Corações de AtumPor Pedro Estadão
BARREIRO

Por Jornal Rostos
“Pouse o auscultador e guarde, disse-me o teu telefone, pode telefonar mais tarde, ou mesmo deixar o seu nome, tua voz na gravação, maltrata o meu coração, escarnece do meu amor, no teu atendedor. O seu cartão não é válido, sim eu sei que já não presta, e o teu semblante pálido diz-me que já nada resta. Tú que eras a minha fada, mas numa manhã nevada, ficaste estátua de gelo, dos pés até ao cabelo.”
Manuel Vieira, O Atendedor
Dou por mim, às 2 da madrugada a contemplar o Évora, numa atmosfera nocturna, pintada pelo Lenine Rodrigues, ao fundo, do meio do nevoeiro, surgem os moinhos de Alburrica, penso na quantidade de Barreirenses que foram exportados e importados para e da Capital, naquele transporte fluvial que ainda tinha três classes de passageiros, 1ª, 2ª e 3ª. Atrás de mim tenho uma imagem do cerco, com pequenas lanchas, ainda a vela, aterradas no lodo, a maré vazia, a muralha da Avenida da Praia, antes de ser Passeio Augusto Cabrita, escrevo-lhes do meio do rio, entre a madrugada e o nascer do sol.
À minha direita tenho um estendal de roupa plantado na praia pelo Kira, a lua minguante, as barracas construídas em volta de um atoleiro que o saudoso José Pedro da Costa, baptizado tardiamente Doutor Matraca, insistia ter sido um porto Romano, a lua do Kira é a mesma que a do Lenine. Um pouco mais ao lado uma xilogravura que o Cabanas ofereceu ao meu avô e que, sem saber como, me veio parar às mãos. Está frio, o mês de Novembro apresentou-se duro, tenho a janela aberta e enrolo o pescoço no cachecol do Barreirense que o Tonicha me ofereceu no fim de um jogo com o Atlético, lembro-me das pessoas das famílias antigas do Barreiro, que me conheceram em bebé, de quem bebi as ilusões de um mundo melhor e de quem herdei a convicção de que nasci numa aldeia em que todos se conheciam e estavam de braços abertos para se dar a conhecer aos novos que chegavam e a quem por cá passava e a fazer de todos eles cidadãos iguais da nossa terra.
À esquerda, pela janela, vejo as chaminés que restam do que foi em tempos, o maior complexo químico da Península Ibérica, ao fundo, Lisboa, enquadrada pelas duas pontes. Está mesmo frio, não percebo porque é que o Cristo-Rei não se enrola na manta e vai para Lanzarote, diz na televisão que lá estão vinte e seis graus e mais o Saramago, com quem parece que tem muito para falar. Deixo-me perder no sonho de um Barreiro perdido povoado por grandes homens que já não existem.
Toca o telemóvel, fico alerta, tenho uma mensagem: Tirámos-lhe a confiança política, o que é que achas? Ligo de volta, dá-me o atendedor, lembro-me da música do Manuel João Vieira, com o Maestro Shegundo Galarza, deixo o meu nome, ligo mais tarde. O que é que acho? Mandei uma mensagem de volta: Não se pode tirar o que o que ele nunca teve, não funciona, um abraço, boa noite!
Olho em volta e dou por mim, de novo, no meio do rio, penso para mim mesmo que estou à tempo demais longe da margem, está na altura de mudar os quadros de sítio, talvez mudar o estendal da roupa para mais perto. Há muita para lavar, alguém vai ter que a estender, ou então apanho o Évora e vou para outras paragens, decidi pôr os pés em terra firme e voltar à muralha da Avenida da Praia. Lembrei-me de um pesadelo que tive em tempos: Estava no Évora, a atravessar o Rio, o barco começou a meter água, os passageiros, desesperados, pregavam tábuas para tapar os buracos, cada prego que cravavam abria um novo buraco. Só havia uma solução, nadar de volta para a margem, e ninguém se apercebia disso, pareciam querer ir ao fundo com o barco… Eu, saltei do barco e acordei, demorei anos a perceber que os outros ainda lá ficaram a pregar mais e mais tábuas. Se não lhes faltou a matéria, por esta altura já devem estar a chegar ao fundo do rio, se faltou, devem aparecer no próximo cerco. Corações de Atum, Sardinhas Rainha da Costa e outros enlatados.
Boa noite e boas entradas na época festiva que aí vem.
Barreiro, 6 de Novembro de 2009
Pedro Estadão













