza o nosso segundo nome e o nome da rua em que vivemos, como a coisa era em inglês, teclei Alexander e Large Farm, ou seja, Alexandre e Quinta Grande. Saiu-me um resultado surpreendente: Alexander The Large. Oops… A coisa deu-me o nome da personagem do filme Laranja Mecânica que se dedicava a um bocadinho de ultra-violência. Lembrei-me que esse filme valeu ao Kubrick, por parte de alguns sectores, a acusação de ser um pornógrafo. -Ena pá, pensei eu, mas que rico pseudónimo para escrever sobre a cidade do cinema. Mas não estava destinado, violência na nossa Cidade é tema que não advogo, hoje em dia gosto mais de apelar ao amor que à guerra, se bem que, de vez em quando, me ocorra que há por aí quem mereça levar uns tau-taus.

Confesso que tenho sido um espectador pouco atento das novidades locais, em parte por ausência, em parte por algum desinteresse que se tem instalado em mim relativamente aos processos políticos e partidários do nosso burgo, assim, escaparam-me os episódios finais da novela da Cidade do Cinema. Reparei, há quatro anos, como, ao melhor estilo das eleições para qualquer clube de futebol, apareceu a notícia bombástica de que se estava a negociar a vinda para o Barreiro da Cidade do Cinema. Parecia uma coisa do género de um candidato à Presidência do Benfica anunciar que estava a negociar a vinda do Mourinho para treinador da equipa. Enfim, pareceu-me bem. A oposição de então, engoliu em seco mas não deixou de ganhar as eleições, depois, à falta de melhor assunto para disfarçar a falta de uma política cultural coerente, agarrou o tema e voltou a ele sempre que surgia a desconfiança geral de que não se fazia nada pela cultura na nossa terra, para além disso, faziam um ar de frete, como se a única coisa que quisessem era não vir a ser culpados por a dita Cidade não vir para cá. Diriam mais tarde que se não veio, a culpa não era deles.

Acontece que, nesta terra por onde o Camões terá passado a caminho da Índia, o lirismo voltou a transitar em direcção a outras paragens e a tal Cidade foi parar a Portimão, onde o Joaquim de Almeida e o Carlos Demattos decidiram assentar arraiais depois de terem andado a engodar o mercado imobiliário no Barreiro, em Sintra e em Beja. Resta saber se vão parar por ai, ou se a dita cuja vai acabar por dar um valente salto em direcção a Espanha onde os nativos são mais despachados a dar um fim às coisas que começam e têm maior quantidade de tudo aquilo que os promotores da Cidade do Cinema afirmam ser vantagens do nosso país para a instalação do projecto, incluindo maior quantidade da tal ultra-violência que todos os anos atrai uns quantos Americanos para morrer nas largadas em Pamplona. É que o projecto não deixa de ser Americano e estes, gostam pouco de brandos costumes.

Não nos afastando das coisas da cultura nem das coisas espanholas, perdoe-me o senhor se o ofendo por não lhe chamar catalão, mas não quero parecer xenófobo, tivemos esta semana o Arq. Busquets, perdoe-se-lhe a imodéstia, a apelidar a obra de que tomou parte no centro do Barreiro de exemplo para Portugal e para Espanha, nomeadamente no que diz respeito à forma definida e transparente na cooperação entre o público e o privado. Bem… Sabendo que o senhor vem da terra do Miró, não me parece estranho que tenha um conceito diferente do meu no que diz respeito à transparência, a singularidade da visão do seu conterrâneo permite que lhe ofereçamos uma grande latitude de criatividade no que refere à interpretação do conceito. Continuo a afirmar que tenho estado desatento, pelo que terei porventura perdido os episódios em que explicaram o que é que aconteceu ao concurso de ideias para o mercado, ao terceiro piso de estacionamento do Fórum e ao espaço junto ao Fórum onde era previsto ficar o novo Mercado Municipal.

Voltando à vaca fria da política cultural na nossa terra, escusando-nos a comparar a situação da mesma com a da terra do Arquitecto, por ser ridículo, e escusando-nos até de a comparar com a de concelhos limítrofes que estão, ainda assim muito longe de Barcelona no que concerne a políticas culturais, podemos afirmar que a Vereação da Cultura, no último decénio, tem sido ausente da política local, (reparem que eu disse vereação e não vereador ou vereadora, nada de mal entendidos), não se tendo criado nem estruturas nem apoios sérios ao desenvolvimento das artes a nível local, muito menos criado um programa de desenvolvimento cultural da nossa cidade e de estímulo dos nossos agentes de cultura, que, do teatro às artes plásticas, se vão queixando do abandono a que têm sido votados por parte das autoridades locais. A política cultural tem sido gerida por programinhas intercalados com uma mão cheia de grandes eventos, geralmente terminados com um fogo de artifício de que alguém terá que apanhar as canas.

Falta um grande plano, a longo prazo, de desenvolvimento cultural, falta saber onde é que os grandes eventos se enquadram nesse grande plano, falta ainda saber onde é que os interesses gerais da população e dos agentes de cultura locais se enquadram nessa visão.

Não se aproveitou tanta e tão grande obra que se tem feito nos últimos anos na nossa terra para estimular o aparecimento e a projecção de talentos locais, ao invés, vamos importando daqui e dali projectos e visões que não se conjugam com os arquétipos nativos e vão lentamente desfigurando a cidade e alienando uma cultura autóctone que parece nunca ter espaço nem incentivos para se desenvolver e projectar no mundo. Parece que os agentes culturais, a nível local, são incómodos para alguém, e, por isso o melhor é serem desprezados.

Não me levem a mal, não tenho nada contra o Mestre Malangatana, mas parece-me que a Embaixada de Moçambique faz mais pela sua promoção do que a nossa Câmara faz pela dos artistas da terra, não teria ficado nada mal a proposta de um projecto de colaboração com artistas locais para o desenvolvimento do monumento à Paz e Amizade. E também não havia necessidade dos azulejos do túnel serem de cor verde urinol pois havia na nossa terra muita e boa gente com capacidade para neles representar uma peça de arte com temas barreirenses. Quer dizer: estou triste com as opções, espero que emendem a mão nas próximas rotundas.

O artigo está terminado e ainda ninguém percebeu onde é que entra a Cidade do Cinema Porno. É que eu tenho um amigo que disponibiliza um terreno ali para os lados da Penalva e outro que conhece o Sá Leão e estamos a pensar juntar-nos para lançar o Projecto, só falta é encontrar um candidato que engula a coisa. Só cinema amador, é claro, não queremos destoar da acção política local no domínio cultural. Como diria o Kira, não nos faltam actores, actrizes nem guionistas. É que as coisas por cá estão a ficar indecentes e imorais, por isso, mais vale lançá-las na tela.

Um abraço do vosso,

Alexander The Large

aliás
Pedro Estadão

NOTA DA REDACÇÃO

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