Saltar para o conteúdo
Colunistas

Saudades do futuroPor Pedro Estadão

O comportamento dos elementos do executivo nas reuniões de Câmara e de Assembleia Municipal foi de prepotência, arrogância e desrespeito pela oposição democrática.

Como pessoa, gosto muito do Carlos Humberto, como representante da CDU, assusta-me que este se considere na perspectiva de poder vir a obter uma maioria absoluta na Câmara Municipal do Barreiro. Uma maioria absoluta, em minha opinião, apenas nos trará mais do que descrevi nos parágrafos anteriores e sem qualquer possibilidade de contestação ou de controlo por parte da oposição.

9 min de leitura
Saudades do futuro Por Pedro Estadão

Por Jornal Rostos

Em todas as épocas eleitorais somos invadidos por sensações de incerteza e antecipação do que está para vir, associadas ao processo de decisão que nos fará, em última análise, dar o nosso voto a este ou aquele candidato. Nas eleições autárquicas, que são as que mais directamente influenciam o nosso destino, frequentemente nos confrontamos com um sentimento agridoce, que se encontra algures entre o medo e a esperança, temos de decidir o nosso futuro colectivo.

Cada vez que começa uma campanha autárquica, todos os partidos políticos, na esperança de se tornarem mais atractivos para o eleitorado, vendem uma espécie de populismo que se baseia, essencialmente, na popularidade dos cabeças de lista e fogem de debater o essencial, que são as políticas de fundo que realmente representam e defendem. Todos os partidos nos tentam fazer escolher entre pessoas, e é ai que frequentemente cometemos o erro e acabamos por dar o voto a quem mais nos atrai pessoalmente, em lugar de tomarmos a decisão que, do ponto de vista racional, é a mais correcta.

Estando, também eu, confrontado com a decisão de optar entre os caminhos que se apresentam a todos nós nestas eleições, e com a minha decisão complicada pelo facto de, pela primeira vez em muitos anos não integrar nenhuma lista, e não poder simplesmente decidir votar em mim, pensei longamente sobre a forma correcta de tomar a decisão relativa ao quadradinho onde irei colocar a cruz no dia 11. Pesou ainda em mim a responsabilidade de quem vai, brevemente, ser pai, e ter uma nova consciência, que é a de quem tem de decidir o ambiente em que os seus filhos vão nascer, crescer e tornar-se cidadãos de corpo inteiro.

Ao contrário da maior parte dos eleitores, tenho a rara característica de já me ter cruzado com cinco dos seis cabeças de lista que se apresentam a estas eleições e haver privado com eles nos ambientes profissionais, familiares ou, simplesmente em encontros de amigos. Efectivamente, partilho relações familiares ou de amizade com cada um destes candidatos e todos merecem de mim a maior estima e consideração. Este prisma torna particularmente difícil para mim tomar uma decisão em relação a qual candidato escolher, qual dos meus amigos devo apoiar nestas eleições para a Câmara do Barreiro. Carlos Humberto, Nuno Banza, Nuno Santa Clara, Mário Durval ou Carlos Salgueiro? Deverei ter de escolher o amigo que me parece mais simpático? Será que sou mais amigo de um que de outro? Ao pensar nisto percebi que a colocação da pessoa à frente dos ideais que representa me colocava perante um argumento falacioso. Para votar conscientemente no próximo Domingo, não poderei nunca escolher entre pessoas, deverei, antes, analisar profundamente o que gostava que fosse a minha terra e observar por trás de cada um dos candidatos o que é que se esconde em termos de opções e ideias para o futuro, em termos ideológicos e das possibilidades que cada um nos dá em termos de representar a aposta no progresso económico e social que desejamos.

Depois de ter eliminado como escolhas óbvias para dirigir a Câmara Municipal do Barreiro os outros quatro candidatos, por ser de fácil percepção que apenas Carlos Humberto e Nuno Santa Clara têm efectivas possibilidades de se tornarem vitoriosos nestas eleições, decidi descarnar o que cada um destes meus amigos representa em termos de opções para o nosso futuro.

O primeiro, que é o actual Presidente da Câmara, para além da simpatia com que nos brindou durante os últimos quatro anos e da capacidade que mostrou para gerir projectos alheios e opções que já estavam em curso, não tem muito que apresentar como iniciativas de progresso para a nossa cidade que tenham efectivamente partido do seu executivo. Com efeito, sob a sua liderança, o Barreiro assistiu à conclusão do Fórum e a um conjunto de obras associadas que, ao contrário de serem pensadas para o benefício de toda a população, foram orientadas de acordo com os interesses dos agentes económicos que ali operam. Percebe-se que as obras da Av. Alfredo da Silva foram de pura cosmética eleitoral, pois os esgotos domésticos não foram separados dos pluviais e, em breve, terá que se levantar novamente o pavimento da Avenida para o fazer, sem essa operação, a ETAR não funcionará.

O Barreiro deixou de ter política cultural e a Câmara não implementou de forma eficiente a regulação dos apoios aos agentes culturais e ao associativismo. A descentralização mal organizada de serviços provocou que o Barreiro seja hoje uma cidade suja, com lixo espalhado pelas ruas e jardins mal arranjados. A falta de controlo dos serviços municipais implicou a perda para o município de uma candidatura a 3,6 milhões de euros pela qual o Presidente Carlos Humberto afirmou assumir a responsabilidade política, mas que não resultou em quaisquer consequências práticas. A situação do Praiense e do Edifício do Café Barreiro continua a ser a que era no início do mandato.

O Polis, não só não foi concluído como ainda ficou suspensa a sua conclusão. As Opções Participadas nunca chegaram perto de ser um instrumento real de participação, como teriam sido se Carlos Humberto tivesse avançado para um modelo de Orçamento Participado, mas isto também seria difícil de implementar quando não se conhece efectivamente o estado das contas públicas.

Os espaços municipais, como o AMAC e a Galeria Municipal passaram à categoria de não mais que meros armazéns e as poucas actividades de interesse público foram transferidas para o espaço privado do Fórum, com o consequente investimento da CMB em publicidade a este espaço em detrimento de todos os outros espaços comerciais do concelho.

A obra do mercado foi terminada sem ter em conta o comportamento térmico e o rendimento energético do edifício, e o realojamento da estátua de Alfredo da Silva ficou manchado pela sua substituição por um barracão em alumínio. As escolas primárias continuam em avançado estado de degradação e antiguidade e o pré-escolar continua refém da iniciativa privada, sendo evidente a dificuldade deste executivo em fazer uma boa gestão do parque escolar que tem a seu cargo.

O tanque de natação do Lavradio foi baptizado de Piscina Municipal, como se a mudança de nome servisse o propósito de cumprir a única promessa eleitoral que Carlos Humberto fez, que foi a da construção de uma nova Piscina Municipal, a realidade é que a Piscina Municipal ainda continua por construir. A situação das AUGIS do concelho foi remetida à gaveta, enquanto se realizaram algumas reuniões de efeito cosmético com os moradores para deixar tudo na mesma.

A Acção Social do município foi esquecida e nada se fez quanto à eliminação das bolsas de pobreza do Concelho e à integração das minorias. O Barreiro continua a ser uma cidade onde os portadores de deficiência não são tidos em conta no planeamento do espaço urbano e, portanto, não se vela pela igualdade de oportunidades para todos os cidadãos. No fim de tudo isto, escuso-me de debater a intervenção da CMB na situação das infraestruturas desportivas existentes no Concelho e a eficácia dos desenvolvimento desportivo na nossa terra, por ser a demonstração de uma completa falta de interesse pela solução dos problemas, cada vez maiores, que se encontram nesta área.

O comportamento dos elementos do executivo nas reuniões de Câmara e de Assembleia Municipal foi de prepotência, arrogância e desrespeito pela oposição democrática.

Como pessoa, gosto muito do Carlos Humberto, como representante da CDU, assusta-me que este se considere na perspectiva de poder vir a obter uma maioria absoluta na Câmara Municipal do Barreiro. Uma maioria absoluta, em minha opinião, apenas nos trará mais do que descrevi nos parágrafos anteriores e sem qualquer possibilidade de contestação ou de controlo por parte da oposição.

Mesmo que não conhecesse Nuno Santa Clara Gomes como conheço, e se não soubesse da sua capacidade e competência para fazer uma gestão verdadeiramente participada e direccionada para o bem comum, sem se deixar ficar refém de um qualquer grupo económico, a simples possibilidade de a CDU, perante a sua acção dos últimos quatro anos, obter uma maioria absoluta, me faria tomar uma decisão quanto ao meu voto.

A subjugação da governação municipal dos últimos quatro anos aos interesses capitalistas de um ou dois grupos económicos vai contra toda a ideia de progresso social e contra o ideal do serviço público, que é o de servir a todos os cidadãos, colocando em causa o próprio conceito de democracia e pervertendo aquela que deve ser a acção de um governo autárquico, em prol de todos os cidadãos, e sobretudo dos mais desfavorecidos.

Um autarca não deve, nunca por nunca, colocar os interesses económicos dos poderosos à frente do interesse colectivo dos seus cidadãos, nem colocar o serviço aos poderosos à frente do serviço aos desfavorecidos. Pelo caminho que leva, a CDU, rapidamente, vai devolver o Barreiro ao cinzentismo dos dias mais sombrios da nossa terra, mas desta vez, com uma maioria absoluta, imparável e impossível de controlar democraticamente.

Não me deixo ficar descansado com o resultado das eleições legislativas, que deram, ao PS, no Concelho do Barreiro, a maioria em quase todas as urnas de voto. Não nos podemos deixar dormir e pensar que está resolvido e a coisa está equilibrada. Por mim, pelo futuro da nossa comunidade e pelas crianças que estão por nascer na nossa terra, já decidi. Vou votar no Nuno Santa Clara Gomes.

Pedro Estadão

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção