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O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La ManchaPor Pedro Estadão

O estado da propaganda política é revelador do estado a que chegámos na vida política, tal como Quixote, os políticos portugueses estão a viver no seu próprio mundo, alheios ao que se passa no mundo real do dia a dia das pessoas comuns, lutam contra moinhos de vento que eles próprios inventam e apresentam grandes injustiças como se fossem a solução honrosa para todos os males do mundo.

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O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha Por Pedro Estadão

Por Jornal Rostos

“En resolución, él se enfrascó tanto en su letura, que se le pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los dias de turbio en turbio; y así, del poco dormir y del mucho leer se le secó el celebro, de manera que vino a perder el juicio. Llenósele la fantasia de todo aquello que leia en los libros, (…), y asentósele de tal modo en la imaginación que era verdad toda aquella máquina de aquellas sonadas soñadas invenciones que leia, que para él no había outra historia más cierta en el mundo.”

Miguel de Cervantes y Saavedra, Don Quijote de La Mancha

Há uns anos atrás, um amigo dizia-me: “Não te zangues com ele, “fulano de tal” é um personagem livresco, é normal que faça cenas destas.” Fixei-me naquela expressão, “personagem livresco”, mas escapou-me o significado, não me apercebi imediatamente do significado do que me diziam. O meu amigo estava a dizer-me, de forma simpática para “fulano de tal”, que “fulano de tal” se encontrava desfasado da realidade e, portanto, agia num mundo que era sua própria criação, e não no nosso mundo. Com o tempo, vim a perdoar as ofensas que me foram dirigidas nesse dia, por compreender que há pessoas que não vivem no mundo real, mas num mundo que é produto da sua imaginação e onde interpretam as nossas acções com base na sua própria criatividade e não no que nós estamos efectivamente a fazer ou a dizer. Consegui aprender a distinguir quando este fenómeno se me apresenta e, hoje em dia, considero que todos nós, num dia ou noutro, temos algo de livresco, e alguns de nós vivem permanentemente numa realidade paralela, que é só deles.

Em plena época eleitoral, não é raro encontrarmos personagens destes, frequentemente representados nos cartazes que inundam o espaço público, quase sempre fazendo acompanhar as suas efígies de mensagens que pretendem causar algum efeito no eleitorado, sejam estas objectivamente apresentadas na forma das tais frases de campanha, ou das imagens que representam em fundo, uma mensagem subliminar que tem, também ela, a intenção de perturbar a mente do eleitor, mas, desta vez, sem este se aperceber. É claro que, quem está mais atento a estas coisas, quando olha para um destes cartazes, rapidamente deslinda o caso e entende perfeitamente o efeito que o mesmo se destina a provocar.

Não me vou lançar aqui numa dissecação dos cartazes deste ou daquele candidato, por considerar que, no presente estado de coisas, não me considerariam um intérprete isento e imparcial das mensagens de cada um deles, antes, quero chamar à atenção dos leitores para o facto de, apesar de todo o planeamento que os tais cartazes normalmente exigem e de todo o esforço criativo que está por trás das campanhas eleitorais, nem sempre os efeitos de uma daquelas peças são os que se desejam, lançando muitas vezes mensagens erróneas para o eleitorado, daquelas que, como dizia o Pessoa, primeiro se estranham e depois, se entranham.

O efeito subliminar é poderosíssimo, tanto que num dado caso, dei por mim a perguntar a um amigo o que é que ali fazia um cartaz da Igreja do Reino de Deus, antes de me chegar perto e verificar o que realmente era, e noutro, ao passar pelo objecto, não deixei de me recordar da história de D. Quixote e seu fiel escudeiro, Sancho, o que me trouxe, em última análise, a escrever este texto. Nos dias que correm, é raro um candidato posar para mais do que uma fotografia, usando-se essa como base para tudo, deixando depois o Photoshop fazer o resto, tudo é possível, o que torna os cartazes eleitorais e toda a literatura do género, obras do estilo quixotesco, em que se pode criar todo um novo mundo, que não existe senão na imaginação do criador da campanha política. Vê-se em certos cartazes imagens idílicas de coisas que ainda não existem nem nunca existirão, noutros, de mãos dadas e lado a lado, pessoas que se recusariam a estar juntas na mesma sala, noutros ainda, representam-se multidões de apoiantes para todos os gostos, mesmo sabendo que a maior parte das pessoas representadas tirou as fotos num casting qualquer e nem sequer sabia para o que é que a fotografia seria, ultimamente, utilizada.

O estado da propaganda política é revelador do estado a que chegámos na vida política, tal como Quixote, os políticos portugueses estão a viver no seu próprio mundo, alheios ao que se passa no mundo real do dia a dia das pessoas comuns, lutam contra moinhos de vento que eles próprios inventam e apresentam grandes injustiças como se fossem a solução honrosa para todos os males do mundo. Enquanto este estado de coisas não mudar, penso que podemos garantir que as mensagens políticas não vão chegar ao cidadão comum e que a abstenção por alheamento ao sistema político vai continuar a aumentar, com as esperadas consequências.

Não será por falta minha que a abstenção vai aumentar, mas, a uma semana das eleições, parece-me que, apesar da iniciativa dos Gato Fedorento espicaçar na juventude a curiosidade pela política, não foi ainda desta que os políticos se reconciliaram com a realidade e que a afluência às urnas vai aumentar significativamente.

Posso estar enganado, mas, parece que por este caminho, não vamos a lado nenhum, pois não?

Pedro Estadão

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