Há dias assim!Por Jorge Fagundes
BARREIRO
Estarrecido, ouvi a resposta: "é um mistério em vias de esclarecimento por parte dos historiadores locais. Mas a maioria inclina-se no sentido de ser obra de um desconhecido escultor do século vinte homenageando o primeiro alcaide do Barreiro". Há dias de azar!

Por Jornal Rostos
Hoje, a meio da manhã, subindo pacatamente a Avenida Alfredo da Silva, assisti a uma série de acontecimentos, tais como:
1 - no mesmo passeio, em sentido contrário, descia uma loura trazendo à trela um enorme cão. O qual, valha a verdade, passava totalmente despercebido, já que a dona, essa sim, dava bem nas vistas. Alta, esbelta, botas à moda, collants pretos justissimos às pernas, e um cinto bem estreito a fazer de saia. Blusa em tom rosa, generoso decote a fazer-me recordar Bernardo Guimarães, poeta brasileiro do século dezanove, o qual, num seu poema intitulado "o hino do prazer", mesmo sem ter visto esta donzela, a fazia, como é o caso, portadora de "ebúrneo colo, torneados seios".
O pior é que um outro transeunte, mais adiantado do que eu na subida da Avenida, talvez distraído com o que segundos antes vira, não deu conta que o acompanhante cão da dita aliviara as entranhas metros acima, deixando como que uma pequena lagoa de dejectos. Foi tiro e queda! Pisadela, escorregadela! Azar!
2 - Poucos metros passados, em frente de uma agência bancária, um irritado automobilista reclamava, por, ao saír, ter encontrado o seu "Mercedes" bloqueado pela Polícia. "Parece impossível! Então aqui, neste sinal, não diz que se pode estacionar quinze minutos para cargas e descargas? E eu só demorei aí uns dez minutos a descarregar uns eurozitos na minha conta. Se querem experimentar os novos bloqueadores vão fazê-lo onde há abusos". Azar!
3 - Já em frente ao renovado Mercado 1º. de Maio, junto a uma passadeira, estava um gato preto. Lembrei-me, de imediato, de uma velhinha minha vizinha que, quando ainda era menino e moço, me avisara que ver gato preto, logo pela manhã, dava azar. E tinha razão. O felino, embora atravessando na área pedonal, levou um valente toque de um automóvel que circulava na via ascendente. Fugiu a quatro patas, pelo eriçado, mas safou-se, dado que o condutor, homem cumpridor dos sinais virtuais de proibição de circulação a mais de trinta quilómetros/hora, não excedia essa velocidade. Neste caso particular, e ainda bem, azar do gato!
4 - Mais adiante, junto de uma estátua que eu, mais muito boa gente, sabe ser de Alfredo da Silva, um casal, pelos vistos de primeira passagem pelo Barreiro, perguntava a um senhor sentado no murete em frente, quem era aquela figura.
Estarrecido, ouvi a resposta: "é um mistério em vias de esclarecimento por parte dos historiadores locais. Mas a maioria inclina-se no sentido de ser obra de um desconhecido escultor do século vinte homenageando o primeiro alcaide do Barreiro". Há dias de azar!
Regressado a casa, não resisti à tentação de passar ao papel estas observações matinais. E só então dei conta, já que tenho o hábito de datar os meus devaneios literários, que hoje é sexta-feira, dia treze!
Está tudo explicado. Há dias assim!
Jorge Fagundes













