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A suspeitaPor Jorge Fagundes

As eleições para os novos corpos gerentes estão à porta e se ele descobre alguma coisa, por exemplo, a venda daquelas acções que me derem uns eurozitos de ganho, vai atacar-me e não volto a ser reeleito Presidente da Direcção. E aí é que eu preciso da tua ajuda".
"Da minha ajuda? Em quê?"
"Além de seres o meu melhor amigo da Escola, até escreves nos jornais. Conheces muita gente. Arranja lá uma noticiazinha à maneira.

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A suspeita Por Jorge Fagundes

Por Jornal Rostos

Hoje, logo pela manhã, ao saír de casa para ir dar uma volta pela Avenida da Praia, estava à minha porta o meu velho Colega da Escola Alfredo da Silva.
"O que fazes aqui, tão cedo?"
"Estava à tua espera. Preciso falar contigo. Mas em privado. As paredes voltaram a ter ouvidos!"
Já em minha casa, confortavelmente instalados, perguntei: "então, o que se passa?"
"Estás sozinho? A tua empregada não veio hoje?"
"Homem, o que tens? Estás tão desconfiado. Anda algum credor a perseguir-te?"
"Estou desconfiado, e bem desconfiado. Como sabes, sou o Presidente da Direcção daquele clube do bairro onde moro. E, de uns meses a esta parte, julgo, não, tenho a certeza, que ando a ser espiado".
"Espiado?"
"Sim, espiado. Cada vez que pego no telefone e marco o número, oiço um clique e, pior do que isso, sinto alguém a respirar. Mansinho, mansinho, mas que respira, respira".
"Não será o problema da tua asma?"
"Qual asma, qual carapuça. Está lá alguém!"
"Mas é só isso?"
"Achas pouco? Mas há muito mais. Começou a aparecer lá na séde do clube um fulano que, a pretexto de beber uma bica e ler o jornal, está sempre a ver o que eu faço, com quem converso, essas coisas assim. E a cara do tipo nem me era estranha".
"Se calhar andou connosco na Escola".
"Não, não andou.É muito mais novo. E ontem lembrei-me. Quando em Agosto fui numa excursão à Madeira, ia lá um tipo que ninguém conhecia, mas que se começou a misturar".
"Ora, se ninguém o conhecia, o homem apenas queria não se sentir isolado".
"Não, não. Às refeições, sem ser convidado, não é que se sentava às nossas mesas? Um dia numa, um dia noutra. E sempre a meter a colherada. Que lata! E ontem, como te disse, lembrei-me da cara. É o tal que começou a frequentar, sem ser sócio, a séde do meu clube".
"Fala com ele e ficas a saber o que pretende".
"Nem pensar. Como as minhas relações com o Secretário-Geral andam um pouco esfriadas, por causa de eu ter mandado pintar a séde, esquecendo-me de o consultar (é pintor de profissão) e ter dado o trabalho a outro sócio, penso que o malandreco arranjou maneira de me espiar".
"E o que é que ele ganha com isso?"
"As eleições para os novos corpos gerentes estão à porta e se ele descobre alguma coisa, por exemplo, a venda daquelas acções que me derem uns eurozitos de ganho, vai atacar-me e não volto a ser reeleito Presidente da Direcção. E aí é que eu preciso da tua ajuda".
"Da minha ajuda? Em quê?"
"Além de seres o meu melhor amigo da Escola, até escreves nos jornais. Conheces muita gente. Arranja lá uma noticiazinha à maneira. Talvez pegue, e eu me veja livre daquele sonso do Secretário-Geral que até mal sabe escrever as actas das reuniões".

Jorge Fagundes

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