A percepção da realidade e os mediaPor Nuno Cavaco
MOITA

Por Jornal Rostos
Nos dias que vivemos discute-se muito a importância da informação e a forma como esta nos chega. Fazem rankings de países onde se atribui uma classificação à liberdade de imprensa mas, esquecem-se de a enquadrar, de a estudar. A informação para além de ser um poder é também um negócio e um negócio dos mais lucrativos. A maior parte dos grupos de comunicação social são detidos por pessoas muito ligadas ao mundo dos negócios e à política. Na maior parte dos países classificam-se as publicações, as rádios e as televisões como afectas ao partido A ou B. Os comentadores são escolhidos segundo o seu perfil e com base em critérios muito pouco transparentes. Basta assistirmos a programas de televisão, de debate político, para constatarmos que o espectro político não está representado. Em Portugal, não são raros os casos em que programas semanais de debate político têm um painel reduzido, só com pessoas do PS e do PSD. Onde está aqui a liberdade de imprensa ou esta é apenas um direito da imprensa fazer o que bem lhe apetecer? Destes factos resultam danos para a democracia. Não tenho dúvidas de que muito do que nos chega pela via da comunicação social contribui para a formalização de opinião por parte de cada um de nós. Nos assuntos correntes todos têm opinião e a maior parte tem a opinião dos comentadores ou é influenciado pela forma como as noticias são dadas. Com isto não quero afirmar que os povos são enganados e que os cidadãos do mundo são incautos mas, apenas, que são influenciados.
É por demais evidente que a organização dos meios de comunicação social influência a nossa vida e a nossa forma de entender a realidade. Tal como a história, que é escrita pelos vencedores, os relatos quotidianos, a chamada opinião pública e o noticiário actual são feitos por pessoas que estão ao serviço dos grupos de comunicação social dominantes e estes, como já escrevi, são dirigidos por pessoas muito ligadas aos negócios e à política. É este “caldo” que necessita de transparência e de intervenção estatal.
Por via da imprensa e nos últimos tempos em Portugal, assistimos a combate político/partidário nas televisões e jornais, feito por pivots de telejornal e pelas redacções de jornais. Sem querer subir a parada e o chinelo acima do sapateiro, não tenho dúvidas, que o “comportamento dos órgãos de comunicação social”, explica em parte os resultados eleitorais o que não é aceitável. O poder político deve estar acima do poder financeiro e não servir para o catapultar!
A realidade, para muitos inquestionável, que nos chega pelas televisões, pelos jornais (alguns gratuitos) e pelas rádios, é uma versão do que realmente acontece, aconteceu ou que existe. Uma versão do grupo dominante, uma versão que deve servir antes de mais para reflectir e não para assimilar com todas as vírgulas e pontos finais.
A massificação do uso da Internet e a crescente importância dos jornais locais em algumas regiões, como é caso a de Setúbal, vêm mostrar que tudo pode ser diferente. Que várias opiniões permitem maior democracia. A Internet permite ainda de uma forma interactiva que o leitor opine sobre o acontecimento, sobre a opinião. Transformou o clássico cidadão de bom receptor em agente de informação, em fiscal, em repórter em cima do acontecimento e, mais importante, em agente político.
A realidade está em mudança e as várias formas de a entender também. Os media têm de perceber que todos somos criadores da informação e que propósitos menos claros serão despejados no caixote do lixo da história por uma crescente consciência colectiva, por uma maior participação de pessoas na criação dos conteúdos e pela imperativa “formação dos media”, no sentido educativo, por parte dos cidadãos. Afinal, é para eles que os media produzem a informação!
O crivo mais apertado em relação à “oferta” da imprensa, fruto da consciência e da exigência de mais e melhor informação só nos pode levar a um país com mais debate, com cidadãos mais informados, que decerto construirão uma melhor realidade!
Nuno Cavaco
Membro do PCP













